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Campo Grande, Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

22/08/2015 11:47

Treminhões, buracos e riscos: perigo e paciência marcam a BR-262

A presença maciça dos caminhões se soma aos perigos de uma via praticamente sem acostamento e com turbulência garantida pelos buracos

Aline dos Santos, enviada especial a Três Lagoas
Rodovia é dominada por treminhões, que têm até 30 metros de extensão. (Foto: Vanessa Tamires)Rodovia é dominada por treminhões, que têm até 30 metros de extensão. (Foto: Vanessa Tamires)

Os 338 quilômetros da BR-262 entre Campo Grande e Três Lagoas podem ser definidos em uma palavra: treminhão. Por trás dessas nove letras está um veículo articulado, com quase 30 metros de extensão e 44 toneladas. A presença maciça dos caminhões se soma aos perigos de uma via praticamente sem acostamento e com turbulência garantida pelos buracos.

Enquanto os “brutos” tomam a estrada, levando a matéria-prima que alimenta um dos mais rentáveis setor econômico de Mato Grosso do Sul, resta aos demais condutores muita paciência. A celulose é o segundo produto mais exportado do Estado e nos primeiros setes meses do ano movimentou US$ 583,7 milhões, que representa 20% do total vendido ao exterior por MS.

Numa manhã de quinta-feira, dia 20, a reportagem se deparou com 106 caminhões destinados ao transporte de eucaliptos. Mas há quem já teve viagem mais morosa. O empresário Valmir Guarinão contou exatos 170 treminhões em 300 km entre Três Lagoas e a Capital.

“As autoridades têm de nos proteger, corremos riscos absurdos de segurança...Já que foi investido bilhões, concedidos incentivos de outros bilhões, porque não previram a construção de uma estrada melhor e adequada?”, questiona Valmir em postagem no Facebook.

Como o carro é bem mais pequeno tem que ter paciência e esperar, diz Silvana sobre treminhões.  (Foto: Vanessa Tamires)"Como o carro é bem mais pequeno tem que ter paciência e esperar", diz Silvana sobre treminhões. (Foto: Vanessa Tamires)
Marco reclama que rodovia esburacada prolonga viagem. (Foto: Vanessa Tamires)Marco reclama que rodovia esburacada prolonga viagem. (Foto: Vanessa Tamires)
“Na verdade, são os caminhões que movimentam a cidade”, afirma Marciléia sobre a economia de Rio Pardo. (Foto: Vanessa Tamires)“Na verdade, são os caminhões que movimentam a cidade”, afirma Marciléia sobre a economia de Rio Pardo. (Foto: Vanessa Tamires)

Os veículos seguem carregados em direção a Três Lagoas, a Capital da Celulose, e voltam vazios no caminho oposto. Em geral, as manhãs são marcadas por mais treminhões sem carga, à tarde, aumenta o número de veículos carregados. No trecho entre Água Clara e Três Lagoas, os treminhões têm direito a circular dia e noite pela BR-262.

“É difícil, atrapalha o trânsito. Tem muito caminhão. Tinha que duplicar. As vezes junta mais de meia dúzia”, conta o professor Roberto Luiz Silva, 54 anos, que seguia de Campo Grande a Três Lagoas. Vindo de Dracena, no interior de São Paulo, a produtora Silvana Bazo, 51 anos, já é mais habituada aos grandes veículos, muito utilizado no Estado vizinho para transporte de cana, mas se espanta com a quantidade de buracos. “Têm pedaços de asfalto bem ruim. Como o carro é bem mais pequeno tem que ter paciência e esperar”, afirma, sobre compartilhar a pista com veículos longos.

Estreando no transporte do eucalipto, mas com experiência em dirigir treminhão para o transporte de cana no interior paulista, o caminhoneiro Marcos Veiga, 37 anos, diz que a estratégia para reduzir a tensão com o motorista de carro pequeno é sinalizar quando a ultrapassagem é segura. Segundo ele, a pista defeituosa faz com que a velocidade seja reduzida de 80km/h para 65 km/h, o que torna a viagem mais demorada.

O frentista Thiago Evangelista da Silva, 19 anos, conta que todo o dia pega a rodovia até Ribas do Rio Pardo e reclama. É mais perigoso por causa dos caminhões. Além do tráfego muito intenso. Às veze cai eucalipto na BR”, afirma.

Em Ribas do Rio Pardo, a 103 km da Capital e primeira cidade para quem segue no sentido a Três Lagoas, os treminhões estão por todos os lados no perímetro urbano às margens da rodovia. O cenário é representativo da força econômica do eucalipto na região, que se expande na vegetação que era Cerrado.

“Na verdade, são os caminhões que movimentam a cidade”, afirma a universitária Marciléia Garcia, 31 anos. O município terá uma indústria e a vinda de empresas do setor, além de plantação de eucalipto, torna a escultura de boi na entrada da cidade obsoleta. “Veio muita gente de fora, muita gente do Nordeste”, conta.

Os veículos também atravessam, junto com a rodovia, áreas urbanas de Água Clara e Três Lagoas. De acordo com a prefeita de Três Lagoas, Márcia Moura (PMDB), os treminhões não entram nas ruas da cidade.

“É BR e não legislamos por ali. Não vou utilizar ali porque o governo federal está deixando de me mandar verba, embora seja segurança. Mas ainda vou colocar mais dinheiro para o governo federal? O que eu faço, coloco no estadual então, que tem sido muto mais parceiro do que o governo federal. Mas isso não deixa de fazer com o que eu vá atrás”, explica a prefeita sobre a decisão de não utilizar valor mitigatório, repassado pelas empresas para redução de impactos, para o trecho da rodovia que corta a cidade.

