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Capital

Dois enfermeiros da ala da covid são suspeitos de estupro no HR

Quatro profissionais do hospital já foram ouvidos e os outros dois serão chamados para depor

Por Anahi Zurutuza | 11/02/2021 13:23
Durante entrevista, olhares da mulher de 36 anos, que acusa enfermeiro de estupro, não negam: ela oscila entre tristeza, medo e raiva (Foto: Henrique Kawaminami)
Durante entrevista, olhares da mulher de 36 anos, que acusa enfermeiro de estupro, não negam: ela oscila entre tristeza, medo e raiva (Foto: Henrique Kawaminami)

Dois enfermeiros, que têm contrato temporário com o HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, serão intimados para depor em investigação sobre estupro denunciado por paciente da enfermaria destinada ao tratamento de quem tem a covid-19. Os dois estavam na escala de trabalho da madrugada  de 4 de fevereiro, quando a mulher, de 36 anos, revelou ter sido abusada.

Segundo a delegada responsável pelo caso, Maíra Machado, da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), embora a vítima saiba descrever o enfermeiro que a atacou, os profissionais em questão têm semelhanças físicas.

Questionada sobre se outras denúncias chegaram até a Deam, uma vez que a própria mãe da vítima desconfia que a filha não seja "um caso isolado", a delegada afirma que não. “Mas eles têm contratos temporários e estão há pouco tempo nos hospital, trabalham especificamente na ala da covid, devem inclusive ter sido contratados para isso [o reforço do quadro de pessoal para a pandemia]. Mas, vamos ouvi-los e esclarecer tudo isso. No mais tardar, na semana que vem”.

Peça-chave – A delegada já ouviu 4 enfermeiras – uma delas, peça-chave na investigação, já que foi a primeira a ter contato com a paciente logo após aquela madrugada. A profissional relatou que percebeu o abalo da mulher doente logo que chegou. A troca dos plantões acontece às 6h30.

“Ela percebeu que a paciente estava muito nervosa, muito alterada e conversando com um médico. Quando médico se afastou, essa enfermeira se aproximou e foi quando a vítima chorou e relatou o que havia acontecido. Ela não havia feito as refeições noturnas e nem bebido nada”, resume Maíra Machado sobre o depoimento da testemunha.

A servidora, imediatamente, comunicou o ocorrido à superior dela e às colegas daquele andar.

Vítima (ao fundo) ainda está muito debilitada, fisicamente, por causa da covid, e psicologicamente, diante do trauma, segundo delegada (Foto: Henrique Kawaminami)
Vítima (ao fundo) ainda está muito debilitada, fisicamente, por causa da covid, e psicologicamente, diante do trauma, segundo delegada (Foto: Henrique Kawaminami)

Apoio – A paciente, contudo, não teve todo o apoio necessário, desconfia a delegada. “A vítima estava muito abalada, mas me parece que o tratamento do hospital não foi bom, não prestou apoio necessário quando o caso chegou ao corpo administrativo. Duvidaram dela, segundo a vítima”.

A responsável pela investigação lembra que o caso chegou à Deam pela mãe da vítima. Naquela manhã, a mulher de 56 anos foi até no HRMS, logo após receber relato da filha pelo WhatsApp. “Ela exigiu ver a filha, o que era um problema, porque os pacientes de covid não ficam acompanhados. Mas, diante da situação, autorizaram. Então, logo depois de ouvir a vítima e tranquiliza-la, nos procurou”.

A mãe conseguiu ainda, naquele dia, que a paciente fosse transferida de enfermaria e andar. Ela estava internada em quarto bem isolado. “Também estava com problemas respiratórios. Até hoje, é difícil falar. Imagina diante do nervosismo e estado de pânico?”, explica a delegada sobre a dificuldade da vítima de comunicar o que havia acontecido com ela durante a madrugada.

Delegada Maíra Pacheco Machado, da Deam. (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)
Delegada Maíra Pacheco Machado, da Deam. (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)

Conclusão do inquérito – Maíra afirma que, até agora, o hospital só colaborou com a entrega de escala de plantão. A Deam aguarda ainda o envio de outros documentos solicitados, como o prontuário médico da paciente.

A vítima e a mãe dela também já foram ouvidas. A mulher foi encaminhada para exames no Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal). A responsável pelo inquérito pediu ainda perícia nas roupas que a paciente usava na noite do estupro. Ainda não há prazo, portanto, para a conclusão das investigações.

Não há informações sobre quais providências foram tomadas pela instituição. "Reiteramos que todos os casos de supostas infrações nos diversos campos, administrativo e assistencial, o HRMS pauta-se nos ditames éticos e legais vigentes para tomada de providências", diz nota enviada pelo hospital, a única manifestação até agora.

O caso – A paciente estava internada desde o dia 1º de fevereiro. Bastante debilitada, depois de ter passado mal durante a noite, tendo vômito e falta de ar, a paciente notou quando o profissional de enfermagem começou ir ao quarto dela e passou a passar a mão em seu corpo.

Em determinado momento, por volta das 3h, o suspeito, segundo a vítima, retornou ao leito com “óleo de girassol”, passou nos dedos e começou os abusos. “Dizia que eu ia gostar”, contou a mulher em entrevista ao Campo Grande News, concedida ontem (10), um dia depois de receber alta.

A vítima ainda tenta se recuperar das sequelas que a covid-19 deixou. No entanto, segundo ela, se as dores da doença ainda causam desconforto, o abalo emocional, depois de ser abusada sexualmente, é irreparável.

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