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Capital

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha

Após recusar ex de namoro de 3 meses, mulher perdeu casa, móveis e roupas; filho viu incêndio

Por Gabi Cenciarelli | 21/04/2026 09:54


RESUMO

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Uma professora de 29 anos perdeu tudo após seu ex-companheiro atear fogo à sua casa no Jardim Batistão, em Campo Grande, na madrugada de domingo (19), depois que ela decidiu encerrar o relacionamento de três meses. O suspeito, um pintor de 33 anos, foi preso pela Deam menos de oito horas depois. A vítima, que cria sozinha um filho de 7 anos com autismo, perdeu móveis, roupas e documentos e aceita doações pelo telefone (67) 98101-8214.

“Por causa de um não ele tirou tudo que eu tinha. Porque eu não quis voltar para ele, porque eu mandei ele embora e não queria mais ver ele. É sempre assim, pelo não. Tem que ser só o que ele quer.”

A frase dita por uma professora de 29 anos traduz a dimensão de uma violência que nem sempre deixa marcas no corpo, mas destrói vidas inteiras. Em Campo Grande, no Jardim Batistão, na madrugada do último domingo (19), ela viu a casa onde morava com o filho de 7 anos ser consumida pelo fogo depois de contrariar o ex-companheiro, com quem manteve um relacionamento de apenas três meses.

A polícia prendeu o pintor de 33 anos menos de oito horas depois, na casa da mãe, pela DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher). A prisão, no entanto, não muda o cenário encontrado depois que as chamas foram apagadas.

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha
Casa ficou destruída após incêndio no Jardim Batistão. (Foto: Osmar Veiga)

Na edícula onde a professora de 29 anos vivia, sobraram paredes queimadas, telhas comprometidas e o cheiro forte de fumaça. O fogo destruiu fogão, geladeira, colchão, roupas, calçados, utensílios domésticos, alimentos comprados dias antes, móveis e documentos. Também atingiu aquilo que não se recompra com facilidade: a segurança de voltar para casa e a tranquilidade do filho que assistiu a tudo.

“Eu não tenho mais nada. Eu não tenho mais uma roupa para pôr, sapato para sair. Não tenho mais um nada, porque ele resolveu tirar tudo de mim”, contou.

Ela conheceu o homem há cerca de três meses, em uma conveniência próxima de casa. Segundo relata, ele se apresentou como alguém paciente, carinhoso e prestativo. A aproximação foi rápida e, em pouco tempo, ele passou a frequentar a residência diariamente, dormindo quase todas as noites no local.

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha
Professora perdeu tudo após fogo atingir imóvel. (Foto: Osmar Veiga)

“Ele parecia o melhor homem do mundo, muito paciente, muito carinhoso, muito amoroso", contou a professora.

A imagem construída no início da relação, porém, não demorou a ruir. Vieram os ciúmes constantes, o controle sobre saídas e conversas, as acusações sem motivo e, depois, as agressões físicas. A vítima relata que qualquer situação virava motivo para humilhação ou violência.

“Qualquer motivo era motivo de eu levar tapa. Qualquer coisa que eu falasse era interpretada errado por ele.”

Segundo a professora, o comportamento agressivo se intensificou cerca de um mês após o início do relacionamento. Ainda assim, como ocorre em muitos casos, ela acreditou que se tratava de uma fase passageira.

“A gente vai relevando. Sempre acha que é por ciúme.”

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha
Chamas consumiram móveis, roupas e utensílios. (Foto: Osmar Veiga)

Na noite de sábado, os dois estavam em uma conveniência ingerindo bebida alcoólica. Ela passou mal e decidiu ir embora. Ao perceber que a chave da casa havia ficado com ele, voltou apenas para buscá-la. O pedido simples terminou em agressão.

“Eu só pedi a chave. Ele mandou eu sentar e pegar uma cerveja. Quando recusei, ele me deu um tapa na cara, na frente de todo mundo.”

Assustada, ela deixou o local e foi para a casa de uma amiga. O que parecia ser apenas o fim de uma discussão se transformou em algo muito maior horas depois. Já distante dali, recebeu uma chamada de vídeo do ex-companheiro. Do outro lado da tela, ele ria enquanto mostrava o colchão pegando fogo.

“Ele falava: olha o que você me fez fazer.”

A frase, segundo ela, resume a lógica da violência doméstica: inverter a culpa e responsabilizar a vítima pelo crime cometido.

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha
Restaram cinzas e paredes queimadas na casa. (Foto: Osmar Veiga)

Minutos depois, a mãe da professora, que mora nos fundos do mesmo terreno, percebeu que o incêndio já havia se espalhado. Segundo relatou, o homem esteve no imóvel pouco antes, alterado, batendo e chacoalhando o portão porque estava sem a chave. Em seguida, tentou pular para dentro da casa duas vezes.

“Quando eu abri a janela, já vi as chamas saindo pela porta e pela outra janela também. Falei: meu Deus do céu. Mal conseguia respirar”

Desesperada, ela correu para desligar o relógio de energia e acionou polícia, bombeiros e Samu. Por definição, a violência patrimonial acontece quando o agressor destrói, subtrai, retém ou impede o acesso da mulher a bens, documentos, dinheiro e instrumentos de sobrevivência.

Muitas vezes, aparece junto da violência psicológica e física, como forma de domínio e punição. No caso da professora, o incêndio não teve como alvo apenas objetos. O que se tentou destruir foi a autonomia de uma mulher que criava o filho e seguia a vida sem depender dele.

“Agora é só eu e Deus”, resumiu.

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha
Cenário de destruição após incêndio criminoso. (Foto: Osmar Veiga)

O menino de 7 anos, diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista), presenciou o trauma. Para a mãe, o impacto emocional causado ao filho é uma das perdas mais difíceis de medir.

“Ele teve que ver a casa dele pegando fogo. Eu fiquei em choque, só chorava.”

Hoje, ao olhar para trás, ela reconhece sinais que minimizou no começo da relação: tapas tratados como episódios isolados, explosões de raiva e ameaças veladas.

“Ele falava: você não sabe do que eu sou capaz. Mas eu não acreditei. A gente tem que acreditar.”

Agora, transforma a própria dor em alerta para outras mulheres que convivem com situações semelhantes.

“Eu achava que um tapa não era nada, que ele ia mudar. Não tem que acreditar nisso. Se teve a primeira vez, vai ter a segunda, a terceira, até não sobrar mais nada.”

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha
Mulher tenta recomeçar após perder tudo no incêndio. (Foto: Gabi Cenciarelli)

Sem emprego no momento, a professora tenta reconstruir a vida do zero e aceita doações. Ela precisa de alimentos, colchão, roupas, utensílios domésticos, móveis e itens básicos para retomar a rotina ao lado do filho.

Interessados em ajudar podem entrar em contato pelo telefone (67) 98101-8214 para falar com Verônica Ramona, familiar da vítima responsável por organizar as doações.

“Desde alimento até colchão, panela, talher, copo. Qualquer ajuda serve.”

Por causa de um "não", homem queimou tudo que professora tinha
Pintos chegando na Deam preso após o crime (Foto: Divulgação | PCMS)


Se você vive ou testemunha alguma forma de agressão, denuncie. O 180 atende 24 horas e pode orientar e acolher. Em situações de risco imediato, ligue 190. Seu gesto pode salvar uma vida.

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