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Capital

"Que sono pesado", diz juiz a réu que alegou dormir durante assassinato em cela

Três réus são julgados pela morte de Julian Kenedi, agredido e asfixiado em uma cela do IPCG, no Natal de 2019

Por Silvia Frias e Dayene Paz | 06/07/2022 10:34
Réu por homicídio diz que dormia quando vítima começou a ser espancada. (Foto: Marcos Maluf)
Réu por homicídio diz que dormia quando vítima começou a ser espancada. (Foto: Marcos Maluf)

Quando a sessão de espancamento de Julian Kenedi Vilhalva da Silva acontecia, dentro da cela do IPCG (Instituto Penal de Campo Grande), o companheiro de cela, Junior Fábio de Jesus Barbosa, 31 anos, alegou que dormia e não participou de nada. Naquele dia, 25 de dezembro de 2019, Silva foi morto aos 31 anos por asfixia após as agressões. No corpo, ainda foi escrito com pasta de dente "CV" e "Era CV", alusão ao Comando Vermelho.

A alegação foi feita durante depoimento hoje, prestado no julgamento pelo crime, na 2ª Vara do Tribunal do Júri. “Mas que sono pesado, esse”, rebateu o magistrado Aluizio Pereira dos Santos. “Acordei na hora do piseiro, doutor”, justificou Junior Fábio.

Edevaldo (esq) e Júnio Fábio estão presos em Dourados. (Foto: Marcos Maluf)
Edevaldo (esq) e Júnio Fábio estão presos em Dourados. (Foto: Marcos Maluf)

Junior Fábio de Jesus Barbosa, o “Mão na Pedra” ou “Treteira”, é um dos três réus da morte de Julian Kenedi que está sendo julgado hoje. Além dele, o julgamento inclui Edevaldo Carlos Pereira, 39 anos, o “Italiano” ou “Pedreiro”, e Pedro Henrique Gonçalves Benites, 30 anos, o “Peito Queimado”, o último, à revelia, já que não foi localizado para estar presente.

Pela denúncia do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), Julian Kenedi foi morto por ter traído do PCC (Primeiro Comando da Capital) e ter se aliado à facção rival, o CV (Comando Vermelho). A alegação ganha força por conta da brutalidade do crime da inscrição feita com pasta de dente no corpo da vítima: “CV” e “Era CV”.

Ainda conforme denúncia, outros três presos também participaram do homicídio, mas apenas um deles foi condenado: Otávio Gomes da Cruz Pereira, 32 anos, o “Hippie” ou “Galo”, que confessou o crime.

No corpo da vítima, pasta de dente foi usada para mostrar traição. (Foto/Reprodução)
No corpo da vítima, pasta de dente foi usada para mostrar traição. (Foto/Reprodução)

No dia 19 de fevereiro de 2021, “Galo” foi julgado e condenado a 19 anos e 11 meses de reclusão e 20 dias-multa. Os outros dois, Leandro Carrilho de Abreu, 29 anos, o “Neguinho”, e Marco Antônio Gonçalves de Souza Neto, 32 anos, o “Farinha” ou “Marquinho”, foram absolvidos, por falta de provas.

Piseiro – Os dois réus foram ouvidos por videoconferência, já que estão presos em Dourados. O primeiro a depor no julgamento foi Edevaldo Pereira. Diz que Julian Kenedi deveria ter entregue encomenda de pasta base, mas tentou enganar os presos e levou sabão no lugar da droga. Também diz que a vítima não era de nenhuma facção.

Em seguida, foi a vez de Júnior Fábio. Ele já cumpre pena por tráfico e homicídio. Também responsabiliza apenas Otávio Gomes, o “Galo” pela morte do preso, o único que confessou o crime. O juiz Aluizio Pereira perguntou a ele quem bateu no preso. “Eu tava dormindo na cela, ouvi os presos falando que foi o Otávio, parece que é capoeirista, desmaiou o cara no chão”.

O juiz questionou o sono pesado do preso, que respondeu ter acordado somente na “hora do piseiro”. Sobre a motivação do crime, também falou sobre a tentativa de Julian Kenedi de vender sabão como se fosse pasta base de cocaína. O promotor Moisés Casarotto fez aparte e citou que o prejuízo pelo golpe seria de R$ 11 mil e o PCC (Primeiro Comando da Capital) estava cobrando pela droga. Moisés também citou que a droga "encomendada" e trocada por uma barra de sabão seria crack.

Julgamento está sendo realizado pela 2ª Vara do Tribunal do Júri. (Foto: Marcos Maluf)
Julgamento está sendo realizado pela 2ª Vara do Tribunal do Júri. (Foto: Marcos Maluf)

O promotor perguntou ao preso como é possível que uma pessoa tenha feito tudo sozinha. No laudo pericial no corpo de Julian Kenedi consta diversos hematomas e fraturas nos dentes e pelo corpo, além da asfixia mecânica, feita com lençol. Junior Fábio disse que “Otávio bateu e matou”, enquanto outros presos deram banho e penduraram na corda. Porém, não soube dizer quem seriam esses detentos.

Após os depoimentos, o promotor Moisés Casarotto passou a falar, dizendo que é impossível que o crime tenha sido cometido por uma só pessoa. Diz que, pelo crime organizado, um assume a autoria do grupo todo. “O medo impera”.

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