Ônibus cruza 50 quilômetros no aperto até "interior" da Capital por R$ 4,95
Veículo está sempre lotado de pessoas que buscam trabalhar, estudar e comprar mais barato
Saindo do Terminal Guaicurus, em Campo Grande, um ônibus circular leva até o distrito de Anhanduí por R$ 4,95. São cerca de 50 km percorridos em 1h15 de viagem, principalmente pela BR-163. A linha é a 602, que tem o trajeto mais longo da Capital.
RESUMO
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A linha de ônibus 602, que conecta o Terminal Guaicurus ao distrito de Anhanduí, em Campo Grande, percorre cerca de 50 km em 1h15 por R$ 4,95, sendo a mais longa da capital. Apesar do baixo custo, passageiros enfrentam veículos lotados, sem ar-condicionado e cintos com defeito. Trabalhadores, estudantes e pacientes dependem do serviço diariamente, relatando dificuldades como longas esperas e desconforto. A PRF não respondeu sobre a fiscalização das irregularidades apontadas.
Séculos antes desse caminho existir, sertanistas com destino às minas de Cuiabá navegavam pelo rio que liga os dois pontos e deu nome ao distrito.
Hoje, quem viaja pela região é um grupo que se destaca entre os demais passageiros do Guaicurus: homens e mulheres com 40 a 60 anos em média, vestidos com simplicidade, geralmente carregando sacolas e mochilas. Também há crianças, adolescentes, jovens e pessoas mais idosas no meio.

Os objetivos de agora são trabalhar, estudar, ir ao médico, buscar emprego ou economizar nas compras indo aos supermercados atacadistas de Campo Grande. O valor baixo da passagem em relação à distância é um atrativo, mas as condições do transporte, não.
Sem sentar e sem cinto - Os primeiros quilômetros atravessam a Avenida Gury Marques. A trepidação no asfalto nessa parte faz bastante barulho e não ajuda no equilíbrio de quem é obrigado a viajar de pé, já que os veículos quase sempre estão cheios.
Quando a rodovia começa, o asfalto melhora. Apesar de mais estável, o passeio vai ficando mais perigoso com o trânsito de caminhões se intensificando. Postos de combustíveis e pequenas indústrias vão ficando para trás e praticamente só se vê fazendas e chácaras nesse trecho do caminho.

Elizabeth Ajala, 53 anos, fala do sofrimento que é fazer o percurso três vezes por semana tendo problema de saúde. “Quase choro quando fico em pé. Tenho bico de papagaio e as pessoas não dão lugar, não respeitam”, desabafa. Ela usa o transporte para ir até a casa do irmão e da cunhada, na Capital, para fazer serviços domésticos e cuidar dos cachorros quando o casal viaja.
Nenhum passageiro costuma usar o cinto de segurança, apesar de haver. A reportagem tentou usar quando pegou a linha nesta terça-feira (25), mas não conseguiu ajustar o dispositivo de um dos bancos, ficou frouxo.
Trabalho, estudo e saúde - Um dos poucos que viajava sem nada nas mãos era o boliviano Reinaldo Campuzano, 62 anos. Ele pegou o ônibus às 10h15 no terminal e desceu bem em frente a um dos canteiros de obras de duplicação da BR-163.

O homem não agendou entrevista de emprego. A ideia era procurar algum encarregado e oferecer os serviços. O poeirão subia do outro lado do ponto de ônibus, com várias máquinas trabalhando. Outro passageiro tinha o mesmo destino e o acompanhou até lá.
“Sou viajante e quero ver se tem vaga para a terraplanagem. Trabalhei como motorista de caminhão basculante na Bolívia e tenho muita experiência”, fala. A família está para lá da fronteira, mas ele pensa em morar em Campo Grande caso seja contratado. “Gostei muito. Quero ficar”, confirma Reinaldo.
A professora Carla Valiente Milani, 30, começou a fazer o trajeto completo há um mês. Ela mora num bairro da Capital e foi contratada para dar aulas numa escola municipal do distrito.

