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Editorial

Eleições 2026: menos obras faraônicas, mais cuidado com as pessoas

Antes de inventar novas obras, governantes precisam cuidar daquilo que a população já pagou

Por José Cândido | 28/08/2026 06:04
Eleições 2026: menos obras faraônicas, mais cuidado com as pessoas
Parque dos Poderes concentra a administração estadual; desafio é fazer as decisões dos gabinetes chegarem às necessidades das ruas. (Foto Campo Grande News)

A boa administração pública talvez seja muito menos complicada do que a política costuma fazer parecer. Não é preciso reinventar a cidade a cada quatro anos, criar programas com nomes novos ou anunciar obras monumentais para convencer a população de que um governo trabalha. Muitas vezes, governar bem é simplesmente fazer o que precisa ser feito — e fazer bem.

RESUMO

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Boa administração pública exige menos inaugurações e mais manutenção do que já existe. Cuidar de ruas, escolas e postos de saúde, simplificar burocracias e ouvir a população são ações mais eficientes do que grandes obras sem continuidade. Governantes precisam circular pelos bairros, conhecer os problemas reais e lembrar que o dinheiro público vem do cidadão. Nas eleições, a população deve priorizar propostas concretas em vez de promessas grandiosas.

É cuidar do que já existe.

Uma rua asfaltada precisa de manutenção antes de virar uma sequência de buracos. Uma escola precisa ser conservada antes que o telhado desabe. Uma praça precisa de iluminação, limpeza e segurança. Um posto de saúde precisa de médicos, medicamentos e estrutura, mas também de algo que não aparece nas planilhas de orçamento: humanidade.

Quem chega a uma unidade de saúde geralmente não está ali porque deseja. Está com dor, preocupado, fragilizado ou acompanhando alguém que sofre. Um bom-dia, uma orientação paciente, um olhar carinhoso e um atendimento respeitoso não substituem médico nem medicamento, mas podem tornar aquele momento menos difícil.

Isso não custa milhões.

Custa disposição para compreender que serviço público existe para servir pessoas.

A simplicidade é uma ferramenta poderosa de administração.

Campo Grande conhece o preço de fazer justamente o contrário. Uma estrutura planejada originalmente para ser rodoviária atravessou mudanças de projeto, transformou-se na promessa de um Centro de Belas Artes e, depois de décadas, continua sem cumprir plenamente a finalidade prometida.

Concreto parado também é dinheiro público desperdiçado.

Cada obra abandonada representa impostos pagos por trabalhadores, empresários, comerciantes e consumidores. Recursos que poderiam estar financiando saúde, educação, manutenção urbana, segurança ou tantos outros serviços necessários.

Antes de anunciar uma nova obra, portanto, o governante deveria perguntar: estamos cuidando daquilo que já construímos?

O Brasil desenvolveu uma cultura política em que inaugurar parece valer mais do que conservar. Obra nova rende placa, fotografia, discurso e propaganda. Manutenção dificilmente rende cerimônia. Mas é justamente ela que impede que milhões investidos ontem precisem ser gastos novamente amanhã.

Administrar também deveria significar simplificar.

O cidadão não pode continuar peregrinando por repartições, preenchendo os mesmos dados várias vezes, enfrentando filas e tentando descobrir qual departamento resolve um problema simples. Tecnologia deveria existir para facilitar a vida de quem paga impostos, e não apenas para digitalizar antigas burocracias.

Mas nenhuma tecnologia substituirá outra mudança necessária: governantes precisam sair dos gabinetes.

Prefeitos, governadores, vereadores, deputados, senadores e demais agentes públicos deveriam circular mais pelos bairros, entrar nos postos de saúde, visitar escolas, conversar com comerciantes, ouvir trabalhadores, sentar com moradores e conhecer problemas sem a intermediação permanente de assessores.

Existe uma enorme diferença entre receber um relatório dizendo que determinada unidade funciona e chegar até ela como qualquer cidadão e descobrir como realmente funciona.

Quem governa precisa ouvir.

Ouvir a mãe esperando atendimento para o filho. O idoso tentando marcar uma consulta. O comerciante sufocado pela burocracia. O motorista enfrentando buracos diariamente. O professor que conhece as dificuldades da escola onde trabalha. O servidor que sabe exatamente onde um procedimento poderia ser simplificado.

São essas pessoas que conhecem os problemas cotidianos da administração pública.

As eleições deveriam servir também para discutir esse modelo de governo.

Em vez da competição para saber quem promete a maior obra, talvez seja hora de perguntar quem está disposto a cuidar melhor daquilo que já temos. Quem pretende reduzir burocracias. Quem vai combater desperdícios. Quem terá compromisso com honestidade e transparência. Quem entende que dinheiro público não nasce nos cofres do governo — sai do bolso da população.

Precisamos de menos faraonismo e mais eficiência. Menos solenidades e mais manutenção. Menos propaganda e mais resultado. Menos distância e mais presença.

E, principalmente, mais humanidade.

Um governo pode gastar bilhões e continuar distante das pessoas. Pode construir prédios enormes e oferecer atendimento ruim dentro deles. Pode comprar equipamentos modernos e manter cidadãos horas esperando sem informação.

Eficiência não pode ser medida apenas pelo tamanho do orçamento executado. Precisa ser percebida na vida das pessoas.

As eleições colocam novamente nas mãos do cidadão a possibilidade de escolher quem administrará seu dinheiro e os serviços dos quais ele depende.

É hora de olhar menos para promessas grandiosas e mais para propostas possíveis. De escolher pessoas capazes de administrar, ouvir e cuidar. E de lembrar aos eleitos que gabinete é local de trabalho, não esconderijo.

Governar não precisa ser uma permanente invenção.

Às vezes, a transformação que uma cidade, um Estado ou um país precisa começa pelo mais elementar: cuidar bem do que existe, tratar as pessoas com respeito e ouvir quem realmente precisa do poder público.