ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
MARÇO, SEXTA  06    CAMPO GRANDE 33º

Capital

Ensinar criança a “atravessar” o mundo digital é proteção, alerta psicóloga

Alerta vem após morte de criança por suspeita de participação em desafios virais na internet

Por Dayene Paz | 06/03/2026 09:37
Ensinar criança a “atravessar” o mundo digital é proteção, alerta psicóloga
Sem supervisão e orientação, crianças podem acessar conteúdos inapropriados (Foto/Arquivo)

Assim como ensinamos uma criança a atravessar a rua, também precisamos ensiná-la a atravessar o mundo digital com segurança”. O alerta é da psicóloga Fernanda da Silva Pita, especialista em Análise Funcional do Comportamento, após a morte de uma menina de 9 anos em Campo Grande, nesta quarta-feira (4), caso que levantou suspeita de participação no chamado “desafio do desodorante”. A prática perigosa circula nas redes sociais e incentiva a inalação de aerossóis.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Uma menina de 9 anos morreu em Campo Grande após possível participação no "desafio do desodorante", prática perigosa que circula nas redes sociais e incentiva a inalação de aerossóis. O caso reacende o debate sobre os riscos dos desafios virais para crianças e adolescentes. Especialistas alertam que crianças são vulneráveis no ambiente digital devido ao desenvolvimento cerebral incompleto. Segundo levantamento, 61 jovens morreram no Brasil entre 2014 e 2025 após participarem de desafios online. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites rigorosos para o uso de telas, variando conforme a idade.

A tragédia reacende o debate sobre os chamados “desafios virais”, conteúdos que se espalham rapidamente na internet e estimulam crianças e adolescentes a realizar ações de risco em busca de curtidas, visualizações e popularidade online.

De acordo com o registro policial, o pai da menina relatou que saiu de casa com a esposa para levar o filho recém-nascido a uma consulta médica e deixou a filha aos cuidados de uma tia. Quando retornou, por volta das 14h20, perguntou pela criança e foi informado de que ela estaria dormindo. Ao tentar acordá-la, porém, percebeu que ela não respondia.

A menina estava deitada de bruços e havia um tubo de desodorante próximo ao corpo. Segundo o relato, a criança apresentava os lábios roxos e não reagia. O pai ainda tentou reanimá-la com respiração boca a boca e massagem cardíaca. Durante a tentativa de socorro, ela chegou a vomitar, mas não voltou a respirar.

Diante da gravidade da situação, a menina foi levada por meios próprios à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Universitário, onde equipes médicas também tentaram reanimação, sem sucesso. O óbito foi constatado por volta das 15h.

Ensinar criança a “atravessar” o mundo digital é proteção, alerta psicóloga
Criança chegando em escola onde menina de 9 anos estudava. (Foto: Osmar Veiga)

Para a psicóloga, situações como essa revelam o quanto crianças e adolescentes são vulneráveis no ambiente digital, principalmente porque ainda estão em fase de desenvolvimento emocional, cognitivo e social. O cérebro está aprendendo a lidar com frustrações, comparação e exposição, e o lobo frontal, região responsável pela tomada de decisões e avaliação de riscos, ainda não está completamente desenvolvido.

Quando crianças são expostas às redes sociais sem orientação adequada, acabam tendo acesso a conteúdos inadequados para a idade e enfrentando pressão social constante. A comparação com outras pessoas, a exposição a estranhos e a busca por aprovação por meio de curtidas e comentários fazem parte desse ambiente digital que, muitas vezes, os pais não conseguem acompanhar de perto.

"Plataformas como Instagram, TikTok, conversas em aplicativos como Discord e até jogos como Roblox podem colocar crianças e adolescentes em contato com desconhecidos e conteúdos que não condizem com a fase de desenvolvimento", explica.

Esse cenário pode gerar sofrimento psicológico sem que os responsáveis percebam. Entre os efeitos mais comuns estão ansiedade, baixa autoestima e dependência de aprovação social. As redes sociais estimulam a comparação com vidas aparentemente perfeitas, o que pode levar a criança a acreditar que não é boa o suficiente.

"Além disso, curtidas e comentários ativam o sistema de recompensa do cérebro, criando uma busca constante por validação. O excesso de estímulos rápidos também pode prejudicar a concentração, afetar o rendimento escolar e reduzir a tolerância ao tédio".

A psicóloga observa que muitos jovens acabam desenvolvendo dependência de telas, situação que torna difícil para os pais limitar ou retirar o uso do celular. “Hoje vemos muitas crianças e adolescentes que apresentam dependência de telas. Quando ficam sem celular, podem ficar irritados, adoecer ou apresentar sintomas físicos, o que torna muito difícil para os pais reduzirem esse uso”, explica.

