Santa Casa fechou 2025 com déficit de R$ 124,5 milhões e devendo R$ 261 milhões
No relatório publicado hoje, a instituição aponta ser credora de mais de R$ 700 milhões do poder público

A Santa Casa de Campo Grande fechou 2025 com déficit de R$ 124,582 milhões, resultado 26,7% pior que o registrado no ano anterior, quando o rombo havia sido de R$ 98,364 milhões. O balanço fiscal, analisado em 24 de junho pelo conselho fiscal da instituição, mostra que a receita cresceu, mas não o suficiente para acompanhar o avanço das despesas, das dívidas e das obrigações fiscais.
RESUMO
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Os conselheiros Antônio Urban Filho, Edson Alceu Lazaroto e Valdir José D’Angol Zanin avaliaram o documento, publicado hoje no Diogrande, e a instituição o encaminhará à assembleia geral de associados. Ao todo, são 12 páginas de planilhas e notas explicativas sobre a movimentação financeira do hospital em 2025. O parecer de auditoria independente aponta “incerteza relevante” sobre a continuidade operacional diante da situação.
Os números confirmam um quadro que vem se repetindo ao longo dos anos: o principal hospital credenciado ao SUS (Sistema Único de Saúde) em Mato Grosso do Sul gasta mais do que arrecada e depende de repactuações, aditivos contratuais, ações judiciais e apoio do poder público para manter a operação.
Em 2025, a receita operacional líquida chegou a R$ 529,843 milhões, contra R$ 519,791 milhões em 2024, alta de aproximadamente 1,9%. Considerando os recursos recebidos no período, o total chegou a R$ 588 milhões. Ainda assim, o crescimento da arrecadação ficou distante da pressão das despesas.
As receitas recebidas por serviços prestados somaram R$ 503,4 milhões, ante R$ 485,8 milhões no exercício anterior. Do outro lado da conta, os custos dos serviços prestados chegaram a R$ 452,651 milhões em 2025, cerca de R$ 21 milhões acima do registrado em 2024. Entre os principais gastos listados no balanço estão pessoal não médico, corpo clínico, medicamentos, materiais hospitalares e serviços terceirizados, entre os quais estão médicos que não integram o quadro próprio.
As obrigações com pessoal somaram R$ 53,5 milhões, aproximadamente R$ 10 milhões a mais que no exercício anterior. A dívida previdenciária também cresceu, passando de R$ 1,2 milhão em 2024 para R$ 1,6 milhão em 2025.
O salto mais expressivo aparece nas obrigações fiscais, que praticamente dobraram em um ano. O valor saiu de R$ 66,192 milhões em 2024 para R$ 134,017 milhões em 2025. O balanço também mostra alto endividamento bancário. No curto prazo, com vencimento em até 12 meses, os empréstimos somavam R$ 16,8 milhões, contra R$ 16,1 milhões no ano anterior. Quando entram os empréstimos e financiamentos de longo prazo, o valor dispara para R$ 261,7 milhões.
Entre os principais contratos aparecem financiamento de R$ 248 milhões junto à Caixa Econômica Federal, empréstimo de R$ 10 milhões com o Sicoob Credicom e outro de R$ 8 milhões com o Banco Daycoval. A nota explicativa informa que, em junho de 2025, foi assinado termo que suspendeu por seis meses o pagamento das parcelas do financiamento com a Caixa, medida que deu fôlego temporário ao caixa do hospital.
O patrimônio líquido aparece como passivo a descoberto, ou seja, negativo. Em 2024, era de R$ 497,886 milhões negativos. Em 2025, passou para R$ 622,378 milhões negativos. Na prática, significa que as obrigações superam os ativos da instituição em mais de R$ 622 milhões.
O balanço também aponta déficit acumulado de R$ 544,768 milhões, quase R$ 100 milhões acima do registrado no exercício anterior. A diferença entre os indicadores reforça a profundidade do desequilíbrio financeiro, que em mais de uma ocasião forçou repasses adicionais do Estado e do Município, inclusive para pagamento de folha, diante da ameaça de greve de funcionários.
Nas notas explicativas, a direção afirma que busca o reequilíbrio financeiro por meio de tratativas com o poder público, especialmente na revisão do contrato de prestação de serviços do SUS junto à SESAU (Secretaria Municipal de Saúde).
A instituição sustenta ainda ser credora de valores por atendimentos feitos a pacientes do SUS. Segundo o balanço, seriam R$ 275,593 milhões referentes ao período de 7 de outubro de 2011 a maio de 2018. Com valores vencidos posteriormente, a conta alegada pelo hospital chega a R$ 667,8 milhões. Além disso, a Santa Casa afirma que o poder público deixou de repassar outros R$ 46,381 milhões em relação ao teto contratado de serviços.
A discussão sobre as contas do hospital também está judicializada. Há duas ações em tramitação para analisar a situação financeira da Santa Casa. Há pouco mais de uma semana, foi definida a realização de perícia nas contas da instituição, exigência do Estado e do Município para avançar em uma repactuação dos serviços contratados. Enquanto isso, a cada período, a Justiça autoriza novos aditivos para manter o atendimento.
Há uma determinação judicial para que os dois entes apresentem uma solução para a crise do hospital. Após aportes adicionais no fim do ano, as duas esferas do Poder Executivo exigiram uma auditoria nas contas, que acabou não avançando. Agora, com a perícia, é possível um diagnóstico para formatar uma nova pactuação.

