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Diversão

Nostalgia dá nova vida aos hits sertanejos criados em Campo Grande

Regravações levam sucessos a novos públicos, mas exigem autorização prévia dos compositores

Por Kamila Alcântara | 27/08/2026 07:09
Nostalgia dá nova vida aos hits sertanejos criados em Campo Grande
Projeto musical "Cê Tá Doido", gravado em Campo Grande por Panda, Ícaro & Gilmar e Humberto & Ronaldo, abriu a apresentação com duas músicas gravadas originalmente por aqui. São elas: Querendo te encontrar/ Morro de Saudade, de João Bosco & Vinicius (Foto: Reprodução)

Músicas que ajudaram a transformar Campo Grande em um dos principais polos do sertanejo universitário voltaram a ganhar espaço nas vozes de artistas de diferentes gerações. Canções que dominaram rádios, festas e casas noturnas nas últimas duas décadas reaparecem agora em novos projetos, alcançando também quem não viveu o auge daquele movimento.

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Músicas do sertanejo universitário de Campo Grande voltam a ganhar espaço em novos projetos musicais, com artistas como Luíza Martins e o projeto Cê Tá Doido regravando sucessos de Maria Cecília & Rodolfo, João Bosco & Vinícius e Jads & Jadson. O movimento impulsiona direitos autorais, mas exige autorização prévia dos titulares conforme a Lei 9.610/1998, alerta a consultora Bruna Campos.

Um dos exemplos é a cantora Luíza Martins, que regravou “Você de Volta”, “Coisas Esotéricas” e “Basta Você Me Olhar”, sucessos interpretados por Maria Cecília & Rodolfo.

O movimento também aparece no projeto “Cê Tá Doido”, gravado em Campo Grande por Panda, Ícaro & Gilmar e Humberto & Ronaldo. O repertório reuniu uma penca de músicas associadas a artistas que ajudaram a projetar a cena sertaneja da Capital para o restante do País.

Entre elas estão “Querendo Te Encontrar”, “Vou Doar Meu Coração” e “Sem Esse Coração”, conhecidas nas vozes de João Bosco & Vinícius. O projeto também recuperou “Jeito Carinhoso” e “Coração Idiota”, sucessos ligados a Jads & Jadson.

Luan Santana aparece representado por “Tudo Que Você Quiser” e “Te Esperando”. Já “Planos Impossíveis”, lançada originalmente por Manu Gavassi, entrou no repertório por meio da versão sertaneja conhecida na voz de Jads & Jadson.

Mais do que reproduzir sucessos antigos, o projeto mostra como o repertório ligado ao sertanejo universitário de Campo Grande se tornou referência para outros artistas. As músicas retornam embaladas pela nostalgia de quem viveu aquele período e pela curiosidade de um público que passou a conhecê-las nas plataformas digitais e nas redes sociais.

Para o compositor sul-mato-grossense Marco Aurélio, autor de músicas gravadas por grandes nomes do gênero, o movimento representa reconhecimento ao trabalho de compositores, músicos, produtores e artistas que construíram aquela fase.

“Vejo com bons olhos. A gente se sente prestigiado e honrado. Tem várias duplas e artistas regravando músicas daquela época, como Hugo & Guilherme e Paula Fernandes. Ficamos muito felizes de ter feito parte de tudo isso”, afirma.

Segundo ele, Campo Grande e Mato Grosso do Sul se transformaram naquele período em um celeiro de artistas, compositores, músicos e produtores. O interesse atual mostra que parte daquele repertório ultrapassou o sucesso momentâneo e continuou conhecida.

Marco Aurélio conta que recebe com frequência consultas relacionadas a regravações. Além de movimentarem novamente os catálogos antigos, esses contatos podem abrir espaço para novas composições.

“Já começamos a semana com pedido de música para regravação. São artistas de várias regiões do Brasil. Muitas vezes, junto com o pedido, também vem a pergunta: ‘não tem uma música inédita?’. Ou seja, a coisa continua funcionando”, relata.

O compositor reconhece que o retorno também tem efeito financeiro. Quando uma música ganha nova gravação, volta a circular com mais intensidade, amplia sua audiência e pode gerar novas receitas aos titulares dos direitos autorais.

“É um orgulho ver que todo mundo quer regravar essas canções. A gente fica muito feliz. Tem também a parte financeira, que é boa e é óbvia, porque vivemos disso. Quero que continue assim para sempre”, diz.

Ao falar do próprio trabalho, o compositor atribui a inspiração à fé. “Quem compõe é Deus, a gente só escreve. Toda honra e toda glória ao Senhor”, afirma. Ele também destaca a participação de outros compositores de Mato Grosso do Sul, entre eles Maurício Mello, Clebinho, Victor Gregório, Adriana e Paula Mattos.

A artista e consultora em direitos autorais Bruna Campos, sócia-proprietária da Rede Pura Editora, também percebe uma retomada das músicas que marcaram o sertanejo universitário de Campo Grande.

