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Política

Boulos defende Exército e integração para conter avanço das facções em MS

“Fronteira não se protege com improviso. É inteligência, drones e satélites”, diz ministro

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 04/02/2026 11:23
Boulos defende Exército e integração para conter avanço das facções em MS
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (Foto: Reprodução EBC)

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, desembarca nesta quinta-feira (5) em Campo Grande carregando na bagagem uma série de ações sociais voltadas às periferias urbanas, por meio do programa Governo do Brasil na Rua, e a defesa do fim da escala 6x1, tema que o governo federal pretende colocar no centro da agenda nacional.

RESUMO

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O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, chega a Campo Grande para apresentar ações sociais do programa Governo do Brasil na Rua. A iniciativa reúne 11 ministérios e visa facilitar o acesso da população a benefícios sociais, especialmente nas periferias. Durante entrevista, Boulos defendeu a integração entre forças federais, estaduais e Forças Armadas no combate às facções criminosas que operam na fronteira de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia. O ministro também abordou temas como a eleição de 2026 e o caso Banco Master, enfatizando a importância do combate ao crime organizado.

Em Brasília, ele recebeu com exclusividade o Campo Grande News. O ministro destaca os efeitos sociais da iniciativa, avalia que a eleição de 2026 tende a ser tão dura e polarizada quanto a de 2022, afirma que o caso Banco Master alcança “o andar de cima do crime organizado” — “quem deve, que pague” — e defende a integração entre forças federais e estaduais no combate às facções que operam na fronteira de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia, um dos principais corredores de drogas e armas do país. Segundo ele, esse esforço deve envolver também as Forças Armadas mas, sem improvisações, priorizar a inteligência. Veja a entrevista:

O que é o programa Governo do Brasil na Rua, ministro?
O Governo do Brasil na Rua reúne 11 ministérios, além do Sesi, Sebrae e Caixa Econômica Federal. A proposta é levar os programas sociais do governo Lula a todas as regiões do país, especialmente às periferias, onde muitas vezes as pessoas têm dificuldade de acessar um benefício ou sequer sabem que têm direito a ele. Em muitos casos, o cadastro é digital, feito pelo celular, e ainda há uma exclusão digital enorme em várias regiões, além da burocracia.

Quando o presidente Lula pediu a criação do programa, a ideia foi simples: tirar a burocracia da frente e falar direto com as pessoas. Há casos de famílias com filhos que têm direito ao Pé-de-Meia, mas não fizeram ou não atualizaram o cadastro. O MEC vai lá e resolve. Pessoas que poderiam acessar o Minha Casa Minha Vida ou o Reforma Casa Brasil passam a ter esse atendimento com a carreta da Caixa.
Há também o atendimento do INSS. A fila da perícia é um pesadelo para muita gente — às vezes são meses ou mais de um ano de espera. Estamos fazendo mutirões de perícia e atendimento. Na semana passada, no Amapá, uma senhora teve o BPC da filha, com autismo severo, cortado por falta de atualização cadastral. Ela foi ao Governo do Brasil na Rua, refez o cadastro, passou por nova perícia e saiu com o benefício restabelecido.
 O objetivo é esse: fazer o programa social e o direito chegarem às pessoas. Essa é a essência da Feira da Cidadania.

Pela experiência acumulada até aqui, o programa pode se tornar permanente?

A principal herança é construir uma nova relação entre o governo e o povo. Muitas pessoas veem o governo como algo distante, restrito a Brasília. A orientação do presidente Lula é levar o governo até as pessoas, mostrar que ele tem lado e é feito para elas.
Isso tem um efeito pedagógico enorme: a população percebe que o direito está ali, no bairro, na comunidade, e não depende de alguém aparecer em época de eleição prometendo resolver um problema em troca de voto. Direito não é favor.

O que do programa dialoga diretamente com as necessidades de Mato Grosso do Sul?

Os problemas das periferias urbanas brasileiras são muito parecidos, embora cada região tenha suas especificidades. Mato Grosso do Sul tem um agro forte, e por isso programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), voltado à agricultura familiar, são fundamentais. Há crédito, assistência técnica e políticas públicas que dialogam diretamente com os pequenos agricultores.

Além disso, as demandas são muito semelhantes: regularização de benefícios, atendimento do INSS, acesso à saúde. Um exemplo é a odontologia. O atendimento privado é caro, e desde o primeiro mandato Lula criou o Brasil Sorridente. Hoje, isso se traduz nas Unidades Odontológicas Móveis — vans equipadas como consultórios modernos, com a mesma tecnologia de um bom consultório de classe média. Isso vale para Campo Grande, Curitiba, Recife ou qualquer periferia do país.

Vamos falar um pouco de política. O PSOL lançou pré-candidaturas ao governo e ao Senado. Diante do perfil conservador do eleitorado, não seria mais adequado um esforço de composição entre as forças de esquerda?

Quero lembrar que Mato Grosso do Sul já foi governado por Zeca do PT. A sociedade vive ciclos: há momentos mais conservadores, outros mais progressistas. Isso é próprio da dinâmica política.

Acredito que há espaço para a disputa de ideias progressistas no Estado. Quanto às definições partidárias, falo como ministro, afastado do debate eleitoral local. Os partidos têm autonomia para construir suas estratégias, e não me sinto à vontade para opinar sobre a tática específica do PSOL no Estado.

Na sua avaliação, por que a direita domina o Centro-Oeste? A esquerda menosprezou a região?

