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Capital

Em casa com 8 pessoas, salário mínimo da avó faz “milagre” durante pandemia

Sem aula desde a 2ª quinzena de março, consumo em casa aumentou e complementação de renda caiu com necessidade de ficar em casa

Por Liniker Ribeiro | 29/05/2020 08:14
Dona Rosalina, de roxo, é aposentada e mora com a filha e mais seis netos; quatro deles aparecem na foto(Paulo Francis)
Dona Rosalina, de roxo, é aposentada e mora com a filha e mais seis netos; quatro deles aparecem na foto(Paulo Francis)

Dois meses sem aula. De um lado, a prevenção e segurança por crianças estarem em casa, menos vulneráveis ao vírus causador da covid-19, que já provocou a morte de mais de 26.754 mil brasileiros, 18 em Mato Grosso do Sul. Do outro, a preocupação de muitos adultos por não terem com quem deixar os filhos e, principalmente, o aperto para conseguir fazer o dinheiro render, agora que todos ficam mais tempo em casa.

Para muitos, o mínimo é a “salvação”. Tem quem, com R$ 1.045, sustente uma família de 8 pessoas, seis delas crianças. “Faz milagre”, classifica a aposentada Rosalina Moreira Cavalcante, de 62 anos, que atualmente mora com a filha e seis netos e é a única renda dentro de casa.

“Os netos são filhos de duas filhas, uma eu perdi para o câncer há 5 anos. Quando não tem [dinheiro], a gente empresta daqui, dali, e vai pagando um e outro”, explica.

Antes da pandemia, o dinheiro da venda de artesanato, confeccionado por ela e a filha, ajudava a complementar a renda da família. Mas agora, isso não tem mais acontecido. “O pessoal não está trabalhando, como que alguém compra?”, questiona.

Contas de água e luz totalizam R$ 600 de gastos mensais na casa da família de dona Rosalina (Foto: Paulo Francis)
Contas de água e luz totalizam R$ 600 de gastos mensais na casa da família de dona Rosalina (Foto: Paulo Francis)

Filha de dona Rosalina, a dona de casa Kátia Cavalcante Cabanha, de 40, é mãe de duas meninas e avó de uma terceira. Os três sobrinhos, filhos da irmã falecida, completam a família. Segundo ela, a dificuldade é ainda maior devido ao valor pago mensalmente pelo consumo de água e luz.

“Só a minha mãe tem renda, um salário mínimo, e só de água são R$ 300. De luz, mais R$ 300. Então é complicado. Já pedi para encanador olhar aqui tudo, não tem vazamento, parece que estamos abastecendo o Jardim Canguru inteiro”, comenta Kátia.

Com as crianças em casa, os gastos com alimentação também aumentaram. “Não pode sair, ficam mais estressados, comem mais, não tem jeito”, afirma. De acordo com a moradora, o apoio de outras pessoas e a ajuda recebida pelo Instituto Maná do Céu tem sido de grande importância. “Doam sacolão e um ou outro vai ajudando”.

Mayene de Oliveira Nantes deixa a filha com a cunhada enquanto trabalha (Foto: Kísie Ainoã)
Mayene de Oliveira Nantes deixa a filha com a cunhada enquanto trabalha (Foto: Kísie Ainoã)

Entre as pessoas que estão se desdobrando durante a pandemia está Bianca de Souza, de 26 anos. Hoje a jovem é dona de casa. Mas, antes da pandemia, trabalhava em um trailer de lanches. “Não tem com quem deixar eles [os filhos]e ficar levando para lá e par a cá, neste momento, também não é interessante”, relata a mãe de dois meninos, de 6 e 1 ano. Atualmente, a renda da família é o salário do marido, caminhoneiro.

Quem precisa continuar trabalhando, busca auxílio em familiares. É o caso da auxiliar de produção Mayene de Oliveira Nantes, de 25 anos. “Agora deixo minha filha com minha cunhada, mas antes ela estava ficando na creche. O complicado é que ficamos dois anos aguardando vaga, esse ano que ela tinha conseguido, ficou apenas dois meses”, explica. “Colocamos na creche para termos um extra dentro de casa”.

Com mais tempo em casa, crianças dedicam energia com brincadeiras (Foto: Kísie Ainoã)
Com mais tempo em casa, crianças dedicam energia com brincadeiras (Foto: Kísie Ainoã)

A design de sobrancelhas Danielle Viana, de 27 anos, também teve que readaptar sua rotina. Sem ter com quem deixar o filho desde a paralisação das aulas presenciais, a ex-sogra até dá uma ajudinha, mas como ela também trabalha, o jeito é, de vez em quando, levar o menino para o serviço. “Preciso continuar a trabalhar, não tem jeito”.

Tudo bem - Mas, entre as famílias, também há quem está comemorando o fato da criançada passar mais tempo em casa. É o caso da dona de casa Maria Júlia, de 61 anos. Avó de sete, boa parte dos netos ficam com ela enquanto a mãe trabalha. "Eles já ficavam e agora ainda mais. Quando eles não vem é uma tristeza só, eles também choram quando não vem", conta.

Dona Maria Júlia ao lado de parte dos netos; para ela, netos em casa é motivo de comemoração (Foto: Paulo Francis)
Dona Maria Júlia ao lado de parte dos netos; para ela, netos em casa é motivo de comemoração (Foto: Paulo Francis)