Golpes espalharam sangue e fragmentos ósseos de fisioterapeuta, aponta perícia
Perícia descartou suicídio e apontou que Fabíola Marcotti foi agredida, baleada e teve o corpo movido

Golpes contra a cabeça da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos, espalharam sangue e fragmentos ósseos pela suíte onde ela foi encontrada morta, na Chácara dos Poderes, em Campo Grande. A perícia também localizou fios de cabelo no cano e no tambor do revólver calibre .357 que estava sob o corpo. Para a PCMS (Polícia Civil de Mato Grosso do Sul), o conjunto dos vestígios descarta a versão inicial de suicídio e aponta que a vítima foi agredida, baleada e teve o corpo movimentado.
RESUMO
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As conclusões estão no relatório final assinado em 21 de agosto pela delegada Analu Lacerda Ferraz, do Sefem (Setor de Investigação de Feminicídios), da 1ª Deam (Primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).
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Fabíola foi encontrada morta no dia 18 de maio, no quarto que dividia com o médico João Jazbik Neto, de 78 anos. O caso foi comunicado inicialmente como possível suicídio. Segundo o relatório, porém, a posição do corpo, a trajetória do projétil, as manchas de sangue, as lesões e a movimentação de móveis revelaram uma cena incompatível com essa hipótese.
A reconstrução feita pela perita criminal Thayla Caroline de Arruda Venancio indica que Fabíola estava em pé quando recebeu o primeiro golpe na lateral direita da cabeça. Ela caiu de joelhos e depois foi golpeada mais de uma vez no lado esquerdo.
“A vítima estava em pé quando recebeu o primeiro golpe com instrumento contundente ou cortocontundente na lateral direita da cabeça, caiu primeiramente de joelhos sobre o piso, posteriormente na posição em que foi encontrada e recebeu mais de um golpe na lateral esquerda da cabeça, formando as manchas de sangue observadas na parede de frente para o sofá e na porta de entrada da suíte e deixando os fragmentos ósseos pela sala”, descreve o laudo reproduzido no relatório.
Ainda conforme a reconstrução, depois das agressões, “a cabeça da vítima foi levemente levantada e um disparo de arma de fogo foi realizado, com entrada na lateral esquerda e saída na lateral direita, ocasionando a impactação do projétil no quadro”.
O projétil atravessou a cabeça de Fabíola e ficou alojado em um quadro na parede. Exame balístico concluiu que ele foi disparado pelo revólver Smith & Wesson calibre .357 encontrado debaixo do corpo.
Corpo foi movimentado - As manchas na face e no pescoço apresentavam escorrimento em direção à parte superior do corpo. Para a perícia, isso indica que, após o sangramento, a cabeça ficou em nível mais baixo que o restante do corpo. Ou seja, Fabíola teria sido movimentada depois de morta.
Nas paredes, os peritos identificaram manchas do tipo cast-off, produzidas quando o sangue é lançado pelo movimento de um objeto durante agressões. O padrão foi considerado indicativo de vários golpes.
A perícia também contrariou a versão de suicídio. Conforme o relatório, o conjunto dos vestígios não seria compatível com essa hipótese.
Outro vestígio chamou a atenção: havia fios de cabelo na extremidade do cano e dentro do compartimento do tambor do revólver. A perícia classificou essa localização como incomum em disparos encostados. “Para que os fios se encontrem neste local, faz-se necessário que, no momento do disparo, o cabelo ou fios soltos dele estejam próximos ao tambor, para que, ao girar, prenda algum fio naquele local, evidenciando uma manipulação atípica da arma”, registra o relatório.
Sem sinais de tiro encostado – O exame necroscópico, realizado pela médica-legista Priscilla Alexandrino de Oliveira, estabeleceu como causa da morte traumatismo cranioencefálico provocado por projétil de arma de fogo. A análise, contudo, não encontrou marcas esperadas em um disparo encostado ou feito a curta distância.
“Observamos os cabelos em perfeito estado, sem nenhum chamuscamento. Procedemos a raspagem do local da entrada do projétil, onde não foi observado zona de tatuagem, orla de enxugo ou escoriação, descartando a hipótese de tiro encostado ou de curta distância”, diz o laudo necroscópico citado no documento.
Para a delegada, as duas análises técnicas chegaram ao mesmo resultado. “Ambos os laudos periciais, do local do crime e o necroscópico, convergem para a mesma conclusão: a vítima não cometeu suicídio, sendo vítima de um homicídio qualificado, configurado como feminicídio, nos termos do art. 121-A do Código Penal.”
A perícia também encontrou resíduos característicos de disparo de arma de fogo na mão direita de João. O resultado indica, segundo o relatório, que ele efetuou um tiro ou manuseou recentemente uma arma.
Armário retirado – O inquérito afirma que dois homens retiraram do quarto, a pedido de João, um armário com armas e munições antes da chegada da polícia e da perícia. O móvel foi escondido em outra construção da propriedade. Exame genético encontrou sangue de Fabíola no armário, reforçando a conclusão de que ele estava no ambiente durante as agressões.
As buscas localizaram outras armas, entre elas um fuzil calibre 7,62, carabinas e espingardas, além de centenas de munições.
Situação processual – João foi indiciado por feminicídio, fraude processual, violência psicológica contra a mulher, posse irregular de arma de fogo de uso permitido e posse ilegal de arma de uso restrito. Indiciamento é a conclusão da autoridade policial de que existem indícios de autoria e prova da ocorrência dos crimes.
Depois disso, houve a denúncia apresentada pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), que foi recebida pelo juiz Aluízio Pereira dos Santos, da 2ª Vara do Tribunal do Júri, transformando o médico em réu pelos crimes descritos desde o indiciamento.
A defesa de João Jazbik Neto sustenta que o médico é inocente e afirma que os laudos periciais usados na acusação de feminicídio são “precários” e “amadores”, com interpretações que considera “distorcidas e fantasiosas”. O advogado José Belga Trad anunciou que contestará os exames no processo e argumentou que o recebimento da denúncia não representa condenação, classificando manifestações antecipadas de culpa como prejulgamento e tentativa de justiçamento.
Em resposta, a família de Fabíola Marcotti reconheceu que a defesa tem direito de questionar as provas, mas afirmou que desqualificar a delegada, as peritas e as promotoras envolvidas ultrapassa os limites da atuação jurídica. Representada pelo assistente de acusação Márcio Leonardo Almeida das Virgens, a família defendeu a capacidade técnica das profissionais, declarou confiança nas instituições responsáveis pela investigação e ressaltou que o avanço do processo não significa condenação antecipada, mas também impede que a apuração seja reduzida a uma “fantasia”.