Construiu-se uma aproximação entre o agro e a extrema direita, visível no Centro-Oeste, no interior de São Paulo e em estados do Sul. Mas essa aproximação é, em grande parte, falsa. Há uma confusão deliberada entre o grande agroexportador e o pequeno agricultor.
O grande agro, que exporta soja, milho, cana e tem representação forte no Congresso, se aproximou da direita para defender privilégios. O pequeno agricultor não se beneficia disso. Mesmo assim, acabou sendo levado por esse discurso.

Queremos fazer um debate objetivo: quem fez mais pela agricultura familiar? Lula ou Bolsonaro? O governo anterior acabou com o PAA. O Lula retomou o programa, fez o maior Plano Safra da história, reduziu juros e apoiou o pequeno produtor. Mas a desinformação é pesada, e o pequeno agricultor muitas vezes acaba defendendo interesses que não são os dele.

Mato Grosso do Sul pode se tornar um ponto central de confronto entre direita e esquerda?

 Acho que sim. O Estado tem hoje uma liderança importante, a ministra Simone Tebet, que estará comigo em Campo Grande na quinta-feira, durante a Feira da Cidadania. Pela manhã, ela participa de uma agenda com o ministro Renan Filho no interior, e à tarde deve se juntar a nós. Estamos alinhando os horários para que ela participe do evento.

Em que posição Simone Tebet deve jogar na eleição de 2026?

O cenário do Senado ainda está indefinido. Há a possibilidade de candidatura por Mato Grosso do Sul e até especulações sobre outros cenários. Isso deve ser definido até abril.

Qual será o seu papel na política em 2026?

Meu papel é ajudar na reeleição do presidente Lula.

O senhor não será candidato?

Assumi o compromisso de ajudar o presidente no governo e na campanha. Vou participar da coordenação de campanha e seguir com iniciativas como o Governo do Brasil na Rua, aprofundando o diálogo com periferias, movimentos sociais e a sociedade organizada.

Como isso se traduz no dia a dia do ministério?

Tenho feito quatro ou cinco audiências por dia com movimentos sociais. Já recebi mais de 70 segmentos: produtoras de cacau da Bahia, entregadores de aplicativo, motoristas de Uber, catadores, metalúrgicos, carteiros, movimentos da saúde mental, transporte, moradia, agricultura familiar.

O papel que o presidente me pediu é esse: ouvir, rodar o Brasil e garantir que as demandas do povo cheguem ao governo. E, quando necessário, comprar briga para garantir direitos. Quem elegeu o Lula foi o povo, e esse povo precisa ser ouvido.

O que diferencia a eleição de 2026 das anteriores?

Será uma eleição dura, como em 2022. O Brasil e o mundo estão polarizados. Há uma extrema direita autoritária, que flerta com golpes, nega vacinas e direitos humanos, e um campo progressista. Essa polarização é global e vai se repetir aqui.

A segurança pública será um dos temas centrais da campanha?

Sem dúvida. A direita grita muito sobre segurança, mas fez pouco. O presidente Lula foi o primeiro, desde a redemocratização, a enviar ao Congresso uma PEC da segurança pública para ampliar a atuação federal. E os governadores de direita reagiram dizendo que eram contra.

Se estão dando conta sozinhos, por que a violência segue alta? Lula teve coragem de enfrentar o problema estruturalmente, inclusive atacando o crime financeiro que sustenta o tráfico, como na Operação Carbono Oculto.

O Congresso está maduro para o fim da escala 6x1?

Acredito que sim. Vou levar esse debate a Campo Grande. O presidente vai enviar um projeto de lei em regime de urgência para reduzir a jornada para 40 horas semanais, sem redução de salário. Vamos ver como cada parlamentar vai votar: se ao lado dos trabalhadores ou dos privilegiados.

O caso Banco Master pode alcançar o topo do crime organizado financeiro?

Quem deve, que pague. A Polícia Federal tem autonomia para investigar banqueiros ou qualquer outro. Diferente do governo anterior, que tentou interferir em investigações, hoje a PF atua com independência. A lei deve valer tanto para quem está na periferia quanto para quem está no andar de cima.

As drogas e armas que abastecem facções entram pela fronteira com Paraguai e Bolívia. Não é hora de integrar as forças num plano nacional de segurança?

É exatamente essa a perspectiva do presidente. Segurança exige inteligência, tecnologia, monitoramento por drones e satélites, integração entre Polícia Federal, Forças Armadas e polícias estaduais. Não se faz isso com improviso nem com disputa partidária.

Qual deve ser o papel do Exército nesse esforço?

O Exército é essencial, especialmente na Amazônia. A Marinha tem papel central nas fronteiras marítimas. A Polícia Federal atua como polícia de inteligência no combate ao crime organizado. O que não pode é governador se recusar a cooperar por birra política. O governo Lula tem sido republicano, investindo mesmo em estados governados pela oposição.

O governo apoia a proposta do senador Alessandro Vieira de criar uma contribuição para financiar o combate ao crime organizado? 

Esse debate está em curso. O que nos chocou foi o relatório do Derrite (deputado Guilherme Derrite) apresentado na Câmara que praticamente blindava facções e limitava a atuação da Polícia Federal. Isso é inaceitável. A legislação precisa estar alinhada com o sentimento da sociedade: combater o crime organizado de verdade, sem passar pano na cabeça dos amiguinhos.