Optou pelo ônibus por motivo financeiro. “Teriam o combustível e o pedágio para pagar. É um trajeto difícil, mas compensa financeiramente”, afirma. O valor do pedágio para veículos sem TAG é R$ 14,10. Considerando ida e volta, seriam R$ 28,20 pagos por dia à concessionária da rodovia. A chancela surge quando Anhanduí está chegando.
A estudante Jhennifer Ferreira Higa, 13 anos, pega a linha quatro vezes por semana para estudar. Ela faz cursos particulares de Matemática e pré-vestibular, mesmo sem ter entrado no Ensino Médio ainda. “Acordo 3h da manhã para pegar o primeiro ônibus. Na hora da volta, tenho que sair correndo para não perder, chegar em casa, fazer almoço e ir à escola”, relata.
A mãe da adolescente, Aline Priscila Ferreira, 37 anos, usa a mesma condução três vezes por semana para levar o outro filho, com paralisia cerebral, até terapias e ao médico na Capital. Ela não consegue acompanhar Jhennifer por causa dessa rotina.

Sobre as condições dos veículos, a mãe afirma que são adaptados para atender pessoas com deficiência, mas reforça que geralmente estão muito cheios e passam em poucos horários. Entre segunda e sexta-feira, são nove paradas no Terminal Guaicurus.
Aos sábados, domingos e feriados são sete. Dependendo de quando se chega ao terminal, a espera pelo próximo veículo pode chegar a duas horas.
Compras - Wilson Francisco Chaves, 67, era um dos poucos que não morava em Anhanduí e ia para lá na terça-feira. Ele já viveu no distrito, mas vendeu a propriedade e comprou uma chácara no Jardim Colúmbia, em Campo Grande.
Ele aproveitou o dia de folga do trabalho de serviços gerais no Aeroporto Internacional da Capital para fazer uma compra específica. "O leite! Tem dois anos que eu volto lá só para pegar leite porque não tem igual em Campo Grande", declarou. O distrito tem muita produção à venda em chácaras, sítios e fazendas. Wilson pega ônibus no bairro às 8h15 e chega por volta das 11h20.
Pão, café, banana, café, feijão e papel higiênico foram as compras que a aposentada Zoraide Freitas, 70, carregava até Anhanduí. "É mais barato. Venho de ônibus quando o carro lá de casa está com problema", conta.
A idosa reclama dos dias de calor. "O vento da estrada ajuda, mas tem dias que não dá e eu não venho", lamenta. Os ônibus não têm ar-condicionado.
Pequenos comércios - Chegando perto de Anhanduí, o veículo entra numa estrada de chão e a poeira volta a subir.
Pequenos comércios vão aparecendo: borracharia, barracas para vendas de produtos artesanais aos turistas que passam pela BR-163, mercearia. Perto de dois hotéis, numa panificadora, o 602 chega ao seu ponto final.
Parece uma parada no interior do Estado, apesar de o distrito ser uma extensão da Capital.
O chacareiro Manoel Siqueira Nunes, 59, conhecido como "Ceará" gosta da calmaria. Trocou o Piauí por Mato Grosso do Sul há 17 anos e foi parar no distrito com o sufixo igual ao do seu estado natal. Tem uma chácara em Anhanduí e "uma arca de Noé" de tantos bichos. Trabalha com reciclagem em Campo Grande e pega o ônibus todos os dias com alegria.
Para ele, está tudo bom. "Só tenho elogios", frisa.

Fiscalização - O Campo Grande News questionou a PRF (Polícia Rodoviária Federal) pela fiscalização aos ônibus. Passageiros em pé e os sentados que não usam cinto de segurança são irregularidades. Não houve retorno até o fim desta publicação. O espaço segue aberto para manifestação.
Confira a galeria de imagens:
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