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Campo Grande, Domingo, 18 de Agosto de 2019

13/12/2018 07:39

Na cidade de lona da MS-382, barracos viram “lar” apenas no fim de semana

Nos acampamentos que se espalham por MS, é corriqueira a explicação de que é preciso ter um barraco de pé para pleitear um lote de terra

Aline dos Santos e Liniker Ribeiro
Acampamento fica perto da divisa de Bonito com Guia Lopes da Laguna, na MS-382. (Foto: Kisie Ainoã)Acampamento fica perto da divisa de Bonito com Guia Lopes da Laguna, na MS-382. (Foto: Kisie Ainoã)

Na MS-382, em Guia Lopes da Laguna, quase divisa com Bonito, Charles Augusto Godoi, 47 anos, é o primeiro e um dos poucos moradores a ser avistado no acampamento 8 de Março, do MPL (Movimento Popular de Luta). Apesar de seus 400 barracos, a cidade de lona, erguida há nove meses, só vira “lar” da maioria aos finais de semana. Nos demais dias, o cenário é de acampamento quase fantasma.

“Se todo mundo morasse aqui, era bom. Mas hoje não consegue mais morar, o governo não dá devida assistência para as famílias”, afirma o coordenador Antônio Carlos dos Santos. Segundo ele, como é imperativo trabalhar os barracos são ocupados paras a reuniões aos fins de semana. “Somos escravos para os outros”.

Nos acampamentos que se espalham por Mato Grosso do Sul, é corriqueira a explicação de que é preciso ter um barraco de pé para pleitear um lote de terra da reforma agrária. A exigência é atribuída ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Que, por sua vez, nega tal solicitação. Mas pelas beiras de estradas, ganha se projeta a afirmação de Antônio Carlos. “Tem que ter o barraquinho”.

“Se todo mundo morasse aqui, era bom. Mas hoje não consegue mais morar, o governo não dá devida assistência para as famílias, diz Antônio Carlos. (Foto: Kisie Ainoã)"“Se todo mundo morasse aqui, era bom. Mas hoje não consegue mais morar, o governo não dá devida assistência para as famílias", diz Antônio Carlos. (Foto: Kisie Ainoã)

No barraco onde mora Charles, egresso do acampamento Zumbi dos Palmares, em Campo Grande, a distração é o rádio de pilha, cujos sons se confundem com o ruído dos veículos, que passam em velocidade espantosa mesmo num trecho de curva. A água vem de um poço artesiano e, por enquanto, a luz é a de velas. O gerador estragou e foi para o conserto.

Em frente ao barraco de Ari Martins Cardoso, 60 anos, se espalham ramas de mandioca. Já a comida é preparada num forno a lenha. Morador de Bonito, ele conta que está se adaptando por ser a primeira vez que vive em um acampamento.

O dado oficial do MPL é de 600 famílias no acampamento, sendo 35 famílias residentes. A expectativa é a destinação de quatro a seis áreas, nos municípios de Guia Lopes e Bonito, para a reforma agrária. “Não viemos à toa”, afirma Antônio Carlos.

Contudo, os números do Incra não são favoráveis para quem espera um lote. Desde junho de 2010 não foi assentada nenhuma família em MS. Sobre a retomada dos assentamentos, a resposta de Brasília é tida como "imprevisível".

Na região de Guia Lopes, Jardim e Bodoquena algumas áreas foram vistoriadas. Em Bonito, os procedimentos dependem do setor ambiental. Sobre ter um barraco para se cadastrar na reforma agrária, o Incra informa que o cadastro pode ser feito direto no instituto e que nunca fez essa exigência.

Ari  improvisou fogão: pela primeira vez vive em acampamento. (Foto: Kisie Ainoã)Ari improvisou fogão: pela primeira vez vive em acampamento. (Foto: Kisie Ainoã)

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