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Capital

Sem teto, casal resiste à separação 5 meses após alta médica em hospital

Caso é um entre dezenas na Santa Casa; MP cobra da prefeitura serviço para abrigar a esse tipo de paciente

Por Cassia Modena | 03/07/2026 14:01
Sem teto, casal resiste à separação 5 meses após alta médica em hospital
Um dos sete pacientes retidos na Santa Casa da Capital até abril deste ano; agora são oito (Foto: Divulgação)

“Ninguém é doido de tentar separar a gente”, ameaça a companheira de um idoso que teve alta médica há cinco meses, mas não pode sair da Santa Casa de Campo Grande. O paciente está entre dezenas da Capital com deficiência, transtornos mentais e em situação de rua que não têm casa nem familiares localizados para acolhê-los e por isso permanecem por até mais de um ano ocupando leitos que poderiam estar liberados.

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Dezenas de pacientes com deficiência, transtornos mentais ou em situação de rua permanecem internados em hospitais de Campo Grande por meses após receberem alta médica, pois não têm moradia nem familiares para acolhê-los. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul entrou com ação civil pública contra a Prefeitura exigindo a desospitalização em 15 dias, sob pena de multa, após identificar 13 casos de omissão em 2026, três com morte.

Além da Santa Casa, eles estão distribuídos entre quase todas as instituições que atendem pela rede pública na Capital. Há casos no Hospital São Julião, Humap (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian) e HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul).

O idoso tem 60 anos e deveria ter saído do hospital em 21 de janeiro deste ano. Ele não terá o nome divulgado por estar em situação de vulnerabilidade. Quem teme a separação é uma mulher de 59 anos que terá a identidade preservada pelo mesmo motivo. O casal vivia nas ruas antes da internação.

Ela conversou com a reportagem por ligação nesta sexta-feira (2). Afirmou que passa praticamente o dia todo cuidando dele no hospital. Questionada se também dorme na instituição, ela responde que passa a noite, “porque dormir, não dá”.

Ambos negaram ter renda ao setor de assistência social da Santa Casa. Evitam falar do passado. Afirmam que tiveram filhos, mas não revelam seus nomes, endereços e contatos.

Equipes da prefeitura estiveram no hospital para tentar solucionar o caso, mas as opções dadas foram o acolhimento dos dois em instituições separadas. Eles se recusam. “Não queremos abrigo, queremos uma casa”, pede a mulher. “Nunca nos deram nenhum parafuso. Eu não acredito mais”, ela afirma.

O paciente chegou ao hospital em dezembro do ano passado. O quadro era de fraqueza no lado esquerdo do corpo, dor lombar e dificuldade para andar. Os sintomas são da dor neuropática, relacionada a alterações nos nervos. Quando sair, ele precisará fazer sessões de fisioterapia para conseguir andar melhor. Necessidade mais básica ainda é um lugar para morar.

Segundo a assistente social da Santa Casa, Emily Farias, oito pacientes estão em situação parecida neste momento e aguardam acolhimento. Os que já saíram levaram de 90 a 100 dias para conseguirem uma vaga em residência terapêutica ou outro serviço público, de acordo com o que ela acompanha.

Em 15 dias - Nesta semana, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) entrou com ação civil pública com pedido de tutela de urgência contra a Prefeitura de Campo Grande para que os pacientes deixem de ser retidos, recebam o acolhimento e para que um serviço de desospitalização seja estruturado.

O principal pedido é que todos os que se encontram nessa situação sejam retirados dos locais e levados para outro adequado no prazo de 15 dias, mesmo que seja necessário custeá-lo na rede privada por falta de vagas.

Sem teto, casal resiste à separação 5 meses após alta médica em hospital
Paciente assina com digital o consentimento para acolhimento (Foto: Reprodução/Processo)

A Promotoria afirma que esses pacientes permanecem “indevidamente segregados e retidos” porque o Município não providencia, em prazo razoável, vagas em SRTs (Serviços Residenciais Terapêuticos), residências inclusivas ou outras unidades de acolhimento apropriadas. A ação classifica isso como “omissão estrutural grave”.

Só em 2026, foram identificadas 13 situações de omissão, três com desfecho de morte. Em um dos casos, uma mulher internada no Hospital São Julião, com alta desde 20 de março de 2025, morreu em 31 de março de 2026. No ano passado, nove processos foram movidos em favor de pessoas que precisavam sair de hospitais e 25 procedimentos para atendimento extrajudicial foram abertos.

Existe uma “grave e crônica falha” na articulação entre o SUS (Sistema Único de Saúde) e o SUAS (Sistema Único de Assistência Social) no processo de desospitalização, na visão do MPMS.

As situações “degradam a dignidade”, ferem os direitos humanos e os direitos das pessoas com deficiência e dos idosos, aponta o MPMS. Outro pedido é que nenhum paciente continue nos hospitais por mais de duas semanas após a alta, sob pena de multa.

A Prefeitura - O Campo Grande News questionou a assessoria de imprensa da Prefeitura de Campo Grande sobre os casos e as medidas que pretende adotar. Não houve retorno até a publicação da matéria, mas o espaço segue aberto.

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