Primeiro corpo do “cemitério de Nando” está sem identificação há 10 anos
Os restos mortais eram de “Café”, que segue sem o mais básico dos direitos: é um morto sem nome

Há dez anos, em 17 de novembro de 2016, investigação policial encontrou no Jardim Veraneio, em Campo Grande, o primeiro corpo do que viríamos a descobrir se tratar do cemitério particular do serial killer Nando. Os restos mortais eram de “Café”, que uma década depois segue sem o mais básico dos direitos: é um morto sem nome.
RESUMO
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Dez anos após a descoberta do primeiro corpo no cemitério clandestino do serial killer Nando, em Campo Grande, a vítima conhecida como Café segue sem identificação. O perfil genético do homem, negro, oriundo de São Paulo e usuário de drogas, está armazenado no Banco Estadual de Perfis Genéticos, mas nenhum familiar apareceu. Nando, condenado a 214 anos de prisão por 16 homicídios, teve pedido de prisão domiciliar negado pela Justiça.
A história do homem que perambulava pelas ruas do Bairro Danúbio Azul é o retrato dos esquecidos. Luiz Alves Martins Filho, o Nando, mirava pessoas em vulnerabilidade social, já no campo da miséria.
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Conforme a Polícia Científica de Mato Grosso do Sul, os remanescentes humanos indicados nos registros da investigação como pertencentes a “Café” foram submetidos aos procedimentos médico-legais e à coleta de material biológico.
“A análise realizada pelo IALF (Instituto de Análises Laboratoriais Forenses) permitiu a obtenção de um perfil genético masculino. No entanto, esse resultado, isoladamente, não revela a identidade da pessoa. Para que a identificação civil seja estabelecida, é necessário compará-lo com amostras de familiares biológicos ou com outro material de referência vinculado à pessoa desaparecida”, informa a Polícia Científica.

O perfil permanece armazenado no Banco Estadual de Perfis Genéticos, integrado à rede nacional, e é submetido semanalmente a confrontos com os demais registros disponíveis no sistema. Dessa forma, caso familiares de pessoas desaparecidas realizem a coleta de material biológico em qualquer unidade da federação integrada à rede, essas amostras poderão ser comparadas com o perfil obtido.
Contudo, até o momento, os registros consultados não indicam correspondência genética que tenha permitido concluir a identificação. Após a realização dos exames periciais, foi emitida declaração de óbito como pessoa não identificada, com referência à alcunha “Café”. Os restos mortais foram sepultados por determinação judicial.

Fragmentos de uma vida - Sem nome, “Café” acabou sendo o fio da meada para Nando aflorar a personalidade narcisista. O crime foi em parceria com Jean Marlon Dias Domingues. O comparsa falou e o serial killer, extremamente vaidoso, resolveu abrir a boca. A vítima devia dois fretes para Nando, que somavam R$ 170.
A investigação policial conseguiu coletar fragmentos da vida de “Café”. “Ele estava em Campo Grande, mas era oriundo do estado de São Paulo. Ele praticava pequenos furtos no bairro, era usuário de drogas. Uma pessoa negra, como as outras vítimas. E nós não conseguimos levantar mais informações. À época, foi bastante divulgado. Não apareceu ninguém que conhecesse”, afirma a delegada Aline Sinnott Lopes.
Ela esteve à frente do início da investigação e é autora do livro “A Jornada dos Esquecidos”. A obra retrata as vítimas, que chamaram a atenção de Nando justamente pela invisibilidade. Quem procuraria pelos dependentes químicos, autores de pequenos furtos e prostitutas?
“O Café sintetiza muito bem o que era e qual a arma principal utilizada pelo autor dos crimes. Que era, justamente, esse esquecimento, essa vulnerabilidade. Ninguém iria procurar. De fato, essa era a arma principal na prática desses crimes”, diz a delegada.
O cemitério dos esquecidos ficava num prolongamento da Rua Lise Rose, numa área onde entulhos eram descartados, inclusive por Nando, que era jardineiro.
A investigação começou por suspeitas de exploração sexual de adolescentes, tráfico de drogas e rinha de galos. Até então, não havia homicídios.
“Se tinha notícia do desaparecimento de algumas pessoas residentes no bairro. No dia que nós cumprimos as buscas, um dos envolvidos indicou o local correto e começaram as escavações. Mas nós demoramos algum tempo até encontrar o primeiro, que foi o Café”.
“Palavra na boca de alguém” - Durante a investigação, a delegada se deparou com o esquecimento. “Chegávamos nas casas e tinha uma história cobertura. Eu digo que você fugiu com o seu namorado, enquanto que, na verdade, eu te matei. Ele tinha uma certa ascendência no bairro, seja pela imposição do medo ou porque estava ali há muito tempo”.
A situação fazia com que os desaparecimentos nem fossem formalizados com registros de Boletim de Ocorrência na Polícia Civil, caso de “Café”.
Não dar um nome a ele não significa que ele não existiu. Foi aí que o autor principal ‘amoleceu’ e passou a, em certa medida, ajudar. Como uma pessoa narcísica, extremamente vaidosa, ele jamais iria deixar o Jean tomar o protagonismo. E ele sabia mais do que todos”, diz a delegada, sobre os fatos que se seguiram à localização do corpo no cemitério clandestino.
Com o material armazenado, um dia, pode surgir um parente e ser descoberta a identidade do “Café”.
“Realmente, o Café pode ter uma família que está procurando por ele até hoje. Nós tínhamos vítimas que, muito embora a mãe não estivesse procurando, tínhamos uma avó. Nós somos lembrados sempre enquanto formos palavras na boca de alguém. Esse foi um dos motivos de eu ter escrito o livro”, afirma a delegada.
Pena de 214 anos de prisão – Em 29 de junho de 2018, Nando e Jean foram condenados pelo homicídio de “Café”. O julgamento foi na 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande. Nando foi sentenciado a 18 anos de reclusão e 3 meses pelo crime de homicídio qualificado. Jean foi condenado a 15 anos e seis meses de prisão em regime fechado.
Ao todo, a pena de Nando é de 214 anos e 10 meses de prisão por homicídios e destruição de cadáver. Nando matou 16 jovens na região do Bairro Danúbio Azul. As vítimas eram, em sua maioria, pessoas em situação de vulnerabilidade, como usuários de drogas e profissionais do sexo.
Em maio, o serial killer tentou prisão domiciliar devido ao estado de saúde. Ao negar o pedido, o juiz Luiz Felipe Medeiros Vieira, atuando em substituição legal, afirmou que a Lei de Execução Penal assegura ao preso o direito à assistência à saúde. Contudo, destacou a periculosidade do condenado, que está preso no Instituto Penal de Campo Grande.
“Isso porque o apenado ostenta elevadíssimo grau de periculosidade, cumpre pena totalizada em 214 anos, 10 meses e 10 dias de reclusão, decorrente da prática de crimes de extrema gravidade, dentre eles diversos homicídios qualificados e delitos relacionados à destruição e ocultação de cadáver”, disse o juiz.
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