Prefeitura diz que construção de ponte no Segredo está em análise inicial
Obra surgiu dentro de estudo de impacto de vizinhança apresentado por empreendimentos na região

Audiência pública realizada na noite desta quinta-feira (23), em Campo Grande, escancarou o conflito entre a proposta de construção de uma ponte no Parque Linear do Segredo e a preservação da área reflorestada, situada na região norte de Campo Grande. O encontro ocorreu na Associação de Moradores da Vila Saraiva, no Jardim Seminário, e reuniu moradores, técnicos da prefeitura, MP (Ministério Público) e representantes de projetos ambientais.
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Audiência pública realizada na quinta-feira (23), em Campo Grande, reuniu moradores, técnicos da prefeitura, Ministério Público e representantes ambientais para debater a proposta de construção de uma ponte no Parque Linear do Segredo. A prefeitura afirmou que o projeto está em fase inicial, sem traçado definido, enquanto moradores e integrantes do projeto Ecoplantar contestaram a obra, que ameaça área reflorestada há 14 anos.
No encontro, a prefeitura afirmou que a proposta ainda está em fase inicial e não há definição sobre traçado ou execução da travessia. Segundo a diretora-presidente da Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), Mariana Massud, a ponte surgiu como diretriz dentro de estudos de impacto de vizinhança apresentados por empreendimentos na região.

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“Hoje nós não temos aprovado nenhuma forma de como vai ser essa travessia. Não existe projeto definido”, disse. Ela explicou que o processo ainda depende de análise técnica e licenciamento ambiental. “Qualquer intervenção em área de preservação permanente exige autorização e segue etapas. A gente está cumprindo o que a legislação estabelece”, afirmou.
Mariana também rebateu críticas sobre possível dano ambiental. “Ouvi que estaríamos cometendo um crime ambiental. Isso não procede. Existe um rito, e nós estamos na fase inicial”, declarou. Segundo ela, a necessidade de ligação viária já aparece em instrumentos como o Plano Diretor e o Plano de Mobilidade.
A favor - Os vereadores que participaram da audiência defenderam a revisão da proposta e a busca por alternativas à construção da ponte. O vereador Ronilço Guerreiro (Podemos), autor do pedido da audiência, e outros parlamentares presentes sinalizaram que pretendem discutir, na Câmara Municipal, a adoção de um projeto mais amplo de requalificação do parque como medida compensatória.
A ideia é substituir a obra viária por intervenções voltadas ao lazer, segurança e preservação ambiental. Também houve defesa de que a eventual ligação entre bairros ocorra em outro ponto, fora da área reflorestada, ou por meio de soluções viárias com menor impacto.
Já a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) defendeu a proposta sob o argumento de melhoria da mobilidade. A diretora-executiva Andrea Figueiredo afirmou que o crescimento populacional aumentou a pressão sobre as vias da região norte.
“Identificamos 4.700 veículos em um período de uma hora e meia em um cruzamento da região. Isso é muito carro para uma via local”, disse. Segundo ela, a proposta de interligação busca reduzir deslocamentos longos e distribuir o fluxo. “A ideia é quebrar esse trajeto no meio do bairro e evitar que os veículos percorram vias locais inteiras”, explicou.
Andrea destacou que a ligação viária já foi discutida em planos anteriores. “Essa necessidade aparece desde 2009 e foi reafirmada na revisão do Plano Diretor em 2018”, afirmou. Apesar disso, reforçou que não há decisão final. “Estamos aqui para discutir como isso pode ser feito”, disse.
Contra - Moradores e integrantes do projeto Ecoplantar contestaram a proposta e cobraram alternativas. A dona de casa Eloisa Fernandes, que vive na região há 60 anos, criticou a possibilidade de supressão da vegetação.
“Foi um trabalho de anos para deixar esse parque como está. Não acho que a gente pode derrubar essas árvores”, disse. Ela também cobrou melhorias no atendimento ao público. “A gente precisa de ônibus melhor, saúde melhor, não só de obra viária”, afirmou.

O Gestor Ambiental do projeto Ecoplantar, Marcos Eduardo, disse que foi surpreendido com a possibilidade de construção da ponte.
“Estamos há 14 anos trabalhando nesse parque. De repente, fui surpreendido com uma proposta que já aparecia como avançada em estudo apresentado”, afirmou. Ele questionou o traçado e a origem da ideia. “A informação que tive é que a ponte não foi solicitada por empreendedor, mas surgiu dentro da própria prefeitura”, disse.
Marcos também criticou a ausência de diálogo prévio. “Ninguém da comunidade foi chamado para discutir. Isso precisa ser construído com quem vive a realidade do local”, declarou. Segundo ele, o parque já cumpre funções importantes. “Ali não é só um parque. É infraestrutura urbana, que segura água da chuva e reduz alagamentos”, afirmou.
Mediação - Conforme noticiado pela reportagem, o MP abriu procedimento para acompanhar o caso. O promotor de Justiça Luiz Antônio Freitas afirmou que o órgão não decide sobre a obra, mas fiscaliza a legalidade.
“O nosso papel é verificar se a decisão está em conformidade com a lei e com a Constituição”, disse. Ele explicou que intervenções em área de preservação permanente exigem justificativa. “É preciso comprovar que não há alternativa técnica ou locacional”, afirmou.

Segundo o promotor, a investigação ainda está no início. “Solicitamos informações ao Executivo, que ainda está no prazo para responder. Só depois disso teremos uma posição mais consolidada”, declarou.
Durante a audiência, a professora Eliane Guaraldo, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), apresentou estudos acadêmicos para requalificação do parque. Os projetos incluem recuperação ambiental, áreas de lazer e soluções para drenagem.
“O parque faz parte de um corredor de biodiversidade. Ele conecta áreas verdes e ajuda no controle de enchentes e erosão”, explicou. Segundo ela, os trabalhos foram desenvolvidos por alunos com base em estudos técnicos. “Não são ideias soltas. Há análise social, ambiental e urbanística”, disse.
Até o fechamento desta reportagem, a audiência seguiu com manifestações da população e não houve deliberação final.



