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Campo Grande, Segunda-feira, 22 de Abril de 2019

16/03/2019 10:20

Pesquisadores vão fornecer “mapa do asfalto” para obras da prefeitura

Convênio entre a UFMS e a Prefeitura de Campo Grande, de R$ 1,7 milhão, promete mudar a forma como é realizada a pavimentação pela cidade

Izabela Sanchez
Trabalhadores executam serviço de tapa-buraco em Campo Grande (Foto: Arquivo/Campo Grande News)Trabalhadores executam serviço de tapa-buraco em Campo Grande (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

No bloco de Engenharia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, um corredor extenso leva aos laboratórios dos cursos. E é ali, em meio a aparente confusão de uma sala cheia de materiais, equipamentos, tubos de ensaio e amostras de solo, que poderá será definido o futuro das obras do asfalto da Capital.

O local guarda o laboratório de Mecânica dos Solos e Transportes, que abriga os especialistas da UFMS em pavimentos e onde se gesta conhecimento de ponta sobre o assunto. Por uma provocação do Ministério Público Estadual, a Prefeitura buscou em dezembro de 2018 a expertise dos pesquisadores. Convênio firmado no dia 20 daquele mês, no valor de R$ 1,7 milhão, permitiu ao laboratório realizar uma série de estudos sobre o asfalto da cidade. Esse conhecimento vai nortear as intervenções e obras da administração municipal.

O laboratório foi procurado pelo promotor Adriano Lobo, da 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, que queria saber o porquê de, apesar de tantas intervenções, não haver melhoria no asfalto do município, alvo de constantes intervenções em serviços de tapa-buraco –já investigados pela Promotoria em um passado não tão distante.

O laboratório de transportes do curso de engenharia civil na UFMS em Campo Grande (Foto: Izabela Sanchez)O laboratório de transportes do curso de engenharia civil na UFMS em Campo Grande (Foto: Izabela Sanchez)

Foi o que explicou o coordenador do laboratório e professor do curso de Engenharia Civil, Daniel Anijar de Matos, doutor pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e especialista em Tráfego e Pavimentação.

“Ele (promotor) falou: por que não a universidade, com o know-how, ajudar a contribuir com a cidade? Aí surgiu essa ideia de montar o convênio. Convocou a prefeitura e a universidade a partir de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) para resolver essa problemática da cidade. Não é uma solução definitiva porque o convênio vai até certo ponto. Nós vamos elencar soluções e problemas e a prefeitura tem que ter a visão se ela vai pra frente ou vai manter o que ela quer, porque a gente vai mostrar o que deve ser feito”, comentou.

Os estudos podem ter impacto nas empreiteiras que recebem milhões dos cofres públicos todos os anos para serviços de pavimentação e tapa-buracos, já que, entre as ações, há previsão de ser efetuada a análise de materiais aplicados, incluindo o tipo e onde deve ser aplicado em cada parte da cidade e até “reprovar” os utilizados.

“O que a gente espera é que a prefeitura utilize essa resposta e coloque nas licitações que, embora você tenha o material a dez metros de distância, essa pedra não pode ser utilizada. Tem de ir para Aquidauana pegar uma jazida e usar, porque essa pedra aqui não pode ser usada no pavimento. Se a prefeitura colocar isto na licitação, as empreiteiras vão estar subordinadas a utilizarem materiais que já estejam controlados”, detalhou.

Daniel Anijar, coordenador do laboratório, mostra um dos equipamentos importados, que serve para misturar o material do asfalto (Foto: Izabela Sanchez)Daniel Anijar, coordenador do laboratório, mostra um dos equipamentos importados, que serve para misturar o material do asfalto (Foto: Izabela Sanchez)

Mapa do asfalto – Outra novidade é que o convênio vai gerar uma espécie de “mapa do asfalto” de Campo Grande. Pela primeira vez, a prefeitura vai saber qual a real situação do pavimento em cada ponto da cidade e a obra necessária em cada local. O mapa integra a segunda e terceira etapas do convênio.

Por meio de georreferenciamento, os pesquisadores vão saber quais locais de Campo Grande vão receber a análise funcional, que vai checar a qualidade do pavimento: se há ondulações, trincas, buracos ou muitos remendos.

