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Laudo afasta tiro à curta distância e abala tese de suicídio de fisioterapeuta

Conclusões aumentam os questionamentos da família sobre morte de esposa do médico João Jazbik Neto

Por Gabi Cenciarelli | 28/07/2026 19:18
Laudo afasta tiro à curta distância e abala tese de suicídio de fisioterapeuta
Fabíola Marcotti, de 51 anos, morreu na chácara onde vivia em Campo Grande. (Foto: Arquivo pessoal)

O laudo necroscópico da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, morta aos 51 anos, afasta a hipótese de que o disparo tenha sido feito com a arma encostada ou a curta distância e fragiliza a tese de suicídio, na avaliação da família. O documento registra hematomas em diferentes partes do corpo da vítima. Para os familiares, as conclusões da perícia se somam às lembranças de uma mulher que, segundo eles, passou os últimos anos vivendo sob medo, isolamento e controle dentro da chácara onde morava com o marido, o cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos.

RESUMO

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O laudo necroscópico da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, morta aos 51 anos, descarta que o disparo tenha sido feito com a arma encostada ou a curta distância e registra hematomas em diferentes partes do corpo. A Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher investiga se houve feminicídio. O marido, o cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, chegou a ser preso, mas obteve habeas corpus e responde ao processo em liberdade. A defesa nega participação na morte.

Segundo o irmão, José Flávio Marcotti, Fabíola dizia que não podia sair sozinha, foi obrigada a deixar de trabalhar, dependia financeiramente do marido e, meses antes de morrer, chorou durante uma chamada de vídeo ao pedir ajuda para deixar o relacionamento. A Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) apura se a fisioterapeuta foi vítima de feminicídio. A defesa do cardiologista nega qualquer participação na morte.

Obtido pela reportagem, o laudo do Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) descreve que os peritos não encontraram vestígios típicos de disparos realizados com a arma encostada ou muito próxima da pele. Entre eles estão marcas provocadas pela explosão da pólvora, como fuligem, queimaduras nos cabelos e partículas impregnadas ao redor da lesão.

Laudo afasta tiro à curta distância e abala tese de suicídio de fisioterapeuta
João Jazbik Neto (de roupa clara) após o trabalho da perícia no local onde esposa morreu (Foto: Maya Severino/Arquivo)

Diante da ausência desses sinais, o documento descarta que o tiro tenha sido efetuado à queima-roupa ou a curta distância. A perícia, porém, não aponta quem realizou o disparo nem conclui se a morte foi homicídio ou suicídio. A causa da morte foi descrita como traumatismo cranioencefálico provocado por projétil de arma de fogo.

Além da lesão causada pelo tiro, o exame também registra três hematomas no corpo de Fabíola. Um deles media cerca de oito centímetros e ficava na região do peito. Outros dois foram encontrados na mão direita e na parte da frente da coxa direita. O documento não informa quando essas lesões surgiram nem o que as provocou, mas as marcas chamaram a atenção da família.

"Ela queria ir embora" - José Flávio conta que a irmã começou a mudar aos poucos. As conversas entre os dois passaram a acontecer quase exclusivamente por chamadas de vídeo e, segundo ele, quase sempre terminavam da mesma forma: "Tenho que desligar porque o João está chegando."

Laudo afasta tiro à curta distância e abala tese de suicídio de fisioterapeuta
Policiais deixando local com armas apreendidas (Foto: Maya Severino)

O irmão afirma que Fabíola evitava enviar mensagens de voz e dizia ter receio de que o marido monitorasse o celular. Para não criar conflitos, a família também evitava insistir nas ligações. Na época, José Flávio e a esposa, Patrícia Isey Marcotti, não entendiam o motivo daquela preocupação. Hoje, acreditam que as interrupções refletiam o medo constante em que ela vivia.