Além disso, o ambiente digital pode expor crianças e adolescentes a cyberbullying, com ofensas e humilhações online que provocam impactos emocionais profundos, além de riscos como aliciamento, conteúdos violentos e desafios perigosos.

Entre os fatores que explicam por que crianças entram cada vez mais cedo nesse universo digital estão a normalização do uso dentro da própria família, a facilidade de acesso aos celulares, a pressão de colegas e a falta de orientação digital. “Muitas vezes as crianças ganham o próprio celular muito cedo e passam a frequentar esse ambiente sem maturidade emocional para lidar com tudo que encontram ali”, explica.

No caso dos desafios virais, a psicóloga afirma que a participação geralmente está ligada a fatores psicológicos, como a busca por pertencimento. "Crianças e adolescentes querem se sentir parte de um grupo e temem ser excluídos pelos colegas. Também existe a recompensa social, já que muitos desses desafios são gravados e compartilhados nas redes sociais para ganhar visualizações e curtidas".

A imaturidade na avaliação de riscos também influencia. Quando influenciadores ou colegas fazem algo parecido, aquilo pode parecer apenas engraçado ou normal para quem ainda não consegue dimensionar as consequências.

No caso do desafio do desodorante, a prática consiste em inalar o aerossol por tempo prolongado, o que pode provocar intoxicação, falta de oxigenação e até morte. A psicóloga também observa que, em alguns casos, jovens com histórico de ansiedade e depressão podem recorrer a esse tipo de prática como forma de autolesão.

Para reduzir os riscos, especialistas apontam que o acompanhamento dos pais é fundamental. Estabelecer limites de tempo para o uso de telas, supervisionar o conteúdo acessado e conversar abertamente sobre segurança e privacidade online são algumas das medidas recomendadas. Também é importante priorizar a vida fora das telas, incentivando brincadeiras, prática de esportes, convivência familiar e amizades presenciais.

Segundo recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Academia Americana de Pediatria, até os dois anos de idade não é recomendado o uso de telas, exceto para chamadas com familiares. Entre dois e cinco anos, o ideal é no máximo uma hora por dia e sempre com supervisão. De seis a dez anos, o uso deve ser limitado e supervisionado, evitando redes sociais. Já a partir dos 12 anos, o acesso pode ser gradual, sempre com acompanhamento dos pais.

Levantamento do Instituto DimiCuida aponta que, entre 2014 e 2025, ao menos 61 crianças e adolescentes entre 7 e 18 anos morreram no Brasil após participarem de desafios compartilhados nas redes sociais. Os dados são compilados a partir de casos divulgados na imprensa ou relatados por famílias que procuram organizações da sociedade civil dedicadas à proteção de crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde não possui estatísticas oficiais específicas sobre mortes ou internações relacionadas diretamente a esse tipo de prática.

Outro estudo, do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância, aponta que 44% das crianças de até dois anos já estão online no Brasil. Já a pesquisa TIC Kids Online Brasil indica que cerca de 24,5 milhões de pessoas entre 9 e 17 anos utilizam internet no país, o que representa 93% dessa faixa etária.

Luto - A reportagem foi até a escola onde a menina estudava, mas a instituição informou que não vai se manifestar sobre o caso. Entre os pais, o clima ainda é de choque e preocupação. Andreia Jilia Carvalho, de 43 anos, mãe de um aluno da mesma sala da menina, diz que a notícia foi difícil de acreditar. “É assustador, porque a gente não espera isso”, afirmou.

Ensinar criança a “atravessar” o mundo digital é proteção, alerta psicóloga
Andréia conversou com a reportagem na frente da escola. (Foto: Osmar Veiga)

Ela conta que tenta acompanhar de perto o que o filho acessa no celular, mas mesmo assim a situação trouxe medo. “Ele só baixa o que a gente permite. Temos um aplicativo que manda notificação para o pai dele de tudo que ele acessa, mas mesmo assim é um susto muito grande”.

Segundo ela, a escola também tem buscado orientar os alunos. “Hoje mesmo vai ter uma palestra com os alunos a respeito de redes sociais, orientando e reforçando esses cuidados. Por isso até que eu gosto dessa escola, porque ela tem esse olhar diferente para as crianças". Para Andreia, a prevenção precisa ser construída em conjunto. “Eu acho que cabe aos pais cuidar da criança. Eu não estou culpando essa mãe, longe de mim, mas quem tem que ter essa atenção são os pais. E a escola também ajuda. É uma parceria entre pais e escola.”

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.