Segundo ela, o repertório ganhou uma nova porta de entrada por meio das plataformas digitais, dos vídeos curtos e das redes sociais. Para quem grava, apostar em uma canção já conhecida permite trabalhar com uma obra que carrega reconhecimento e memória afetiva.

“São músicas que marcaram uma geração e agora estão chegando a um público mais jovem. Para o artista, a regravação também parte de uma música que já possui reconhecimento e memória afetiva”, explica.

Bruna ressalta, porém, que não existe um levantamento quantitativo que meça exclusivamente as regravações do repertório de Mato Grosso do Sul. A tendência é percebida pelos profissionais do setor e pelos pedidos de liberação recebidos pelas editoras, mas ainda não foi traduzida em números consolidados.

“Na prática, percebemos uma procura real. Os pedidos de liberação que chegam à Rede Pura mostram que existe interesse nesse catálogo. É um repertório com valor cultural e comercial porque reúne músicas que continuam conhecidas mesmo depois de muitos anos”, afirma.

Para ela, as novas versões ajudam a preservar a memória musical, apresentam as obras a outras gerações e criam novas possibilidades de remuneração para os compositores. Também reforçam a importância de Campo Grande na história do sertanejo brasileiro.

Nostalgia dá nova vida aos hits sertanejos criados em Campo Grande
Compositor Marco Aurélio tem na sua lista de sucessos as músicas: "Amar Não é Pecado", Camaro Amarelo" , "Você de Volta" e "Jogado na Rua" (Foto: Joe Ledesma)

Pode gravar? - O retorno dos sucessos antigos vem acompanhado de um alerta. Uma música disponível no Spotify ou no YouTube, cantada em shows ou lançada há muitos anos não está automaticamente liberada para receber uma nova gravação.

A Lei nº 9.610/1998, conhecida como Lei de Direitos Autorais, exige autorização prévia e expressa dos titulares para a reprodução de uma obra protegida e sua inclusão em um novo fonograma.

Segundo Bruna, o primeiro passo é identificar todos os compositores e as editoras responsáveis pela administração da música. Depois, o artista ou sua equipe deve solicitar formalmente a liberação, detalhando quem fará a gravação, qual é o projeto, os formatos de lançamento e os territórios em que o material será disponibilizado.

Também é necessário informar se a música será gravada integralmente ou incluída em um medley. Os titulares podem autorizar, negar ou apresentar condições para a liberação. A negociação pode envolver valores e outras exigências.

“A autorização precisa ser obtida por escrito antes do lançamento. O ideal é solicitar essa autorização antes mesmo de investir na gravação”, orienta.

A consultora também destaca a diferença entre a composição e o fonograma. Se o artista produzir uma gravação inteiramente nova, deverá obter autorização para utilizar a letra e a melodia. Caso aproveite a gravação original, um sample ou qualquer trecho já existente, precisará também da autorização da gravadora ou do produtor fonográfico.

Quando houver videoclipe, será necessária ainda a autorização para sincronizar a música com as imagens. O pagamento ao Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) e o envio da faixa a uma distribuidora digital não substituem essas liberações.

Marco Aurélio confirma que algumas versões chegam a ser produzidas sem consulta prévia. Nesses casos, geralmente cabe à editora procurar os responsáveis para tentar regularizar a utilização.

“Algumas vezes acontece de não pedirem autorização. A editora vai atrás porque existe uma formalidade que precisa ser cumprida. Quase nunca isso fica diretamente na mão do compositor. A editora também tem a função de proteger os direitos dos autores”, explica.

Nostalgia dá nova vida aos hits sertanejos criados em Campo Grande
Bruna Campos é advogada, jornalista, consultora e sócia-proprietária da Rede Pura Editora, empresa voltada à gestão de obras e proteção de carreiras de compositores (Foto: Reprodução)

Inteligência artificial - A expectativa é de que as regravações aumentem nos próximos anos com o avanço da IA (inteligência artificial), que já permite reduzir custos e acelerar a criação de arranjos, guias, produções e até vozes sintéticas.

A facilidade tecnológica, no entanto, não elimina os direitos existentes. Se o resultado reproduzir uma letra ou melodia protegida, a autorização continua obrigatória. O uso de uma gravação ou de um sample preexistente também envolve os direitos do produtor fonográfico.

A reprodução artificial da voz ou da identidade de um artista pode acrescentar outra camada ao problema, por envolver direitos da personalidade e discussões jurídicas ainda em desenvolvimento.

“A tecnologia avança muito mais rápido do que os processos de licenciamento. A inteligência artificial pode ser uma ferramenta de produção, mas não pode se transformar em um atalho para ignorar os direitos de compositores, intérpretes e produtores”, alerta Bruna.

Para a consultora, regravar pode ser uma forma legítima de homenagear e manter viva a produção musical de Mato Grosso do Sul. Mas a nostalgia não funciona como licença.

“A regravação pode ser extremamente positiva. Ela preserva a memória musical, apresenta grandes obras a novos públicos, movimenta o catálogo e remunera novamente os seus criadores. O que precisa ficar claro é que homenagem não substitui autorização”, conclui.

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