O escravo dependente na visita do bispo a uma C.Grande sem padre
Corria o ano de 1.886. Carlos Luiz D’Amour era o bispo sediado em Cuiabá. Nenhuma autoridade, civil ou religiosa, aparecia no Mato Grosso do Sul. Nenhuma. Esta era uma região esquecida pelos cuiabanos e mal vista. O bispo resolveu empreender uma longa e difícil viagem a Corumbá, Miranda, Nioaque, fazendas dos Campos da Vacaria e a Campo Grande. Narra a imensa dificuldade com os mosquitos no Pantanal. Não dormia, era devorado pelos insetos. Extremamente cansado, insone, sua comitiva lhe propõe reduzir o itinerário, cortando C.Grande da visita. O bispo não aceitou.
O cálice de ouro.
O relato nos mostra algo difícil de conhecer em qualquer estudo da história local: as fazendas da Vacaria. É relativamente minucioso. Entre alguns detalhes, nos expõe à existência de alguma riqueza, como a doação de um cálice ao bispo, feito com ouro e ametistas, pelo coronel Muzzi.
Recebidos por uma multidão de cavaleiros.
Ao chegarem a C.Grande, foram recebidos por uma “multidão de cavaleiros”. O arraial era o destino final da viagem pastoral. Todos queriam ver o bispo. O povoado não era atendido por nenhum padre. José Antônio Pereira cumpria o papel de liderança, inclusive religiosa, embora reconhecesse que pouco podia fazer. O relato não nos contempla se ele oficiava as missas. Mas sabemos que não batizava, não crismava e nem casava os fiéis.
O escravo que não aceitou a liberdade.
D.Carlos celebrou três missas, crismou 420 pessoas e fez 37 casamentos. Confessou muita gente e fez um sem número de batizados. Mas a informação mais interessante é que, em decorrência da visita religiosa, foram concedidas duas cartas de alforria a escravizados. Não se verificou uma terceira “porque o preto opôs-se tenazmente a isso não querendo mudar de condição nem sair da casa do seu senhor”. Sem recursos, terra ou apoio, a alforria muitas vezes criava laços de dependência onde o descendente de africanos continuava prestando serviços para não ser marginalizado.
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