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Capital

Situação da Santa Casa é levada a órgãos federais para apuração

Inspeção aponta espera por cirurgias, falta de médicos e problemas na estrutura

Por Kamila Alcântara | 11/04/2026 08:51
Situação da Santa Casa é levada a órgãos federais para apuração
Um dos pacientes estava com a perna engessada e enfaixada com sacolas plásticas. (Foto: Vitor Ilis)

A crise no atendimento da Santa Casa de Campo Grande ganhou um novo capítulo depois que a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul decidiu levar o caso para fora do Estado e acionou o Departamento Nacional de Auditoria do SUS e o TCU (Tribunal de Contas da União) para investigar o uso de recursos federais e o que está acontecendo dentro do hospital.

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A Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul acionou o Departamento Nacional de Auditoria do SUS e o TCU para investigar o uso de R$ 53 milhões em repasses federais à Santa Casa de Campo Grande. Uma inspeção encontrou pacientes sem atendimento especializado, cirurgias canceladas, mortes possivelmente ligadas à demora e falhas estruturais. A Santa Casa afirma que auditorias em curso têm caráter contábil.

Conforme divulgado nesta sexta-feira (10), a medida veio após uma inspeção que encontrou um cenário considerado crítico, com pacientes esperando semanas por cirurgias, falta de médicos, procedimentos sendo cancelados e até relatos de mortes que podem ter relação com a demora no atendimento. Isso tudo mesmo com cerca de R$ 53 milhões em repasses federais até março deste ano.

Durante a vistoria, feita no último mês, a Defensoria ouviu 46 pacientes e encontrou um padrão preocupante. Gente internada sem avaliação de especialista, pacientes em jejum por dias sem cirurgia, decisões médicas sendo tomadas à distância e falta de informação básica sobre diagnóstico e tratamento.

Em um dos relatos, enfermeiros fotografavam lesões e enviavam para médicos por aplicativo, sem exame presencial. Também foram apontados problemas na estrutura, como falta de climatização, mobiliário danificado e falhas de higiene.

Os casos concretos reforçam o tamanho do problema. Uma paciente esperou mais de 20 dias por cirurgia cerebral e só foi operada depois da intervenção da Defensoria. Em outra situação, pacientes aguardam por meses ou até anos a retirada de materiais cirúrgicos, o que aumenta o risco de infecção.

Há ainda o registro de uma morte por infecção generalizada que pode estar ligada à demora nesse tipo de procedimento. Em paralelo, especialidades como ortopedia estão praticamente paradas, com cirurgias suspensas por falta de pagamento de equipes médicas.

A Defensoria afirma que a situação não pode ser tratada como algo normal e cobra investigação sobre a aplicação dos recursos e a gestão do hospital. A expectativa é que os órgãos federais apurem se houve irregularidades e apontem responsabilidades.

Situação da Santa Casa é levada a órgãos federais para apuração
Defensora Eni Diniz durante entrevista com paciente internado (Foto: Vitor Ilis)

O Campo Grande News pediu um posicionamento oficial do hospital sobre essa inspeção da Defensoria e todas as situações relatadas nos documentos. É importante lembrar que essa não é a primeira auditoria, já que a CGE (Controladoria Geral do Estado) trabalha nessa questão desde janeiro, para subsidiar a Secretaria Estadual de Saúde nas decisões sobre o hospital.

Essa fase é importante para elaborar uma proposta de contratualização com o hospital, que será conduzida pela Secretaria Municipal, responsável pela gestão do SUS. Na semana passada, o secretário Marcelo Vilela falou sobre o “problema do financiamento do hospital”. Ele analisou que houve aumento da população sem um planejamento da oferta da rede de atendimento.

Segundo Marcelo, os serviços mais complexos, como ortopedia, seguem concentrados na Santa Casa e parte da solução do problema da falta de atendimento passa pela desconcentração. Como medidas, citou a ampliação de oferta de serviços de ortopedia no Hospital do Pênfigo e o atendimento de oncologia infantil no Hospital do Câncer.

Uma das queixas da Santa Casa é quanto à desatualização da tabela do SUS. O hospital já ingressou tanto na Justiça Federal quanto na Estadual em busca de correção de valores pagos pelos atendimentos. No ano passado, o hospital chegou a apresentar um plano de reestruturação às autoridades estimado em R$ 60 milhões.

Em entrevistas à imprensa, dirigentes apontam a dificuldade de cumprir com todas as obrigações, diante do déficit e das dívidas, alternando entre compra de medicamentos, pagamento de folha e cumprimento de contratos com fornecedores.

Em nota encaminhada à reportagem, a Santa Casa de Campo Grande esclareceu que a auditoria anunciada pelo Governo do Estado e pela Prefeitura possui caráter essencialmente contábil. Segundo a instituição, até o momento não há equipes atuando presencialmente nas dependências do hospital, tendo sido solicitados apenas documentos e informações, que já estão sendo disponibilizados.

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