De predadora a estrela, onça viva rende até 52 vezes mais ao turismo no Pantanal
Observação do maior felino das Américas ganha força, movimenta milhões e transforma relação com turistas
No silêncio das primeiras horas da manhã os olhos atentos dos visitantes percorrem a paisagem em busca de um encontro raro e, ao mesmo tempo, cada vez mais possível. A onça-pintada, que por décadas foi associada ao medo e ao conflito com a pecuária, atualmente ocupa o lugar de protagonista do turismo ecológico, símbolo de conservação e movimenta milhões por ano.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A onça-pintada deixou de ser vilã para se tornar protagonista do turismo ecológico no Pantanal, atraindo visitantes do mundo todo e gerando cerca de US$ 6,8 milhões por ano. Por meio de um processo gradual de habituação, desenvolvido pela Onçafari desde 2012, os felinos passaram a conviver com humanos, elevando o índice de avistamentos de 16% para 99% na fazenda Caiman. Estudos apontam que o turismo pode render até 52 vezes mais que atividades tradicionais na região.
“Hoje em dia poucos hóspedes chegam com receio das onças. A maioria vem maravilhada,” afirma a bióloga e guia bilíngue do Onçafari (associação sem fins lucrativos dedicada à conservação da biodiversidade, com foco em onças-pintadas), Carolina Kara Prange, que atua na fazenda Caiman, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, desde 2023.
- Leia Também
- Após morrer na rodovia, onça tem material genético coletado para uso futuro
- Biólogo documenta cenas cotidianas para mostrar Pantanal real
A transformação não foi rápida. Foi construída ao longo de anos de pesquisa, monitoramento e convivência, por meio de um processo conhecido como habituação. Gerente de Ciência e Ecoturismo da Onçafari, Lilian Rampim acompanhou esse processo de perto. Em entrevista à National Geographic Brasil, ela contou que recebeu o convite para integrar a organização em 2012. A conquista da confiança das onças ocorreu de maneira gradual, a partir de um projeto piloto de habituação no Pantanal.
Segundo Lilian, a equipe avançava aos poucos, aproximando-se diariamente dos animais. No início, ela saía com um motorista e mantinha o veículo a mais de 200 metros de distância, permanecendo parada e em silêncio. Com o tempo, pequenos estímulos, como um leve ruído ou uma tosse, eram introduzidos para observar a reação das onças, que inicialmente se mostravam alertas, mas acabavam se acostumando.
Após cerca de nove meses, já era possível permanecer a aproximadamente 12 metros dos animais. Trata-se de um processo lento, em que o comportamento aprendido tende a se perpetuar entre gerações.
“A onça realmente é a cereja do bolo”, resume a bióloga Carolina Prange. Para ela, o fascínio vai além da raridade. “A gente consegue identificar individualmente. Cada uma tem suas rosetas, sua personalidade. É um animal complexo, incrível de estudar”. Entre as onças mais famosas da Caiman estão a Aracy e seu filho Mocoha, que regularmente são flagrados e postados nas redes sociais por guias ou turistas.
Habituação - Conforme Carolina, na região da Caiman, onde vivem cerca de 70 onças, a relação entre humanos e felinos passou por um processo gradual de mudança. Em 2012, no primeiro ano do turismo no local, avistar uma onça era um privilégio para poucos, apenas 16% dos turistas conseguiam vê-las. Hoje, o cenário mudou, só em 2025, 99% dos visitantes tiveram ao menos um encontro com o animal.
Com a habituação, aos poucos as onças deixaram de associar veículos e presença humana a ameaças. “Elas entenderam que o carro é um elemento neutro. Continuam fazendo as ‘coisinhas de onça’ delas, enquanto a gente observa”, explica Carolina. O que antes era fuga, virou convivência silenciosa.
A rotina de quem busca esse encontro segue o ritmo da natureza. Saídas ao amanhecer, às 5h30, e no fim da tarde, às 16h, aumentam as chances de avistamento, já que são os horários mais ativos do felino. Equipamentos de rastreamento ajudam a localizar os animais, mas a experiência ainda depende do imprevisível.
