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Em Pauta

A madame inglesa que levou a vacina turca para o Ocidente

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 01/12/2020 06:55
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade

Os chineses foram os primeiros a perceber que os sobreviventes de um ataque de varíola, não voltavam a sofrer a doença. Ainda não era chamada de vacina, recebia o nome de variolização. Essa prevenção, era conhecida de hindús, egípcios, persas, georgianos, árabes e turcos. Na Turquia havia dois locais afamados de imunização, um deles, de nome Tessaliana, chegou a imunizar mais de mais 40 mil pessoas. E é da Turquia que sairá o método de vacinação que salvaria milhões de europeus.


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Uma madame culta e rebelde.

Mary Pierrepont era uma mulher determinada, bonita e apaixonada por livros. Teve uma sorte dupla desde o começo: não apenas nasceu na nobreza inglesa, como também era culta. Tinha uma das maiores e melhores bibliotecas privadas do mundo. Mary era esperta, e sabia disso. Ainda jovem, leu centenas de livros, aprendeu o latim e correspondia com vários bispos, os homens mais cultos de seu tempo. Também era uma rebelde. Fugiu do casamento arranjado por seu pai e foi casar com um jovem aristocrata, Edward Montagu, que ela mesma escolhera. Esse jovem, logo a seguir Montagu foi nomeado embaixador inglês na Turquia.


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O Monstro das Manchas atacou.

Primeiro, levou o irmão de Mary que virara Montagu. Ele tinha apenas 20 anos de idade e era o preferido de Mary. A varíola era chamada de "samall-pox", para diferenciá-la da "great-pox", a sífilis. Era o maior assassino desse tempo. Preferia matar os mais jovens. Ninguém sabia o que fazer no Ocidente. Os que saiam vivos, estavam marcados para sempre. Cicatrizes profundas na pele e buracos desfiguradores era a regra. A maioria dos adultos ingleses carregavam a "marca dos monstros". E foi assim por séculos. Lady Mary Montagu ficou febril. Apareceram as manchas. O caso dela era grave. Semanas depois, estava curada. Saiu do quarto sem os cílios. A pele ao redor dos olhos estava vermelha e irritada, conferindo-lhe um ar selvagem.


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As peladas não tinham marcas no corpo.

Lady Mary ficou amiga das mulheres que viviam no harém. Observou que eram livres em relação a seus corpos. E ficou muito surpresa com a naturalidade com que ficavam nuas em seus banhos coletivos. Uma das coisas que mais lhe chamou a atenção foi a linda pele das turcas. Isso era quase impossível na Inglaterra. "Onde estavam as cicatrizes da varíola", escreveu indagando curiosa. Em uma carta de 1717 disse: "vou contar uma coisa que vai fazer com que você queira estar aqui. A varíola, tão fatal e comum entre nós, não causa danos aqui por causa da invenção do enxerto, que é o termo que deram. Há um grupo de mulheres velhas que fazem dessa operação seu negócio".


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A vacina turca era uma festa.

Lady Mary descreve que a vacina era realizada no mês de setembro. As pessoas mandavam recado umas às outras para saber se algum parente queria contrair a varíola. Então, organizavam festas com esse intuito. E quando a festa estava no seu ponto mais alto, aparecia uma velha com uma casca de noz cheia da melhor cepa da varíola. Perguntava qual veia a pessoa desejava abrir, a rasgava imediatamente com uma grande agulha (que não doía mais que uma coceira comum) e colocava uma dose da varíola que cabia na ponta da agulha. Até o oitavo dia, todos permaneciam saudáveis. Então, eram tomados por uma febre e ficavam na cama por dois dias. E Mary afirmava: "estou convencida de que ninguém tenha morrido disso até agora, e você pode acreditar que estou muito satisfeita com a segurança do experimento".


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À volta para a Inglaterra e a ingente luta de Lady Mary Montagu.

Lady Mary levou esse método para a Inglaterra. Após muita luta contra os médicos e os religiosos (era um método de "Maomé") conseguiu vacinar algumas pessoas de seu círculo de amizades e chegou a inocular a varíola em membros da corte inglesa. Salvou algumas centenas de vidas. Também vacinou prisioneiros e órfãos. As demonstrações surtiram efeito. A inoculação chamou a atenção de vários médicos e cientistas, que, lentamente e de forma hesitante, começaram a adotar o procedimento turco. Mas houve reação popular. Os anti-inoculadores protestaram em panfletos, jornais, pubs e cafeterias. Também como no Brasil, a politização da vacina explodiu. A maior oposição veio daqueles que queriam derrubar a realeza. Quem era contra os nobres não tomava vacina.

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