Polícia entrega inquérito acusando médico de feminicídio e outros 4 crimes
Deam juntou perícias, depoimentos e diário da vítima para provar que morte decorreu de violência em casa
A morte da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos, passou por uma reviravolta ao longo de três meses de investigação. O caso, inicialmente comunicado pelo marido, o médico cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, como um suicídio, terminou com a conclusão da Polícia Civil de que ele na verdade matou a mulher.
RESUMO
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A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul concluiu que a fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos, foi assassinada pelo marido, o cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, e não morreu por suicídio, como ele relatou inicialmente. O médico foi indiciado por feminicídio, fraude processual, violência psicológica, e posse ilegal de armas. O caso agora será analisado pelo Ministério Público estadual, que decidirá se oferece denúncia formal.
O inquérito, concluído formalmente nesta sexta-feira (21) após 95 dias de trabalho investigativo e relatado à Justiça, reúne centenas de páginas, laudos periciais e documentos que, segundo a investigação, apontam que Fabíola foi assassinada dentro da chácara onde vivia com o marido, na região da Chácara dos Poderes, em Campo Grande.
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João Jazbik foi indiciado por feminicídio, fraude processual, violência psicológica contra a mulher, posse ilegal de arma de fogo de uso permitido e posse ilegal de arma de fogo de uso restrito.
Conforme constatado pela investigação, Fabíola vivia sob pressão. Sofria ameaças veladas, com o excesso de controle por parte do marido e punições silenciosas. O diário mantido por ela é o principal documento que comprova a violência psicológica que antecedeu o feminicídio, de acordo com a apuração do Campo Grande News.
João Jazbik Neto não apenas desferiu os golpes físicos que a levaram à morte. Ele a matou todos os dias, durante meses, com a violência silenciosa do controle, do medo e da anulação de sua personalidade. O feminicídio foi apenas o ato final de um longo processo de destruição psicológica”, diz trecho do relatório, assinado pela delegada Analu Lacerda Ferraz, da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), ao qual a reportagem teve acesso.
A conclusão da Polícia Civil tem como base principalmente os exames periciais, que afastaram a hipótese inicial de suicídio, além de elementos encontrados durante a apuração. Por causa do sigilo processual, a delegada preferiu não comentar o desfecho do inquérito.
A defesa do médico nega as acusações desde o início da investigação e afirma que contestará os laudos durante o processo.
A morte – Fabíola Marcotti foi encontrada morta no dia 18 de maio, dentro da propriedade onde morava com João Jazbik. Segundo a versão apresentada inicialmente pelo médico, o caso teria sido tratado como suicídio. Ele acionou o socorro e relatou aos policiais as circunstâncias que teriam levado à morte.
Ainda naquele primeiro atendimento, porém, a cena chamou atenção dos investigadores. A Polícia Civil passou a analisar se os elementos encontrados no local eram compatíveis com a versão apresentada.
No início da investigação, João Jazbik Neto foi preso por suspeita de irregularidades relacionadas a armas de fogo e fraude processual porque, segundo a apuração policial, um armário com armas e munições foi retirado do quarto onde ocorreu a morte e levado para outro imóvel dentro da propriedade.
A suspeita de alteração do cenário fez com que a investigação deixasse de tratar o caso apenas como uma morte por disparo e passasse a avaliar a possibilidade de crime.

Mudança de rumo – Com o avanço dos trabalhos, os laudos passaram a ser decisivos para a mudança da linha investigativa.
Segundo a Polícia Civil, exames produzidos pelo Instituto de Criminalística e pelo Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) afastaram a hipótese de suicídio e indicaram que a morte ocorreu em contexto de violência doméstica e familiar.
Um dos pontos analisados foi o disparo. Conforme informações divulgadas durante a investigação, o laudo necroscópico apontou que a arma não estaria encostada ou muito próxima da cabeça da vítima no momento do tiro.
O documento também registrou hematomas em diferentes partes do corpo de Fabíola, indicando, segundo a investigação, que ela teria sofrido agressões antes da morte.
Além dos exames médicos, investigadores analisaram depoimentos, celulares e outros elementos reunidos durante a apuração. A partir dessas informações, a hipótese de feminicídio ganhou força.
Médico volta a ser preso – Após o avanço da investigação, João Jazbik Neto foi preso preventivamente no dia 14 de agosto. Desta vez, a prisão já estava relacionada diretamente à suspeita de assassinato, e não apenas aos crimes envolvendo armas ou suposta alteração da cena.
Segundo o juiz Aluízio Pereira dos Santos, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri e responsável pela decisão, a perícia indicava que Fabíola teria sofrido agressões antes do disparo, com análise de vestígios como manchas de sangue, trajetória do projétil e posição do corpo.

TJ manda soltar – Seis dias após a prisão preventiva, o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) determinou a soltura de João Jazbik Neto.
Após a soltura, familiares de Fabíola divulgaram manifestação de indignação. Os parentes afirmaram estar “perplexos” com a decisão e disseram que profissão, patrimônio ou prestígio social não podem influenciar o tratamento dado pela Justiça.
A família afirmou respeitar o direito de defesa, mas disse que continuará defendendo que as provas técnicas sejam consideradas no julgamento do caso.
Agora, com o inquérito relatado, cabe ao MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) analisar o conjunto probatório e decidir se oferece denúncia para que o médico passe a responder a uma ação penal ou determina que novas investigações sejam feitas.




