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Comportamento

Luta na Capital é por famílias que aceitem acolher os intercambistas

Na Capital, apenas 4 lares acolhem estrangeiros em intercâmbio; acolhimento não é remunerado e exige dedicação

Por Geniffer Valeriano | 27/08/2026 06:30
Luta na Capital é por famílias que aceitem acolher os intercambistas
Em Campo Grande, quatro famílias recebem voluntariamente gringos durante intercâmbio (Foto: Paulo Francis)

Enquanto no interior sobram famílias interessadas, em Campo Grande faltam pessoas dispostas a abrir as portas de casa para receber estrangeiros em intercâmbio. Segundo a coordenadora pedagógica e integrante da diretoria da AFS (American Field Service) em Mato Grosso do Sul, Martina Nogueira, de 38 anos, atualmente há apenas quatro famílias na Capital que recebem intercambistas.

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Campo Grande registra escassez de famílias dispostas a hospedar intercambistas voluntariamente, contando atualmente com apenas quatro lares ativos. O programa da organização AFS oferece suporte e treinamento para lidar com choques culturais e adaptação escolar. Embora não haja remuneração e as despesas aumentem, voluntários destacam que o acolhimento gera laços afetivos permanentes. Para participar, basta ter um quarto disponível e disposição para integrar o estudante à rotina.

Antes de os estrangeiros chegarem às famílias, todos passam por treinamento e acompanhamento. “Esse aconselhamento é para dar o suporte, para ajudar esse estudante na adaptação dele na família, na adaptação dele na escola e também para ajudar a família. Às vezes, a família também encontra dificuldades, encontra choques culturais e também precisa ter alguém com quem conversar ou alguém para buscar uma orientação”, explica Kamila Prado, de 34 anos, responsável pelos treinamentos.

Para Martina, que foi intercambista há 23 anos, ser uma família acolhedora é uma oportunidade de impactar a vida de outra pessoa. “Obviamente dá trabalho. Dá trabalho. Eu não vou falar que é super tranquilo. Não, dá trabalho. Até porque a gente trabalha com pessoas, sobretudo adolescentes”.

Luta na Capital é por famílias que aceitem acolher os intercambistas
revista é uma das recordações guardada por Simone após partida de Joel (Foto: Paulo Francis)

Tem que se doar - Conforme explicado, as famílias que recebem os intercambistas não recebem remuneração para hospedá-los. Por isso, segundo Martina, os voluntários precisam estar dispostos a se doar.

Entre as quatro famílias que têm recebido esses estudantes está a de Simone dos Santos, de 50 anos. A servidora pública conta que a ideia surgiu a partir da experiência de sua sogra, Maria de Fátima, de 70 anos, mãe de Martina.

“Meus filhos estão na adolescência também e terminaram o curso de inglês. E a escola onde eles fizeram o inglês fez o convite para eles fazerem o intercâmbio para concluir esse curso e manter a fluência. Só que meu filho é muito apegado e não quis. Aí eles falaram para a gente: ‘E receber?’”, relembra.

O primeiro a ser recebido pela família foi um sueco chamado Joel, que tinha 18 anos. “Ele tinha sido devolvido. A família que ia hospedá-lo era lá de Mossoró (RN) e estava tudo certo para ele vir, e na última hora desistiram. E aí ele ia ficar sem ter como vir. Como as características dele eram parecidas com as dos nossos filhos, a idade, os gostos, tudo, a gente falou: ‘Vamos aceitar’.”

Luta na Capital é por famílias que aceitem acolher os intercambistas
Para Simone, o segredo para ser uma das famílias voluntárias é se doar (Foto: Paulo Francis)

Quando chegou, ele não falava nenhuma palavra em português, enquanto Simone não sabia falar inglês. “Ele chegou em um dia que o meu marido estava de plantão, então não tinha como ele traduzir. Nos primeiros dias o celular salvou a gente, mas ele ficava mais tempo comigo, então teve que aprender o português na marra”, relembra.

Joel ficou com a família de Simone de agosto de 2023 a julho de 2024. Durante esse período, os pais e os irmãos dele o visitaram. Quando retornou ao seu país, levou como lembrança de Mato Grosso do Sul oito caixas de erva de tereré e um fardo de pipoca doce.

“É como se fosse o nosso filho. Ele fala que quando ele for casar vai mandar o convite. A gente está sempre conversando, sempre mandando as coisas um para o outro. Os pais dele também são muito gente fina. Virou a nossa família. Meu filho estava lá na Alemanha, no Natal ele mandou mensagem para a gente, ele foi passar o Natal lá na casa do Joel”, conta.

De forma simples, talvez até um pouco clichê, Simone resume o acolhimento de intercambistas como amor. “A sua despesa vai aumentar. Isso é por sua conta. Não tem ajuda. Você vai se doar. Então tem que conseguir famílias que se doem. No final das contas, isso é amor”.

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Toalha de mesa, camisa, carta e calendário estão entre "tesouros" deixados com as famílias pelos intercâmbistas (Foto: Paulo Francis)

Só em português

Quando recebeu a primeira acolhida, Fátima aceitou a ideia após ser incentivada pela filha Martina, que iria fazer intercâmbio na Alemanha. Para que a filha pudesse iniciar a viagem, a mãe precisaria receber outro intercambista. Por coincidência, quem foi para a casa da família foi uma alemã.

Enquanto ainda estava com a primeira acolhida, Fátima soube de outra alemã que seria devolvida pela família que a hospedava. Apesar dos receios, a aposentada acolheu a menina, mas impôs uma regra “sagrada”.

“Eu imaginei uma coisa, e se fosse com filho meu e que a família que hospedava não queria mais ele. Entendeu? Eu fiquei apavorada. Falei para ela: ‘Como que eu vou pegar duas alemãs e vocês vão falar em alemão? Eu não entendo inglês’. Falei: ‘O trato vai ser esse, não quero uma palavra em alemão aqui dentro’”.

Confira a galeria de imagens:

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Após voltar para a Alemanha, Geeske retornou a Mato Grosso do Sul outras quatro vezes para visitar Fátima. Mesmo longe, as duas ainda mantêm contato constante por meio de videochamadas. Depois das alemãs, Fátima recebeu em sua casa intercambistas italianos e um francês. “Adolescente europeu, americano, brasileiro é a mesma coisa, desorganizado. Você só tem que dar tempo para eles”.

Com a partida dos intercambistas, Fátima conta que fica um vazio nas famílias. “Quando ele foi embora, ficou umas duas semanas de portas fechadas, porque é um vazio muito grande. Ainda ficaram algumas peças de roupas, por conta do excesso de peso da mala”, comparou.

Serviço - Conforme explicado por Martina, para se tornar uma família acolhedora basta ter um quarto disponível para receber os intercambistas. Falar uma segunda língua também não é obrigatório. Mais informações podem ser obtidas pelo @afscampogrande.

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