A Eva do Pantanal, milhares de anos antes dos índios
Ali no capim macio, no sereno da noite, estava ela, esperando um animalzinho. A chamaremos de Eva. A pequena caçadora. Uma das primeiras mulheres do Pantanal. Ela estava na entrada de sua caverna. Esperava porque no seu mundo havia monstros, e eles também a esperavam. Quando a noite estava bem escura, Eva se arriscava e saía correndo depressa pelo chão em busca de sua presa mais fácil: insetos. Ela os ouvia antes de vê-los, o zumbido agudo de suas asas, as batucadas de suas patas. Incrivelmente depressa, Eva os abocanhava. Adorava o estalar adocicado dos corpos. Adorava o pequeno filete de fluido que lhe escorria pelo queixo.
Em eterno movimento.
Retomava a caçada. Nunca era seguro parar. Havia mandíbulas por toda parte. Garras e dentes. O que parecia uma árvore podia ser uma pata. O vento nas samambaias podia ser um hálito quente. Então ela corria e caçava. Corria e se escondia. Essa era sua vida todas as noites. Vivia perto, bem pertinho, de gigantes. Tão famintos quanto ela. Quando se cansava, voltava para a toca.
A mãe e seus bebezinhos.
Eva descia pelo túnel rastejando. Entrava na escuridão fechada de seu lar. A toca estava aquecida pelo calor suave de seu filho. Recendia a leite azedo. Junto com urina, fezes e saliva seca. Era um lugar seguro que ela havia cavado para seu filho. Um lugar seguro dos monstros que berravam lá em cima. Exausta, ela se acomodava. Seu filhinho acordava e ia para cima de seu ventre, onde gotas de leite brotavam de seu seio. Ele lambia até seu nariz ficar coberto de leite. Eva passava a língua áspera pela barriga do filho para ajudá-lo a defecar. Era uma massagem que acabara de imaginar.
Os seios de Eva.
As humanas tem seios porque fabricamos leite. Fabricam leite porque antes tinham ovos e, por mais estranho que pareça, porque tem um caso de amor duradouro com milhões de bactérias. Apesar de tudo, das terríveis condições, Eva criou seu filho. Foi incrivelmente bem-sucedida. Ela era adaptável e engenhosa. Tinha uma predileção incomum por besouros, daqueles bem grandes, típicos do Pantanal. Comê-los foi uma estratégia bem sucedida. Fabricava leite. Mas a superabundância de besouros no Pantanal por si só não explica o sucesso de Eva. A chave verdadeira do sucesso é que ela amamentava sua cria. Logo depois de nascer, o humano enfrenta quatro perigos: a desidratação, a predação, a inanição e a doença. Os bebês podem morrer de sede. Algo pode devorá-los. Eles podem morrer de fome. E, se driblarem tudo isso, ainda podem trombar com uma bactéria malévola. Mamar foi a grande saída.
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