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Campo Grande, Quinta-feira, 19 de Abril de 2018

26/03/2018 15:58

Fraude em manutenção provocou acidentes aéreos com 3 mortes em MS

A causa dos acidentes foi investigada pela Deco, durante a Operação Ícaro, deflagrada em pela primeira vez em setembro de 2015.

Geisy Garnes
Durante as investigações a polícia descobriu que três acidentes aconteceram por falhas em peças modificadas irregularmente (Foto: Arquivo)Durante as investigações a polícia descobriu que três acidentes aconteceram por falhas em peças modificadas irregularmente (Foto: Arquivo)

Durante as investigações da Operação Ícaro, a Polícia Civil descobriu que acidentes com três aviões em Mato Grosso do Sul aconteceram por falhas em peças modificadas irregularmente ou reutilizadas em aeronaves que passaram por manutenção em oficinas no Estado. Dois destes desastres aéreros tiveram mortes.

Em dezembro de 2014 a aeronave Cesna 206 caiu na região de Jaraguari, matando o advogado Marco Túlio Murano Garcia e o piloto Genêse Pereira, de 44 e 55 anos. No dia 24 de maio de 2015, o monomotor modelo Turbo Hélio Carajá, transportava os apresentadores Luciano Huck e Angélica, os filhos e duas babá, e precisou fazer um pouso forçado em uma fazenda próxima a rodovia MS-080. Pouco mais de um ano depois, Marcos David Xavier morreu após o avião que pilotava cair na região do Pantanal sul-mato-grossense.

Após meses de investigação, os três acidentes acabaram unidos por um único motivo: o erro na manutenção da aeronaves. Foi durante a Operação Ícaro, realizada desde 2015 pela Deco (Delegacia Especializada de Repressão do Crime Organizado), que as falhas começaram a ser desvendadas.

Nas empresas responsáveis pelas aeronaves, a investigação encontrou irregularidades que iam desde a omissão de horas de voo e pequenos acidente nas cadernetas de bordo, até peças instaladas erradas e reaproveitadas de maneira ilegal.

O avião em que o advogado estava ficou completamente destruído com a queda (Foto: Arquivo) O avião em que o advogado estava ficou completamente destruído com a queda (Foto: Arquivo)

Marco Túlio - No dia 6 de dezembro de 2014, Marco Túlio e o piloto Genêse Pereira deixaram o aeroporto de Santa Maria em Campo Grande com destino a fazenda do advogado em Aquidauana. Logo após a decolagem, a aeronave em que estavam perdeu altitude e caiu em uma área de difícil acesso da fazenda Botas, em Jaraguari - a 44 quilômetros da Capital, matando os dois passageiros.

Meses depois, a perícia descobriu que a causa da queda estava na asa da aeronave, fruto de uma manutenção clandestina. Em 2005, o monomotor sofreu um acidente, com as asas destruídas foi vendido e concertado. No entanto, a manutenção foi feita na empresa Hora (Hangar, Oficina e Recuperação de Aviões) com uma peça “artesanal”, que emendou as partes danificadas, para baratear o serviço.

Durante os poucos minutos de voo daquele 6 de dezembro, essa mesma asa se soltou. Gênesis perdeu o controle do avião que caiu de bico em um dos pastos da fazenda Botas.

Ao Campo Grande News, a delegada responsável pela Deco, Ana Cláudia Medina explicou que o primeiro crime neste caso foi em 2005, quando o primeiro acidente aconteceu e sequer foi registrado na caderneta de bordo.

Com a perícia constatando a causa do acidente, as investigações agora tentam esclarecer quem foi o responsável pela manutenção, já que há indícios de que o profissional não era habilitado para o serviço. “Vamos ouvir novamente os profissionais envolvidos na manutenção e até o proprietário da oficina onde isso aconteceu”, detalhou a delegada.

Família global foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros e lavada para a Santa Casa (Foto: Fernando Antunes)Família global foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros e lavada para a Santa Casa (Foto: Fernando Antunes)
A aeronave fez o pouso de emergência em uma fazenda na MS-080 (Foto: Fernando Antunes) A aeronave fez o pouso de emergência em uma fazenda na MS-080 (Foto: Fernando Antunes)

Luciano Huck e Angélica - A aeronave modelo Turbo Hélio Carajá trazia a Campo Grande os apresentadores Luciano Huck e Angélica, seus filhos e duas babás, quando no fim da manhã do dia 24 de maio de 2015, precisou fazer um pouso forçado numa fazenda próxima a rodovia MS-080 em decorrência de uma pane seca, ou seja, a falta de combustível em uma das asas.

Os nove passageiros deixaram a Estância Caiman, em Miranda, e estavam a poucos quilômetros da Capital quando, segundo a FAB (Força Aérea Brasileira), uma luz amarela indicou que havia uma pane na bomba de combustível.