Segundo ela, a PRF (Polícia Rodoviária Federal) quer repassar o trecho para o município. “A PRF está doida para me passar esse pedaço aqui. Estamos em contato, mas eu sou parceira e acho que temos que sentar e ponderar as situações”, salienta.

Carros dividem espaço com treminhão. (Foto: Vanessa Tamires)Carros dividem espaço com treminhão. (Foto: Vanessa Tamires)
Placa alerta para perigo na BR-262. (Foto: Vanessa Tamires)Placa alerta para perigo na BR-262. (Foto: Vanessa Tamires)
Treminhão circula em rodovia sem proteção traseira. (Foto: Vanessa Tamires)Treminhão circula em rodovia sem proteção traseira. (Foto: Vanessa Tamires)
Supervisor do Dnit em Três Lagoas explica regras para circulação de treminhões. (Foto: Vanessa Tamires)Supervisor do Dnit em Três Lagoas explica regras para circulação de treminhões. (Foto: Vanessa Tamires)

Riscos, buracos e defeitos - A reportagem viu um caminhão com eucalipto sem a proteção traseira, ou seja, preso somente por corrente. Ainda no trajeto, havia um treminhão tombado a 70 quilômetros de Três Lagoas.

O acidente foi na madrugada do dia 20 de agosto e não houve ferido. A carga se espalhou e no meio da manhã a PRF (Polícia Rodoviária Federal) aguardava que a Eldorado Celulose enviasse máquina para recolher as toras. Atualmente, a Eldorado que vai aumentar a produção, possui 172 caminhões para o transporte de madeira e celulose.

Com mais da metade da rodovia interditada, o policial Edvaldo Santos alerta que os condutores evitem viagem às noite devido ao fluxo intenso e manutenção precária.

O pior trecho em termos de trafegabilidade é entre Água Clara e Três Lagoas. Placas sucessivas ora informam acostamento com defeito em 123 km ou informam, por exemplo, 41 km se acostamento. Outros avisos é de pista com defeito e orientação para que não se exceda 60 km. A via tem desgastes e buracos.

Quando existe, o acostamento também apresenta péssimas condições. O espaço ao lado da pista de rolamento foi planejado para uso, basicamente, em três situações: desviar de risco iminente de acidente, pane ou ocupante do veículo passando mal.

Terra com lei – Apesar das reclamações dos motoristas, o supervisor da unidade do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte) de Três Lagoas, Milton Rocha Marinho, afirma que há um termo de acordo com a Fibria e Eldorado.

“Eles são autorizados especialmente, que são as chamadas AETs, as Autorizações Especiais de Trânsito. Essas AETs são expedidas conforme você tem a via, a classe da rodovia. No caso de Três Lagoas, até porque as duas fábricas são daqui, de algum lugar tem que vir a madeira. O que nós fizemos, regulamentamos junto as empresas um termos com quantidade de veículos por horário”, diz Marinho.

De acordo com ele, são permitidos nove veículos por hora e os treminhões não podem formar comboio. O cálculo dos nove considera que seria um veículo a cada 15 quilômetros, lembrando que o trecho tem 140 km. “Temos que fazer um controle, dentro do meu cálculo, no segmento de 140 km que eles fazem, para manter a distância de um veículo para outro. Não sacrificando o meu usuário. Se bem que não vai ocorrer esses 15 quilômetros religiosamente”, admite.

Em caso do descumprimento das regras, os treminhões perdem a AET. Desta forma, as empresas têm que desviar os veículos para outras rodovias como a MS-112, que já absorve parte do excedente, e interior de São Paulo. O Dnit liberou o tráfego dos treminhões dia e noite. A AET é paga anualmente por veículo. De acordo com o site do Dnit, a AET custa R$ 14,04.

Na viagem, em apenas uma ocasião havia treminhões “colados”. Mas, bastam um treminhão, um caminhão bitrem e um caminhão-baú, por exemplo, para represar uma fila de carros. Denúncias podem ser feitas por meio do aplicativo Dnit Móvel.

Quanto à BR-262, a previsão é de que em outubro comece os reparos por meio de um edital que será lançado. A rodovia também pode ser incluído no programa de concessões, que poderá repassar à iniciativa privada o trecho entre Campo Grande e Três Lagoas.

Treminhão tombou de madrugada a caminho de Três Lagoas. (Foto: Vanessa Tamires)Treminhão tombou de madrugada a caminho de Três Lagoas. (Foto: Vanessa Tamires)


Sr. supervisor do DENIT não precisa aguardar denúncias pelo aplicativo Denit Móvel, basta fiscalizar o referido trecho que encontrará vários comboios de treminhões.
Quanto à melhoria da BR 262, basta nossos Deputados Federais justificarem o porquê foram eleitos. Mãos à obra.
 
MARCOS CAETANO DA SILVA em 23/08/2015 12:30:35
O que poderia resolver isso era se tivéssemos uma malha ferroviária, um trem levaria muito mais eucaliptos por um custo 10 vezes menor.

Mas como no BRasil se investe só em caminhões que é o tipo de transporte mais caro do mundo.

E outra, a BR 262 já deveria ter sido privatizada a muito tempo.
 
wild em 22/08/2015 12:25:09
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