Da padaria ao lazer, onde dá para resolver tudo a pé no bairro?
Moradores aproveitam o comércio de bairro para encurtar rotina, mas ainda apontam falta de infraestrutura
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A expansão do comércio e dos serviços nos bairros de Campo Grande reduziu a dependência do Centro, mas a oferta ainda é desigual. Moradores como a cabeleireira Letícia Oliveira e o comerciante Paulo Cézar Schwerz resolvem a maior parte das necessidades perto de casa, a pé ou de bicicleta. Já o Portal Caiobá carece de lotérica, posto de combustível, lazer e asfalto. Segundo o Secovi-MS, a proximidade de serviços valoriza imóveis e orientou o Plano Diretor.
A expansão do comércio e dos serviços para os bairros de Campo Grande mudou a rotina de quem vive longe do Centro. Em algumas regiões, mercados, escolas e opções de lazer ficam a poucos minutos de casa; em outras, ainda faltam serviços e estrutura.
A diferença entre essas realidades ajuda a entender por que alguns moradores conseguem resolver boa parte do dia a dia a pé, enquanto outros ainda dependem de deslocamentos.
Para Letícia Evellen Oliveira, de 31 anos, a resposta é quase sempre sim. Dona de um salão de beleza na Rua Cachoeira do Campo, no Portal Caiobá, e moradora da região do Jardim Pênfigo, ela conta que há tempos não precisa ir ao Centro fazer compras. “Hoje em dia, cada bairro virou um centro. A gente consegue encontrar praticamente tudo perto de casa”, afirma.
O preço também é um atrativo. Letícia cita como exemplo os materiais que usa no salão. “Eu preciso comprar cílios para fazer as extensões. Nas lojinhas de R$ 10 aqui da região, encontro produtos de boa qualidade e por preços bem mais baixos”, relata.
Nas proximidades, ela também tem acesso a lojas de roupas, calçados e outros estabelecimentos, muitos deles a uma curta caminhada. Os três filhos, de 16, 12 e 10 anos, estudam perto de casa e praticamente não frequentam o Centro. Até as visitas ao shopping diminuíram. “Eles conhecem o shopping, já foram, mas hoje compram muito pelo TikTok Shop, Shopee e Mercado Livre. Até as crianças se adaptaram a essa nova maneira de comprar”, diz.
Para o lazer, a família aproveita praças, campos de futebol, feiras e atividades gratuitas. Segundo Letícia, há alternativas para crianças, adultos e idosos, sem a necessidade de percorrer grandes distâncias.
Essa concentração de atividades nos bairros também influencia a escolha de onde morar. Segundo o presidente do Secovi-MS (Sindicato da Habitação de Mato Grosso do Sul), Geraldo Paiva, a população tem buscado regiões que permitam resolver as necessidades cotidianas com menos deslocamentos. “Nas cidades modernas, a população tem se concentrado em bairros ou regiões que oferecem serviços, comércio e, se possível, lazer e emprego, reduzindo a necessidade de deslocamento”, explica.
De acordo com Paiva, aproximar moradia, comércio e serviços foi uma das diretrizes consideradas na elaboração do atual Plano Diretor de Campo Grande. Ele também aponta que essa oferta contribui para atrair moradores e valorizar os imóveis.

Dono de uma padaria no Portal Caiobá e morador do Jardim Leblon, o comerciante Paulo Cézar Amaral Schwerz, de 70 anos, percebe essa diferença entre as regiões. Ele estima que consegue resolver cerca de 90% das necessidades na área onde mora. Já no Caiobá, onde trabalha, esse percentual cai para 70%. “No Leblon, na região do Imbirussu, resolvo praticamente tudo. Tem unidade de saúde, atacadista, mercado, lotérica e posto de combustível. Só preciso sair para algum serviço específico, como cartório”, conta.
No Portal Caiobá, porém, ainda faltam algumas estruturas. Entre as principais reclamações dos clientes está a ausência de uma casa lotérica e de um posto de combustível, além da falta de pavimentação e espaços de lazer. “A maior reclamação que ouço é sobre a lotérica, principalmente dos idosos que têm dificuldade com a internet. Recebi a informação de que uma unidade deve ser instalada na Rua Francisco, mas ainda sentimos falta de alguns serviços”, relata.
A poeira nas ruas sem asfalto também incomoda. Segundo Paulo, alguns moradores procuram praças em bairros vizinhos devido à falta de estrutura. “Esses dias, dois moradores comentaram comigo que precisam ir até o Santa Emília porque as praças de lá são melhores. Aqui ainda temos poucas opções de lazer, mas acredito que o bairro vai melhorar”, afirma.
O relato do comerciante mostra que, apesar do avanço do comércio e dos serviços nos bairros, ainda há melhorias necessárias. Segundo Geraldo Paiva, do Secovi-MS, a infraestrutura também influencia a escolha de onde morar e a valorização dos imóveis.
Entre os serviços mais procurados estão escolas, unidades de saúde, mercados e farmácias. Entre os fatores considerados importantes estão abastecimento de água, energia elétrica, rede de esgoto, coleta de lixo, pavimentação, drenagem e acesso ao transporte coletivo.
Apesar das limitações do Caiobá, Paulo diz que é possível fazer boa parte das atividades a pé ou de bicicleta, tanto no bairro onde trabalha quanto no Leblon. O carro, segundo ele, acaba sendo utilizado mais por hábito do que por necessidade. “Dá para fazer a maioria das coisas a pé. A gente sai de carro porque está acostumado”, admite.
Para o comerciante, a expansão dos bairros é um caminho sem volta. “Acredito que o Centro nunca mais vai ser o mesmo, porque o comércio se espalhou e se diversificou. Cada região vai ter seus bairros-polo”, avalia.
A internet também facilita sua rotina, permitindo abastecer a padaria sem precisar sair para comprar mercadorias. “Hoje, o que não encontramos na região, compramos pela internet e recebemos na porta”, completa.

Na padaria de Paulo, a comerciante Marli Alves, de 47 anos, tomava café com o marido, Antônio Severino da Silva, de 59, na manhã desta sexta-feira (9). Moradores do Portal Caiobá há mais de 20 anos, eles costumam dar preferência aos estabelecimentos da vizinhança, seja para tomar café, almoçar fora ou sair à noite. Quase todos esses trajetos são feitos a pé.
“A maioria das coisas que a gente faz é aqui no bairro mesmo. Viemos tomar café na padaria, temos um ótimo restaurante ali na Vila Fernanda e, quando queremos sair à noite, procuramos uma pizzaria por aqui. O bairro supre muito as nossas necessidades”, afirma.
Marli também faz questão de valorizar os comerciantes da região. “Tem que ser assim, um ajudando o outro”, comenta. Apesar da praticidade, ela reconhece que ainda faltam espaços de lazer para adultos e crianças. Algumas alternativas ficam no vizinho Santa Emília, onde a família também consegue chegar caminhando.
Sobre a falta de asfalto apontada pelo comerciante Paulo Cézar, algumas ruas do Portal Caiobá já estão incluídas no cronograma de pavimentação.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.