Foi em uma dessas chamadas, no fim do ano passado, que a fisioterapeuta chorou e pediu ajuda. José Flávio e Patrícia ofereceram uma casa da família no litoral de São Paulo para que ela pudesse deixar Campo Grande, voltar a trabalhar como fisioterapeuta e reconstruir a vida perto dos parentes.

"Ela teria nossa casa, nossa família e todo o apoio. Bastava ir", lembra.

Segundo ele, Fabíola chegou a cogitar a mudança. Pouco tempo depois, porém, voltou a dizer que as coisas haviam melhorado e desistiu da ideia. Hoje, a família acredita que o medo falou mais alto.

"Ela queria sair, mas parecia não conseguir. A gente ofereceu tudo o que podia para ela recomeçar", afirma o irmão.

Laudo afasta tiro à curta distância e abala tese de suicídio de fisioterapeuta
Fabíola Marcotti tinha 51 anos; morte é investigada pela Deam como possível feminicídio. (Foto: Arquivo pessoal)

Uma rotina de controle - Ao lembrar dos últimos anos da irmã, José Flávio diz que a maior violência nem sempre deixava marcas aparentes.

Segundo ele, Fabíola contava que praticamente não saía sozinha da chácara. Dependia do marido para atividades simples do cotidiano, havia deixado de exercer a profissão e vivia financeiramente sustentada por ele. Aos poucos, também reduziu o contato com amigos e familiares.

A rotina, segundo os parentes, também incluía o controle sobre cuidados pessoais. José Flávio afirma que a irmã dizia não frequentar salão de beleza nem realizar procedimentos estéticos por conta própria. Conforme o relato da família, até a depilação era feita pelo próprio marido.

Patrícia afirma que reconheceu imediatamente o comportamento da cunhada porque também viveu um relacionamento abusivo. Segundo ela, as conversas com Fabíola despertavam lembranças de um período em que tinha medo de tomar decisões e acreditava que não conseguiria reconstruir a própria vida sozinha.

Laudo afasta tiro à curta distância e abala tese de suicídio de fisioterapeuta
Fabíola Marcotti com os irmãos; família diz que ela sonhava em recomeçar a vida perto dos parentes. (Foto: Arquivo pessoal)

Por isso, quando a fisioterapeuta dizia que "as coisas haviam melhorado", a impressão era de que tentava convencer mais a si mesma do que aos familiares. "Quem nunca viveu isso acha que é só levantar e ir embora. Não é assim. A pessoa vai perdendo a confiança em si mesma", relata.

Segundo José Flávio e Patrícia, desde a morte de Fabíola, o cardiologista nunca procurou a família para prestar esclarecimentos nem manifestar solidariedade.

Os hematomas fizeram a família olhar para trás - As marcas descritas pelos peritos fizeram José Flávio recordar episódios que, até então, pareciam isolados.

Ele lembra que, em outras ocasiões, Fabíola aparecia com manchas roxas pelo corpo. A justificativa era quase sempre a mesma: quedas de cavalo ou acidentes na propriedade onde morava. Na época, a família acreditou nas explicações.

Laudo afasta tiro à curta distância e abala tese de suicídio de fisioterapeuta
Chácara onde Fabíola Marcotti foi encontrada morta, em 18 de maio. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Depois da morte, porém, passou a enxergar aqueles episódios de outra forma.

José Flávio e Patrícia também decidiram ver o corpo antes do velório. Segundo eles, uma marca arroxeada na região do peito chamou a atenção durante a despedida. Tempos depois, o laudo confirmou a existência de um hematoma naquela mesma região, além de outras duas lesões descritas pelos peritos.

"Quando vimos aquele hematoma, aquilo nunca saiu da nossa cabeça. Depois veio o laudo mostrando outros machucados. Para nós, tudo começou a fazer sentido", afirma.

Outro ponto que chamou a atenção da família foi a conclusão da perícia sobre o disparo que matou Fabíola. Conforme o laudo, os peritos não encontraram sinais compatíveis com um tiro disparado com a arma encostada ou a curta distância. O documento, porém, não aponta quem efetuou o disparo nem conclui se a morte foi resultado de homicídio ou suicídio.

