No velho Aero Rancho, comércio cresce até onde poste de madeira ainda resiste
Esquina movimentada resume contraste entre lojas, trânsito intenso e infraestrutura que parou no tempo

O Aero Rancho já não ostenta no papel o título de bairro mais populoso de Campo Grande, mas quem caminha pelo coração do bairro percebe que a perda do topo do ranking demográfico não diminuiu em nada o ritmo frenético da região.
RESUMO
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No bairro Aero Rancho, em Campo Grande, o crescimento comercial contrasta com a infraestrutura precária. Um poste de madeira com mais de 35 anos, com a base oca e visivelmente torto, segue em pé apenas sustentado pelos fios no cruzamento das ruas Arquiteto Vila Nova Artigas e Presidente Tancredo Neves. Comerciantes relatam falta de planejamento urbano, problemas de segurança e vias estreitas. Energisa e Agetran não responderam aos questionamentos da reportagem.
Às margens do Rio Anhanduí, o Aero Rancho deixou de ser apenas um bairro-dormitório para se transformar em uma "minicidade" autossuficiente, com comércio intenso. O problema é que a iniciativa privada avança a 100 km/h, enquanto a infraestrutura pública permanece defasada.
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O maior símbolo desse paradoxo urbano fica no cruzamento das ruas Arquiteto Vila Nova Artigas com a Presidente Tancredo Neves. Ali, em meio ao vaivém de ônibus, carros apertados em pistas estreitas, semáforos e calçadas largas, um sobrevivente do passado chama a atenção: um poste de madeira com mais de 35 anos de idade.
Com a base completamente oca e visivelmente torta, a estrutura só não veio ao chão porque está literalmente sustentada pelo emaranhado de fios de telefone, internet e energia em seu topo. Mesmo com um poste de concreto instalado logo ao lado, a substituição definitiva nunca acontece.
É o retrato fiel do Aero Rancho: um "boom" de desenvolvimento que cresce até onde a velha estrutura aguenta.

Quem conhece bem essa história é o comerciante Rafael Moreno, de 36 anos. Ele administra o mercado da família, o ponto comercial mais tradicional e antigo daquela esquina. Rafael mora ali desde os dois anos de idade e lembra que o poste de madeira já fazia parte da paisagem da sua infância.
"Tinha dois postes assim: um nessa esquina e um na esquina de baixo, que já foi substituído. Recentemente colocaram aquele outro de concreto ali, acho que para fazer a migração aos poucos. Mas ontem mesmo eu estava comentando com meu pai: se der um chute nesse poste de madeira, ele cai. Só está se sustentando na parte de cima", relata Rafael.
Para ele, o abandono da estrutura reflete uma lógica incômoda da gestão pública. "O bairro cresceu e algumas coisas não acompanharam. Foram deixando porque estava funcionando, então vai mantendo. Mas o bairro amadureceu, as lojas estão vindo para cá. Antes essa rua era só de casas, hoje quase toda casa virou um salão comercial. Todo mundo quer empreender. O crescimento continua, mas os problemas antigos também: poeira, falta de iluminação com lâmpadas queimadas há meses e buracos."

Esse vigor comercial atrai quem vem de fora. Há três anos, Dennis Gueredo, de 27 anos, trocou o bairro Nashville pelo Aero Rancho para abrir uma loja de acessórios para celulares bem no cruzamento movimentado. O sucesso foi tanto que ele já expandiu os negócios para outras avenidas importantes da Capital, como a Bandeirantes e a América, mas reconhece o potencial único do Aero Rancho.
"Aqui é um ótimo ponto, a avenida é muito movimentada. Compensa muito porque tem muitos habitantes na região. É um polo de comércio que ferve principalmente depois das 17h, quando o pessoal sai do serviço. Quem fica aberto até mais tarde consegue um rendimento muito maior", explica Dennis, que costuma fechar as portas por volta das 20h.
Morando a apenas três quadras da loja, Dennis defende que o bairro virou um "novo centro", dispensando a necessidade de grandes deslocamentos. "Para mim, é melhor aqui do que uma 14 de Julho da vida. Lá você tem que se locomover, pagar estacionamento. Aqui você acha de tudo perto: mercado, conveniência, farmácia, posto de saúde e banco."
Contudo, o comerciante também sente o peso da falta de investimentos estruturais e de segurança. Ele lembra que o velho poste de madeira da esquina já causou prejuízos reais para a vizinhança. "Já incomodou bastante porque uma vez arrebentou o fio aqui, gerou acidente e derrubou uma motoqueira. Além disso, acho que falta mais investimento em segurança pública. Tem muito usuário de drogas na região, o que deixa a situação meio complicada."
Se por um lado o comércio resolve a vida dos moradores, por outro, a falta de ordenamento urbano começa a sufocar o trânsito. O empresário Marino Martins, de 62 anos, é proprietário de uma loja de tintas e testemunhou as transformações do bairro nas últimas três décadas. Ele aponta que o crescimento explosivo aconteceu de forma totalmente orgânica, sem o devido planejamento da Prefeitura.
"Nesses 30 anos, eu vi várias fases do Aero Rancho. Hoje a região é puramente comercial e a maioria esmagadora dos moradores prefere comprar tudo por aqui. Não faz sentido ir ao Centro. Mas nós estamos crescendo sem nenhuma organização. É necessário um planejamento diferenciado", cobra Marino.
O lojista cita como exemplo um evidente descompasso no planejamento viário bem diante dos seus olhos. "Olha o tamanho dessas calçadas: tem cerca de seis metros de cada lado, sem necessidade nenhuma. Enquanto isso, a via principal ficou apertadíssima, e ainda por cima é corredor de ônibus. Falta um complemento para atender a nossa estrutura real. Uma vez até vieram aqui, fizeram uma medição, uma pesquisa com a gente, mas ficou engavetado. Não foi para frente", termina.

É importante destacar que a organização desse emaranhado de fios é prevista em legislação. Em Campo Grande, a Lei Complementar nº 348 regulamenta a fiação aérea e obriga a retirada de cabos obsoletos dos postes. O texto, no entanto, ainda aguarda a definição de decretos regulamentares para detalhar os fluxos de fiscalização e aplicação de penalidades na rotina urbana. Enquanto o alinhamento técnico entre os órgãos municipais, a concessionária de energia e as empresas de telecomunicação avança nos trâmites burocráticos.
O Campo Grande News entrou em contato com a Energisa para questionar o prazo para a remoção definitiva do poste de madeira e a migração da fiação para a nova estrutura de concreto. Também foi enviado um pedido de nota à Agetran (Agência Municipal de Trânsito) sobre atualizações do reordenamento viário previsto para o corredor comercial do bairro. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno de ambos. O espaço segue aberto.
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