"Socorro, socorro, socorro": diário de Fabíola relata medo e controle do marido
Perícia confirmou autoria das anotações; para a delegada, escritos mostram violência psicológica
Em letrais garrafais, a fisioterapeuta Fabíola Marcotti escreveu no seu diário: “Socorro, socorro, socorro”. O pedido aparece entre as anotações deixadas em um diário apreendido durante a investigação de sua morte. Nas páginas, ela relata medo, controle, isolamento e dificuldades enfrentadas no relacionamento com o médico João Jazbik Neto. Em dos apontamentos, a frase que foi prenúncio de morte: "(...) vai acabar acontecendo aquilo, é fácil".
RESUMO
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Diário apreendido pela polícia revela pedidos de socorro escritos pela fisioterapeuta Fabíola Marcotti antes de sua morte, ocorrida em maio de 2024 em Campo Grande. Nas anotações, ela descrevia medo, controle e isolamento no relacionamento com o médico João Jazbik Neto, indiciado por feminicídio. A perícia grafotécnica confirmou a autoria dos escritos. A defesa do médico nega as acusações e contesta os laudos periciais.
O caderno ganhou destaque no relatório final do inquérito conduzido pela 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), de Campo Grande. Segundo a delegada Analu Lacerda Ferraz, responsável pelo caso, os escritos ajudam a mostrar o que Fabíola vivia antes da morte, ocorrida em 18 de maio deste ano, na Chácara dos Poderes.
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Em uma das páginas reproduzidas no documento, datada de 13 de abril de 2024, Fabíola escreveu três vezes a palavra “socorro”. Logo abaixo, relatou que não aguentava mais a situação vivida no relacionamento, que o problema estava piorando e que havia chegado ao limite naquele ano. Para a polícia, os registros estão relacionados ao contexto de controle e violência psicológica descrito pela vítima.
Outra anotação, de 29 de abril de 2024, também termina com três pedidos de “socorro”. Em outros trechos, Fabíola escreveu que não podia olhar para outras pessoas nem manter amigos homens, além de relatar controle de horários e questionamentos constantes sobre onde estava e com quem.
Para Analu, os registros mostram os efeitos desse comportamento sobre Fabíola. “A frieza e o silêncio eram armas de tortura psicológica”, escreveu no relatório. Mesmo diante das situações narradas, a fisioterapeuta ainda se referia ao companheiro como “o homem que eu amo” e “a pessoa que acreditei ser o amor da minha vida”.
“Essa contradição revela o ciclo da violência doméstica: a alternância entre momentos de tensão, agressão e ‘lua de mel’, que mantém a vítima presa à relação pela esperança de mudança e pela dependência emocional construída pelo agressor”, afirmou a delegada.
Ao analisar os relatos, Analu relacionou o controle descrito por Fabíola à violência psicológica. “A violência psicológica, descrita no diário de Fabíola, não é um crime menor ou acessório. Ela é a base sobre a qual o feminicídio foi construído”, afirmou. A investigação também cita ameaças e punições por meio do silêncio.
Perícia confirmou autoria – O caderno passou por exame grafotécnico para verificar a autoria das anotações. Os peritos compararam a escrita das páginas com a assinatura de Fabíola no passaporte. A análise levou em consideração características como formato das letras, proporções e traços e concluiu que os escritos e as assinaturas no diário partiram da mesma pessoa que assinou o passaporte em nome de Fabíola Marcotti.
Com a confirmação, Analu ressaltou a importância do material para a investigação. “Este documento, portanto, não é mero papel, mas a voz escrita de Fabíola, o registro de sua dor, de seu medo e da violência silenciosa que a consumiu antes do golpe fatal”, escreveu.
Em outro trecho, afirmou: “O diário de Fabíola é o documento mais pungente da violência psicológica que a antecedeu e que, em última instância, a matou”.
Na sequência, escreveu: “João Jazbik Neto não apenas desferiu os golpes físicos que a levaram à morte. Ele a matou todos os dias, durante meses, com a violência silenciosa do controle, do medo e da anulação de sua personalidade. O feminicídio foi apenas o ato final de um longo processo de destruição psicológica”.
Relatos de familiares – Depoimentos de familiares também foram considerados na investigação. Eles disseram que Fabíola vivia sob controle, não podia sair sozinha, havia deixado de trabalhar e dependia financeiramente do marido.
Um irmão contou que ela chorou durante uma chamada de vídeo e pediu ajuda para deixar o relacionamento. O inquérito ainda cita episódios de violência física e psicológica. Na avaliação dos investigadores, o conjunto formado pelas anotações e pelos depoimentos aponta para um período de isolamento, controle e dependência emocional antes da morte.
A investigação também descartou a versão de suicídio apresentada inicialmente por João. A perícia, porém, concluiu que a morte de Fabíola era incompatível com essa hipótese. Para a Polícia Civil, João tentou simular o suicídio e esconder provas. Com a conclusão do inquérito, ele foi indiciado.
A defesa de João Jazbik Neto sustenta que o médico é inocente e afirma que os laudos periciais usados na acusação de feminicídio são “precários” e “amadores”, com interpretações que considera “distorcidas e fantasiosas”. O advogado José Belga Trad informou que contestará os exames no processo e ressaltou que o recebimento da denúncia não representa condenação. Também classificou manifestações antecipadas de culpa como prejulgamento e tentativa de justiçamento.
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