O professor cita como exemplo a Avenida Coronel Antonino, de tráfego intenso e tomada por remendos. “Então vamos ver como que está a qualidade estrutural do pavimento, ou seja, quanto ele está suportando e porque estão se deformando tanto”.

Daniel de Matos aponta que o conhecimento técnico poderá ajudar até no financiamento das obras. “Se uma cidade possui uma gerência de pavimento, ela sabe que em tal local vai demandar tal reparação e o custo que ela tem que ter para poder investir, e aí ela tem esse macro da cidade e poder pedir subsídio ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), pode pedir subsídios para que se possa resolver o problema da cidade como um todo. É um mapeamento caracterizando o que tem atualmente para poder atacar. O fundamento é otimizar recursos”, explica.

Depois de misturado e compactado, é assim que fica um pedaço de asfalto (Foto: Izabela Sanchez)Depois de misturado e compactado, é assim que fica um pedaço de asfalto (Foto: Izabela Sanchez)
Alunos manipulam solo em tubo de ensaio (Foto: Izabela Sanchez)Alunos manipulam solo em tubo de ensaio (Foto: Izabela Sanchez)

Novo manual para tapa-buraco – As operações de tapa-buraco representam o primeiro alvo do convênio. Os pesquisadores vão elaborar um novo manual com orientações e padronizações do procedimento. Dessa forma, cria-se um padrão com mais propriedade, que será utilizado pelas empreiteiras.

“Vamos analisar os materiais da cidade, ver qual é bom e qual é ruim e condicionar que a empresa vai ter de atender tal requisito para que possa utilizar tal material. Então esse manual não vai seguir só o tapa-buraco, que é um nome que não é o correto falar, a gente chama de remendo, que pode ser superficial ou profundo. Vamos tentar colocar nesse manual outros tipos de intervenções que não sejam tapar um buraco apenas, fazer uma manutenção preventiva para evitar que se transforme em um buraco”, esclarece Daniel.

Laboratório da Prefeitura – Durante o convênio, a prefeitura também vai montar seu próprio laboratório de qualidade na Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos). É o que anunciou o professor, enquanto mostrava os equipamentos do laboratório do curso.

Fornos, materiais para mistura de solo, compactação de asfalto e separação de materiais serão responsáveis por analisar o asfalto de Campo Grande e até sugerir, a partir de misturas, materiais alternativos. Esses equipamentos também serão comprados para o laboratório de qualidade da Sisep.

Forno para materiais de solo e asfalto (Foto: Izabela Sanchez)Forno para materiais de solo e asfalto (Foto: Izabela Sanchez)
Equipamento que mistura os materiais do asfalto (Foto: Izabela Sanchez)Equipamento que mistura os materiais do asfalto (Foto: Izabela Sanchez)

“Vamos fazer projetos de mistura. Além de avaliar os materiais empregados para esse tipo de camada comum, vamos também fazer outro tipo de mistura de material, para ver se tem maior eficácia sobre o que é utilizado atualmente na região. Tudo para que tenha uma solução alternativa que a prefeitura possa utilizar para melhorar o pavimento, ou seja, fazer ele durar mais”, conta Daniel.

O professor opina que a situação atual –asfalto cedendo com a chuva e buracos que se espalham pela cidade– é resultado de anos de descaso. É como se a situação fosse o “ápice” de uma “tragédia anunciada”.

O professor explica que o esfarelamento do asfalto durante a chuva tem várias explicações, principalmente quando o pavimento repousa ao lado de córregos, onde as erosões podem contribuir para o surgimento de danos. Mas o asfalto “varrido” pela chuva, aponta o professor, também indica uso de material de qualidade ruim.

“Quando você não tem intervenções e manutenções preventivas anteriores, chega a um ponto em que a cidade entra num caos porque está totalmente comprometido. A prefeitura, nos últimos anos, tem enfrentado esse problema porque, de gestão em gestão, não é feita uma solução interventiva, tem sido feito paliativos, então, são feitas intervenções que não resolvem e vai provocando ainda mais o problema”, disse o especialista.



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