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Capital

Em ação separada, mãe e padrasto de garotinha morta são réus por tortura

MP ofereceu nova denúncia que pode render condenação “extra” a Christian Leitheim e Stephanie de Jesus

Por Anahi Zurutuza | 22/09/2023 15:37
Com chutes do padrasto, menina fraturou perna esquerda, segundo acusação (Foto: Arquivo de família)
Com chutes do padrasto, menina fraturou perna esquerda, segundo acusação (Foto: Arquivo de família)

Em nova ação penal, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) buscará punir Stephanie de Jesus da Silva, 24, e Christian Campoçano Leitheim, 26, acusados de matar garotinha de 2 anos e 7 meses, pelo crime de tortura qualificada. A denúncia, oferecida em 9 de agosto – sete meses após a morte da criança –, tramita em segredo de Justiça e já foi recebida pela Veca (Vara Especializada em Crimes contra a Criança e o Adolescente).

Para o promotor Marcos Alex Vera de Oliveira, a menina foi submetida a verdadeiras sessões de tortura praticadas por Christian, o padrasto, como forma de castigo. Numa das ocasiões, fraturou um das pernas. A mãe da garota, no entendimento da acusação, foi omissa. “(...) nas mesmas circunstancias de tempo e local, a denunciada Stephanie de Jesus da Silva, genitora da vítima, ciente da ilicitude e reprovabilidade de sua conduta, e tendo o dever legal de impedir o resultado, se omitiu em face da tortura praticada pelo codenunciado Christian Campoçano Leitheim contra a vítima”.

Para embasar a denúncia, o promotor narrou que em depoimento especial, dado à DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), o filho mais velho de Christian, à época com 5 anos, revelou que o pai havia chutado a enteada. Ao ser questionado se ele se lembrava de a irmã ter machucado a perna a ponto de usar gesso, o menino respondeu afirmativamente: “Foi meu pai, meu pai que chutou ela para a rua, chutou ela duas vezes. Aí deixou ela machucada”.

Regaçou a perna dela, pegou [algum objeto que não foi possível identificar na fala da criança] fez assim [demonstração de como teria ocorrido], depois beliscou a perna dela”, completou garotinho ouvido na delegacia especializada.

Conforme apurado, o episódio aconteceu em novembro do ano passado. No dia 18 daquele mês, a menina foi socorrida até uma unidade de saúde da Capital, onde foi constatado que ele havia sofrido “fratura incompleta da tíbia esquerda”.

Em seus dois anos de vida, a menina passou por procedimentos médicos por pelo menos 30 vezes, em postos da Capital. Dentre as passagens pelas unidades de saúde, além da perna quebrada, há registros das vezes em que a criança foi levada com sintomas gripais, vômito e queimadura no braço.

O crime de tortura prevê pena de 2 a 8 anos de prisão. Mas a denúncia inclui agravantes, o que pode render condenação maior para Crhistian e Stephanie.

"Tadinha. Tá morrida", comenta Christian em foto da enteada desfalecida enviada pela mãe no dia 16 de novembro de 2022. (Foto: Reprodução do relatório da polícia)
"Tadinha. Tá morrida", comenta Christian em foto da enteada desfalecida enviada pela mãe no dia 16 de novembro de 2022. (Foto: Reprodução do relatório da polícia)

Surra e vômito – Dois meses antes de morrer, a garotinha foi socorrida até a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Bairro Coronel Antonino com vômito duas horas e meia depois de levar surra do padrasto. É o que revelou um dos diálogos travados entre Christian e Stephanie. A conversa de WhatsApp está em relatório produzido pela DEPCA para embasar as acusações de assassinato contra o casal.

De acordo com investigadores, trechos das trocas de mensagens da ré com o contato “Amor Amorzinho” – que seria um número antigo de Christian, porque a conversa havia sido arquivada – chamaram a atenção porque o suspeito admite para a mãe agressões cometidas contra a enteada.

No dia 16 de novembro do ano passado – dias antes da criança fraturar a tíbia, portanto – o padrasto reclama das crianças. Como Stephanie trabalhava como vendedora, Christian era responsável por cuidar do filho, da enteada e da bebê, filha do casal.

“Na hora que você chegar, eu saio. Dei uma surra na menina*, só para informar, já que ela não quis comer e mijou [sic] duas vezes na roupa”, afirma o padrasto por mensagem de texto enviada à mulher, às 13h20.