Rotina surpreendente - biólogo e guia Maurício Abib, que atua no Pantanal Sul desde 2018, explica que de maio até meados de outubro são os melhores meses para avistamento de onças. “Cada avistamento é surpreendente”, afirma. Ele cita cenas em que há flagrantes de predador sendo predado, como o jacaré no Pantanal, ou situação em que gerações de onças interagem entre si, andam juntas e até dividem comida, derrubando mitos de que andam sozinhas.
Abib lembra de um registro marcante feito no fim de 2024, quando viu uma onça caminhando ao lado de um tamanduá, sem atacá-lo. “É uma complexidade absurda. Antes ela tinha tentado caçar uma capivara. Aí saí com o grupo e quando voltamos, ela caminhava com um tamanduá. Os dois dentro da mata, o tamanduá tentou se defender duas vezes e depois caminharam juntos”.
Economia - Para além da experiência individual, a presença da onça-pintada tem redesenhado a economia e a imagem do Pantanal. O biólogo e pesquisador Fernando Tortato, coordenador do Programa de Conservação da Panthera no Brasil, acompanha esse movimento desde 2011. Segundo ele, houve uma mudança profunda na forma como o animal é percebido.
“Ela deixa de ser vilã e passa a ser uma heroína, um símbolo do Pantanal”, afirma. Essa nova narrativa ganhou força também com a popularização de vídeos nas redes sociais, que frequentemente viralizam ao mostrar momentos raros da vida selvagem, como uma onça capturando um jacaré.
O impacto vai além da visibilidade. Estudos de Tortato, publicados em 2024, indicam que o turismo voltado à observação da onça gera cerca de US$ 6,8 milhões por ano na região do Pantanal Norte e pode render até 52 vezes mais do que atividades tradicionais na mesma área. Segundo ele, o valor precisa ser atualizado, pois desde a pesquisa houve aquecimento no setor com aumento de leitos em pousadas e maior visibilidade para a onça.
Ao mesmo tempo, os prejuízos com ataques ao gado, segundo pesquisa, são significativamente menores, estimados em pouco mais de US$ 120 mil anuais. Na prática, isso significa que a onça viva passou a valer mais do que morta. “Muita gente está disposta a pagar para ver esse bicho na natureza”, destaca Maurício Abib ao ressaltar que o processo de habituação atrai pessoas de todo o mundo.
O turismo também gera empregos e movimenta toda uma cadeia local, de guias e piloteiros a pousadas e serviços. Em regiões como Porto Jofre (MT), no norte do Pantanal, mais de 95% dos visitantes são estrangeiros, atraídos pela promessa de um ambiente ainda selvagem e pouco alterado.
Conservação - Mas o crescimento acelerado traz desafios. “O turista quer ver natureza intocável,” reforça Tortato. Segundo ele, pesquisas indicam que a maioria dos visitantes busca justamente essa experiência de contato com o ambiente preservado. Qualquer mudança, como obras de infraestrutura ou excesso de interferência, pode comprometer esse ativo.
O pesquisador ressalta o projeto que pretende construir uma ponte ligando o Pantanal de Mato Grosso do Sul ao de Mato Grosso, na região de Porto Jofre (MT). A obra, discutida desde 2024, integra um protocolo de intenções firmado entre os dois estados para a criação de um corredor logístico rodoviário entre os biomas na estrada transpantaneira. Atualmente, o local é considerado bastante preservado e tem sido passagem apenas para moradores e turistas.
As entidades ligadas ao turismo e ao meio ambiente são contra a iniciativa e destacam possíveis impactos negativos no entorno do Parque Estadual Encontro das Águas, que é considerado o principal berçário de onças-pintadas do mundo. Com a criação da rodovia, segundo Tortato, poderá haver passagem de veículos mais pesados e possível ameaça à fauna, como atropelamentos de animais, como já ocorre na BR-262, em Mato Grosso do Sul.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.


