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No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste

Esquina movimentada resume contraste entre lojas, trânsito intenso e infraestrutura que parou no tempo

Por Kamila Alcântara | 16/06/2026 06:35
No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste
No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste
Pés e o topo do poste de madeira, que já divide o emaranhado de fios com uma estrutura de concreto (Foto: Maya Severino)

O Aero Rancho já não ostenta no papel o título de bairro mais populoso de Campo Grande, mas quem caminha pelo coração do bairro percebe que a perda do topo do ranking demográfico não diminuiu em nada o ritmo frenético da região.

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No bairro Aero Rancho, em Campo Grande, o crescimento comercial contrasta com a infraestrutura precária. Um poste de madeira com mais de 35 anos, com a base oca e visivelmente torto, segue em pé apenas sustentado pelos fios no cruzamento das ruas Arquiteto Vila Nova Artigas e Presidente Tancredo Neves. Comerciantes relatam falta de planejamento urbano, problemas de segurança e vias estreitas. Energisa e Agetran não responderam aos questionamentos da reportagem.

Às margens do Rio Anhanduí, o Aero Rancho deixou de ser apenas um bairro-dormitório para se transformar em uma "minicidade" autossuficiente, com comércio intenso. O problema é que a iniciativa privada avança a 100 km/h, enquanto a infraestrutura pública permanece defasada.

O maior símbolo desse paradoxo urbano fica no cruzamento das ruas Arquiteto Vila Nova Artigas com a Presidente Tancredo Neves. Ali, em meio ao vaivém de ônibus, carros apertados em pistas estreitas, semáforos e calçadas largas, um sobrevivente do passado chama a atenção: um poste de madeira com mais de 35 anos de idade.

Com a base completamente oca e visivelmente torta, a estrutura só não veio ao chão porque está literalmente sustentada pelo emaranhado de fios de telefone, internet e energia em seu topo. Mesmo com um poste de concreto instalado logo ao lado, a substituição definitiva nunca acontece.

É o retrato fiel do Aero Rancho: um "boom" de desenvolvimento que cresce até onde a velha estrutura aguenta.

No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste
Poste fica no cruzamento das ruas Arquiteto Vila Nova Artigas com a Presidente Tancredo Neves (Foto: Maya Severino)

Quem conhece bem essa história é o comerciante Rafael Moreno, de 36 anos. Ele administra o mercado da família, o ponto comercial mais tradicional e antigo daquela esquina. Rafael mora ali desde os dois anos de idade e lembra que o poste de madeira já fazia parte da paisagem da sua infância.

"Tinha dois postes assim: um nessa esquina e um na esquina de baixo, que já foi substituído. Recentemente colocaram aquele outro de concreto ali, acho que para fazer a migração aos poucos. Mas ontem mesmo eu estava comentando com meu pai: se der um chute nesse poste de madeira, ele cai. Só está se sustentando na parte de cima", relata Rafael.

Para ele, o abandono da estrutura reflete uma lógica incômoda da gestão pública. "O bairro cresceu e algumas coisas não acompanharam. Foram deixando porque estava funcionando, então vai mantendo. Mas o bairro amadureceu, as lojas estão vindo para cá. Antes essa rua era só de casas, hoje quase toda casa virou um salão comercial. Todo mundo quer empreender. O crescimento continua, mas os problemas antigos também: poeira, falta de iluminação com lâmpadas queimadas há meses e buracos."

No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste
Rafael Moreno diz que mora no bairro desde os 2 anos e o poste sempre esteve lá (Foto: Maya Severino)

Esse vigor comercial atrai quem vem de fora. Há três anos, Dennis Gueredo, de 27 anos, trocou o bairro Nashville pelo Aero Rancho para abrir uma loja de acessórios para celulares bem no cruzamento movimentado. O sucesso foi tanto que ele já expandiu os negócios para outras avenidas importantes da Capital, como a Bandeirantes e a América, mas reconhece o potencial único do Aero Rancho.

"Aqui é um ótimo ponto, a avenida é muito movimentada. Compensa muito porque tem muitos habitantes na região. É um polo de comércio que ferve principalmente depois das 17h, quando o pessoal sai do serviço. Quem fica aberto até mais tarde consegue um rendimento muito maior", explica Dennis, que costuma fechar as portas por volta das 20h.

Morando a apenas três quadras da loja, Dennis defende que o bairro virou um "novo centro", dispensando a necessidade de grandes deslocamentos. "Para mim, é melhor aqui do que uma 14 de Julho da vida. Lá você tem que se locomover, pagar estacionamento. Aqui você acha de tudo perto: mercado, conveniência, farmácia, posto de saúde e banco."

Contudo, o comerciante também sente o peso da falta de investimentos estruturais e de segurança. Ele lembra que o velho poste de madeira da esquina já causou prejuízos reais para a vizinhança. "Já incomodou bastante porque uma vez arrebentou o fio aqui, gerou acidente e derrubou uma motoqueira. Além disso, acho que falta mais investimento em segurança pública. Tem muito usuário de drogas na região, o que deixa a situação meio complicada."

No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste
Dennis defende que o bairro virou um "novo centro" (Foto: Maya Severino)

Se por um lado o comércio resolve a vida dos moradores, por outro, a falta de ordenamento urbano começa a sufocar o trânsito. O empresário Marino Martins, de 62 anos, é proprietário de uma loja de tintas e testemunhou as transformações do bairro nas últimas três décadas. Ele aponta que o crescimento explosivo aconteceu de forma totalmente orgânica, sem o devido planejamento da Prefeitura.

"Nesses 30 anos, eu vi várias fases do Aero Rancho. Hoje a região é puramente comercial e a maioria esmagadora dos moradores prefere comprar tudo por aqui. Não faz sentido ir ao Centro. Mas nós estamos crescendo sem nenhuma organização. É necessário um planejamento diferenciado", cobra Marino.

O lojista cita como exemplo um evidente descompasso no planejamento viário bem diante dos seus olhos. "Olha o tamanho dessas calçadas: tem cerca de seis metros de cada lado, sem necessidade nenhuma. Enquanto isso, a via principal ficou apertadíssima, e ainda por cima é corredor de ônibus. Falta um complemento para atender a nossa estrutura real. Uma vez até vieram aqui, fizeram uma medição, uma pesquisa com a gente, mas ficou engavetado. Não foi para frente", termina.

No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste
Marino Martins testemunhou várias fases do Aero Rancho em 30 anos de comércio por ali (Foto: Maya Severino)

É importante destacar que a organização desse emaranhado de fios é prevista em legislação. Em Campo Grande, a Lei Complementar nº 348 regulamenta a fiação aérea e obriga a retirada de cabos obsoletos dos postes. O texto, no entanto, ainda aguarda a definição de decretos regulamentares para detalhar os fluxos de fiscalização e aplicação de penalidades na rotina urbana. Enquanto o alinhamento técnico entre os órgãos municipais, a concessionária de energia e as empresas de telecomunicação avança nos trâmites burocráticos.

O Campo Grande News entrou em contato com a Energisa para questionar o prazo para a remoção definitiva do poste de madeira e a migração da fiação para a nova estrutura de concreto. Também foi enviado um pedido de nota à Agetran (Agência Municipal de Trânsito) sobre atualizações do reordenamento viário previsto para o corredor comercial do bairro. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno de ambos. O espaço segue aberto.

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