Na época, foi divulgado que o piloto mudou a bomba de combustível, mas o problema persistiu. O avião começou a perder velocidade e altura rapidamente, então, para não se chocar contra morros que estava mais a frente, o piloto decidiu pousar na Fazenda Palmeira, na rodovia MS-080.

Foi só com a perícia na aeronave que a polícia descobriu que o liquidômetro - o marcador de quantidade de combustível em cada asa - estava instalado de forma errada. Na prática, mesmo com o combustível zerado em uma das asas, o marcador apontava que havia o suficiente para o voo.

Em depoimentos, os responsáveis pela aeronave afirmaram que o problema veio de fábrica, mas para a polícia, o erro pode ter acontecido durante uma manutenção clandestina, que não foi informada ao órgão fiscalizador.

Marcos Xavier era piloto da empresa MS Táxi Aéreo (Foto: Reprodução Facebook)Marcos Xavier era piloto da empresa MS Táxi Aéreo (Foto: Reprodução Facebook)

Marcos David Xavier - Assim como o piloto Osmar Frattini - responsável pelo pouso forçado do avião em que os apresentadores Luciano Huck e Angélica estavam - Marcos David Xavier, morto na queda de uma aeronave em setembro de 2016, trabalhava na empresa MS Táxi Aéreo.

Na época com 34 anos, o piloto saiu de Campo Grande com destino a Miranda, para deixar uma família de turistas no Pantanal. Os passageiros desembarcaram e na volta o avião de prefixo PT-VKY, modelo Embraer EMD-810 Sêneca III, caiu em uma área de difícil acesso da fazenda.

Os destroços da aeronave ficaram espalhadas na região e o corpo de piloto só foram encontrados no dia seguinte ao acidente. De acordo com a delegada Medina, os laudos periciais apontaram que a queda aconteceu depois que os cabos de comando do avião travaram. Com isso, Xavier perdeu o comando da aeronave, que foi se “desfazendo” no ar.

“Constatamos que houve um acidente anterior com essa mesma aeronave e a manutenção foi feita sem controle específico. No caso dos cabos, pode ser que haja lançamentos de manutenção sem ela ter sido de fato realizada. As investigações estão caminhando para apurar o que gerou esse travamento dos cabos”, explicou a delegada.

A polícia ainda apurou que Xavier atuava pela MS Táxi Aéreo, que na data estava bloqueada e proibida de funcionar. O bimotor estava no nome de uma das sócias da empresa, que alegou que o piloto não estava trabalhando para eles no momento do acidente, situação desmentida nas investigações.

“Os passageiros confirmaram que contrataram a MS Táxi Aéreo, que não conheciam o piloto, ou a dona da aeronave. Isso configura crime de estelionato e táxi aéreo clandestino”, reforçou Medina.

Procurada, a empresa informou, por meio do advogado de defesa, José Belga Trad, que como corre em segredo de justiça, só vai se manifestar em juízo.

Em dezembro do ano passado a Deco apreendeu o avião que transportou a família Huck no pátio de uma oficina clandestina (Foto: André Bittar)Em dezembro do ano passado a Deco apreendeu o avião que transportou a família Huck no pátio de uma oficina clandestina (Foto: André Bittar)

Operação Ícaro - Com objetivo de apurar as causas de acidentes em Mato Grosso do Sul, a Deco deflagrou a Operação Ícaro em setembro de 2015. Na época foram 20 policiais e dois fiscais da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), para cumprir seis mandados de busca e apreensão, em residências, oficina aeronáutica e no hangar do aeroporto Santa Maria.

Peças e uma aeronave foram apreendidas naquele mês, mas a operação continuou por dois anos e desmantelou um esquema que “importava” peças ilegais para outros seis estados brasileiros. “Foram 46 aeronaves apreendidas em seis estados”, contou Medina.

Durante cada fase da operação, novas irregularidades foram descobertas. Aviões alterados para o transporte de drogas levavam também tanques de combustível extras e eram abastecidos ainda em voo. Cadernetas “paralelas” preenchidas com os problemas apresentados nas aeronaves, que eram omitidos na verdadeira caderneta, reconhecida pela Anac, foram apreendidas nas ações.

Acidentes não notificados, manutenções irregulares, peças danificadas ou já sem funcionamento, foram encontradas em aeronaves. Na última operação realizada, em fevereiro deste ano, um transmissor localizador de emergência, que em casos de acidente serve como um rastreador, instalado em um dos aviões mostrava um selo, assinado por um profissional homologado, afirmando estar no prazo de validade.

No enquanto, a data de fábrica deixava claro que a bateria já havia acabado, mas ainda assim a peça foi reinstalada. “A grande missão da Operação Ícaro, desde 2015, é garantir a segurança aérea. Porque não há nada mais importante que a vida”, definiu a delegada Medina.

Primeira fase da Operação Ícaro aconteceu em setembro de 2015 (Foto: Marcos Ermínio)Primeira fase da Operação Ícaro aconteceu em setembro de 2015 (Foto: Marcos Ermínio)


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