Segundo José Flávio e Patrícia, as conclusões técnicas reforçaram uma convicção que a família diz ter desde o dia da morte: a de que Fabíola não tirou a própria vida.

Lembranças difíceis - Entre as memórias da convivência com o casal, José Flávio relata um episódio que diz nunca ter conseguido esquecer.

Durante um churrasco na chácara, José Flávio afirma que João Jazbik pegou um revólver e disparou em direção a uma cadela que circulava pelo quintal. Eles não têm certeza se o animal foi atingido, mas a cena assustou todos os presentes.

Segundo ele, esses episódios foram relatados durante o depoimento prestado à Polícia Civil e fazem parte do conjunto de informações reunidas pelos investigadores.

Para José Flávio, nenhum desses fatos, isoladamente, parecia suficiente para despertar desconfiança. Depois da morte da irmã, porém, passaram a ganhar outro significado.

"Na época, a gente via uma coisa aqui, outra ali. Hoje parece que todas elas fazem parte da mesma história", afirma.

Investigação - Fabíola foi encontrada morta na manhã de 18 de maio na chácara onde vivia com o marido, em Campo Grande. A ocorrência foi inicialmente registrada como um possível suicídio, mas o avanço das diligências levou a Polícia Civil a identificar inconsistências na dinâmica apresentada e instaurar inquérito para apurar a hipótese de feminicídio.

Durante a investigação, também foram identificados indícios de fraude processual após um armário contendo armas e munições ser retirado da casa principal e levado para outro imóvel da propriedade.

Entre os elementos analisados pela Deam está a cronologia dos acontecimentos daquela manhã. Conforme o inquérito, o Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) foi acionado às 10h33. Quatro minutos depois, às 10h37, uma mensagem foi enviada do celular de Fabíola. O aparelho ainda registrou movimentações até 10h47. A sequência integra o conjunto de elementos utilizados pelos investigadores para reconstruir os últimos minutos antes e depois da morte da fisioterapeuta.

João Jazbik chegou a ser preso por posse irregular de arma de fogo e fraude processual. Posteriormente, obteve habeas corpus e responde ao processo em liberdade, mediante medidas cautelares. A decisão do Tribunal de Justiça tratou exclusivamente da prisão relacionada a esses crimes e não analisou o mérito da investigação sobre a morte de Fabíola.

O inquérito continua sob responsabilidade da Deam, que aguarda a conclusão das diligências para definir o indiciamento ou eventual arquivamento do caso.

Defesa - Procurada novamente após a reportagem ter acesso ao laudo necroscópico, a defesa de João Jazbik Neto negou qualquer participação do cardiologista na morte de Fabíola e afirmou que todas as acusações seriam contestadas ao longo do processo.

"Reafirmamos nossa posição, amparada em fatos, em critérios lógico-racionais e nos testemunhos isentos, de que se trata de uma hipótese de suicídio. Refutamos as versões especulativas e enviesadas sobre o óbito e sobre o relacionamento. Todos os esclarecimentos foram e continuarão a ser prestados às autoridades por João Jazbik, pessoalmente ou através da sua defesa constituída nos autos", diz o advogado José Belga Trad.

A defesa também sustentou que o habeas corpus concedido pelo Tribunal de Justiça demonstrou a ausência dos requisitos para a manutenção da prisão preventiva pelos crimes imputados ao médico e afirmou confiar que a instrução processual esclarecerá as circunstâncias da morte da fisioterapeuta.

Hoje, enquanto aguarda a conclusão do inquérito, José Flávio diz que decidiu tornar pública a história da irmã porque acredita que ela não pode ser lembrada apenas pela versão apresentada nas primeiras horas da investigação.

Ele ainda conclui: "Eu só quero que todo mundo saiba que a minha irmã não se matou. A minha irmã foi morta."

[ * ] Matéria alterada às 22h33 para acréscimo de conteúdo.

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