No minuto seguinte, ele continua, aparentemente tentando justificar algum ferimento na cabeça da criança: “Bateu a mamadeira na boca da bebê* de propósito. Começou a chorar, falando que queria dormir, porque estava com sono. Aí quando mijou [sic] pela primeira vez, foi pro banheiro quietinha tomar banho e escondeu o short no meio das roupas sujas. Aí quando eu cheguei, estava com um galo na testa e a boca sangrando”.

Mais tarde, já no pronto-socorro, Stephanie encaminha duas fotos da filha, dizendo: “Cheguei aqui no posto. Tô fazendo a ficha dela”. Segundo apuração da polícia, a mãe se referia à UPA do Coronel Antonino, mesma unidade para onde a garotinha foi levada no dia 26 de janeiro deste ano, já morta.

Às 16h32, a jovem volta a falar com o marido: “vomitou mais um pouco”. A mãe afirma que a criança tomou Bromoprida (remédio para evitar vômitos) e foi levada para tomar soro.

“Tadinha”, responde o padrasto, comentando foto enviada por Stephanie que mostra a menina no colo dela, de olhos fechados. “Tá morrida”, ele também diz.

Mãe mostra ferimento na cabeça da filha e questiona padrasto, exatamente 1 ano antes da morte (Foto: Reprodução)
Mãe mostra ferimento na cabeça da filha e questiona padrasto, exatamente 1 ano antes da morte (Foto: Reprodução)

Meses antes – Outra conversa levada pela investigação para o relatório aconteceu no dia 17 de agosto de 2022. Christian critica as crianças em mensagem de áudio. “Nossas crianças são sensacionais. Eu saí ali fora para passar uma vassourinha, daqui a pouco eu escuto... [imita som de choro]... Eu não sei o que aconteceu. Se o [filho*] derrubou ela, se ela caiu. Eu sei que eu coloquei cada um num canto e a [enteada*] tá com a cabeça rachada. Ou ela bateu no chão, ou na cadeira ou no rack do computador”.

Stephanie duvida: “Mas a buchecha [sic], o olho, tá tudo vermelho”. O marido justifica: “Tá vermelho, porque ela é vermelha né fia? Mas tá normal. Eu já coloquei ela no chuveiro. Coloquei gelo na testa dela, mandei ela ficar segurando e desinchou. Mas, vai ficar marcado, certeza”.

A mãe continua fazendo perguntas, dando a entender que não era a primeira vez que via situação assim. “Você chegou a morder mais ela? Ela tá com uma mordida enorme no braço”, diz e envia foto. O padrasto responde: “Mordi ela. Mas esse foi quando a gente tava brincando. Sabe que não controlo a mordida. Ela é macia demais”.

Exatamente um ano antes da constatação do óbito da menina, no dia 26 de janeiro de 2022, outro diálogo intrigou os investigadores. Na ocasião, a mãe questiona o marido sobre ferimentos encontrados no corpo da filha. “Mor, a cabeça da [vítima*] tá sagrando”.

Por áudio, o padrasto admite ter dado “um cascudo” na menina. “Mas foi no miolo. Se você olhar, vai ter uma marquinha. Isso aí, até a hora que eu saí, não tava não”.

O homicídio – Na tarde do dia 26 de janeiro, uma quinta-feira, a menina de 2 anos e 7 meses deu entrada na UPA do Coronel Antonino, no norte de Campo Grande, já sem vida. Inicialmente, a mãe, que foi até lá sozinha com a garota nos braços, sustentou versão de que ela havia passado mal, mas investigação médica apontou lesões pelo corpo, além de constatar que a morte havia ocorrido cerca de quatro horas antes de chegar ao local.

O atestado de óbito apontou que a menininha morreu por sofrer trauma raquimedular na coluna cervical (nuca) e hemotórax bilateral (hemorragia e acúmulo de sangue entre os pulmões e a parede torácica). Exame necroscópico também mostrou que a criança sofria agressões há algum tempo e tinha ruptura cicatrizada do hímen – sinal de que sofreu violência sexual.

No primeiro processo contra o casal, o padrasto responde por homicídio qualificado e estupro. Já a mãe da menina, pelo assassinato, como o Christian, mesmo que não tenha agredido a filha, mas porque, no entendimento do MP, ela se omitiu do dever de cuidar.

Na delegacia, Christian optou por exercer o direito ao silêncio. Já Stephanie afirmou que o companheiro batia na filha como forma de correção, mas negou que ele tivesse espancado a enteada naquele dia. Ela alega que nunca denunciou por medo do marido, já que também era vítima de violência doméstica.

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