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Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome

No mapa atualizado, região faz parte do Tiradentes, mas moradores não querem a mudança

Por Kamila Alcântara | 10/07/2026 08:55
Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
Em um poste, a identificação antiga do loteamento resiste (Foto: Osmar Veiga)

No Google Maps, procure pelo Jardim Flamboyant, em Campo Grande, e o resultado pode causar estranhamento. O nome praticamente desapareceu do mapa. A área agora surge como parte do Tiradentes. Entregas, CEPs, documentos e aplicativos seguem o mesmo caminho. Mas, para quem vive ou circula pela região há décadas, anular o nome da árvore de flores vermelhas é quase impossível.

RESUMO

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O Jardim Flamboyant, em Campo Grande, enfrenta um apagamento gradual de sua identidade. No Google Maps, a área aparece como parte do bairro Tiradentes, mas moradores resistem ao nome oficial. A região abriga os loteamentos Jardim Flamboyant I e II, reconhecidos pela Planurb dentro do Tiradentes. Parte da resistência vem do passado do bairro, associado à violência. Para moradores antigos, o nome vai além da localização e representa pertencimento e história familiar.

Na margem direita da Avenida Ministro João Arinos, a Praça do Flamboyant ainda resiste como uma espécie de testemunha dessa identidade. Ao redor dela, moradores mais antigos continuam dizendo que vivem no Flamboyant, mesmo quando sistemas digitais insistem em responder Tiradentes.

O mestre de obras Aldo Cardoso, de 46 anos, trabalha na região há mais de 25 anos e não tem dúvida sobre o nome pelo qual sempre conheceu o lugar. “Sempre foi Flamboyant. Acho que, na verdade, desde quando foi construído. Aqui, se não me engano, foi a Incco que construiu este residencial, há mais de 30 anos, talvez 30 ou 35 anos. E eu sempre conheci como Flamboyant.”

Para Aldo, porém, a mudança não chega a provocar grande impacto pessoal. Ele trabalha no local, mas não mora ali. “Na identidade do bairro, sendo Tiradentes ou Flamboyant, acho que dá na mesma. Essa é a minha opinião. Como a gente não mora aqui, não faz muita diferença na prática.”

Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
No Google Maps, até a Praça do Flamboyant está no Tiradentes (Foto: Osmar Veiga/Reprodução)

A discussão não é exatamente nova. Em 2024, o Campo Grande News mostrou que a confusão entre bairros, loteamentos, residenciais e outros parcelamentos se repete por toda cidade. Naquele momento, a Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano) explicou que a Capital tinha oficialmente sete regiões urbanas, 74 bairros e 865 parcelamentos nominados.

Essa diferença ajuda a entender por que alguém pode dizer que mora no Flamboyant, enquanto um documento ou aplicativo aponta Tiradentes. O bairro é uma divisão territorial oficial mais ampla. Dentro dele podem existir loteamentos, residenciais e outros parcelamentos que, com o passar do tempo, ganham identidade própria e passam a ser reconhecidos pela população quase como bairros independentes.

Foi justamente assim que o bairro com nome de árvore, consolidado pela construtora Incco,  ficou no cotidiano de seus moradores. A construção dessa identidade passa pelo endereço, pela praça, pelas relações entre vizinhos e até por uma antiga divisão, nem sempre escrita no mapa, entre o Flamboyant e o Tiradentes.

Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
Para Aldo e Maria Edna, essa dividão não faz diferença na prática (Foto: Osmar Veiga)

Maria Edna da Silva, de 65 anos, mora no Tiradentes e levou os netos de bicicleta até o bairro vizinho porque a área de lazer mais próxima de sua casa estava fechada com cadeado. Para ela, a separação existe, mesmo que os dois lugares estejam praticamente grudados. “Bairro é bairro, mas aqui sempre foi Flamboyant. Para mim nunca teve diferente. A divisão é só por uma rua, mas parece que para eles tem diferença, sim.”

Essa diferença fica ainda mais evidente na fala de quem chegou recentemente à região. Natural de São Paulo, o engenheiro Yago Nardi, de 32 anos, mora há apenas um ano no local. Quando procurava uma casa, ouvia repetidamente o nome Jardim Flamboyant. Na internet, porém, encontrava outra realidade.

“No início, quando eu estava procurando uma casa e ainda nem tinha vindo aqui, as pessoas e as imobiliárias falavam: ‘Jardim Flamboyant, Jardim Flamboyant. Pesquisa casa no Jardim Flamboyant’. Mas eu pesquisava no Google e essa área não aparecia. Era como se o Jardim Flamboyant não existisse mais no Google Maps.”

Segundo Yago, no mapa aparecia apenas o Tiradentes, abrangendo toda a região. A dificuldade era tanta que uma pessoa chegou a desenhar para mostrar onde, afinal, ficava o Flamboyant. “Uma vez, uma pessoa chegou a me explicar desenhando e disse: ‘Não, o Jardim Flamboyant é este quadradinho aqui’. Porque, procurando sozinho, era difícil encontrar.”

Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
Responsável pela implantação do loteamento, Incco deixou sua marca nas placas das ruas (Foto: Osmar Veiga)

A distinção entre os bairros não fica restrita à memória dos moradores ou aos nomes usados no cotidiano. No mercado imobiliário, a percepção construída sobre cada região também pode influenciar a avaliação dos imóveis, segundo Luciana de Almeida, presidente do Sindimóveis (Sindicato dos Corretores de Imóveis).

“Na avaliação imobiliária, o que conta é o comportamento do mercado, e não apenas a proximidade geográfica. Dois bairros vizinhos podem apresentar valores diferentes por fatores como reputação, perfil residencial, padrão das construções e liquidez, ou seja, a velocidade e os preços pelos quais os imóveis costumam ser vendidos”, explica.

Segundo Luciana, avaliadores normalmente utilizam como referência vendas recentes realizadas no mesmo bairro ou em áreas com características semelhantes. “A proximidade entre dois bairros não significa necessariamente que eles pertençam ao mesmo mercado imobiliário. Pode acontecer de dois imóveis praticamente idênticos, separados por apenas uma rua, terem valores diferentes por causa do histórico de preços e da percepção dos compradores sobre cada localização.”

Mesmo próximos, os dois nomes podem despertar percepções diferentes entre compradores e, consequentemente, interferir no mercado. “O que determina o valor é o conjunto de fatores que influencia diretamente quanto os compradores estão dispostos a pagar por um imóvel naquela localização.”

A resistência dos antigos moradores não nasce apenas de uma preferência pelo nome. Em parte, ela também está ligada à história e à imagem que durante anos foram associadas ao Tiradentes.

Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
Wilson lembra do apelido "Tirão", mas que a cidade cresceu e essas divisões nem fazem mais sentido (Foto: Osmar Veiga)

Wilson Marques, de 83 anos, brinca que é o “zelador” da Praça. Para ele, houve uma época em que dizer que morava no Tiradentes carregava um peso negativo. “O Tiradentes era sinônimo de favela, era perigoso, e ninguém gostava de ser associado a isso. Era aquela coisa: ‘Você mora no Tirão?’. Já o Flamboyant era um nome que existia quando a gente chegou aqui e tinha essa característica, inclusive com a Praça do Flamboyant. Então o nome ficou.”

Wilson, porém, também vê limites nessa tentativa de estabelecer fronteiras rígidas entre uma área e outra. “É muito relativo isso. O que você vai alterar no conjunto geral da coisa? O que é Tiradentes e o que é Flamboyant? Os bairros vão crescendo, vão se misturando uns com os outros e chega um momento em que você já nem sabe direito onde começa um e termina o outro.”

A corretora Adriana Sanches Carrelo, de 57 anos, conhece a região há 27 anos e também relaciona a resistência ao nome Tiradentes com a fama que o bairro carregou no passado.

“Eu até costumo falar que o Tiradentes era um bairro muito perigoso. Às vezes, quando você dizia que morava no Tiradentes, havia certo preconceito. O Damha, por exemplo, está no Tiradentes. Então acho que, às vezes, as pessoas não aceitam muito essa associação.”

Segundo ela, essa percepção já chegou até a afetar situações práticas do cotidiano. “Quando você pede um Uber em determinado horário, de madrugada, por exemplo, para ir ao aeroporto ou à rodoviária, pode ficar mais complicado. Você fala Tiradentes e nem todo mundo aceita.”

Adriana reconhece que o Tiradentes mudou e se tornou uma referência territorial muito mais ampla. No mercado imobiliário, uma busca pelo nome abre hoje uma grande variedade de opções.

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Adriana reforça que o Tirandentes e suas divisões hoje é um leque de oportunidades imobiliárias (Foto: Osmar Veiga)

Mas o Flamboyant, para ela, continua sendo mais do que uma localização. “A gente já se acostumou com Flamboyant, com a Praça do Flamboyant. Então, para mudar, acho que a gente sente um pouco.”

A ligação também passa pela própria história da família. As filhas cresceram na região e parentes vivem próximos uns dos outros. “Eu moro aqui, na mesma rua mora minha sogra e, ao lado, mora minha cunhada. Há muitas famílias assim. Por isso a gente costuma dizer que o Flamboyant é uma família.”

É importante lembrar que dois anos atrás, a Planurb já destacava que nomes reconhecidos pelos próprios moradores carregam valor social porque representam pertencimento. Um parcelamento pode fazer parte oficialmente de um bairro maior e, ainda assim, construir uma identidade própria ao longo das décadas.

Google apaga Flamboyant do mapa, mas moradores resistem ao novo nome
Residencial Jardim Flamboyant I e II são loteamentos "dentro" do Tirandentes, reconhecidos pela Planurb (Imagem: reprodução Sisgran)


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