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13/09/2018 09:41

O combate aos traficantes de coca é feito com as mulheres

Mário Sérgio Lorenzetto
O combate aos traficantes de coca é feito com as mulheres

- O que buscas?
- Busco sangue e honra.
Assim tem início um ritual, que dura uns 20 minutos, para entrar em uma organização que domina o tráfico de cocaína na Europa. Desde esse momento, o novo "piccioto", o estágio mais baixo da organização, passará o resto da vida vivendo, matando e morrendo por ela. Quando o piccioto jura fidelidade, há uma vela acesa e uma figurinha de São Miguel Arcanjo, protetor da Ndrangueta, a máfia calabresa. O aspirante, obrigatoriamente deve ser parente de outro membro. Crava uma agulha no dedo e a cada gota de sangue que cai na figurinha vão queimando. O resto do clã, sentado em forma de ferradura, escuta que o piccioto arderá como a figurinha caso traia a organização. Sempre foi assim.

A cidade de San Luca, conhecida como La Mamma, ajuda a entender a Ndrangueta. Essa organização, profundamente ritualística, nasceu do roubo de gado, de extorsões e sequestros. Mas hoje é a maior multinacional do crime com o monopólio da distribuição de coca na Europa. Segundo a polícia italiana, a Ndrangueta têm mais de 30.000 filiados só na Calabria e fatura mais de 43 bilhões de euros. Seus maiores centros de distribuição estão no Canadá, Austrália, Espanha, Bélgica, Holanda e Alemanha.

O combate aos traficantes de coca é feito com as mulheres

A investida do governo para derrotar a Ndrangueta.

O Porto de Gioia Tauro é a melhor expressão de como a Ndrangueta parasitou uma terra exuberante em recursos naturais e impediu sua prosperidade. O porto foi inaugurado em 1995 em uma planície e receberia a conversão de 700 hectares de agricultura para construir um centro siderúrgico. Arrasaram os campos de laranja, urbanizaram o terreno e dezenas de empresários receberam 1,2 bilhões de euros de ajuda, originários de fundos europeus. Bastou um tiro da Ndrangueta para que o dinheiro e os homens de negócio se esfumassem. O terreno alberga hoje um dos maiores acampamentos de africanos imigrantes com 3.000 habitantes em baixo de lonas, empregados a preço de escravidão.

O porto? Castigado internacionalmente por sua má fama, é um dos principais polos de distribuição da coca, em companhia de Antuérpia, na Bélgica e de Roterdam, na Holanda. É impossível controlar mais de 2% dos 24.000 contêineres que chegam por lá.

Na América do Sul há dezenas de homens da Ndrangueta que aqui vivem de maneira estável. Se casaram com bolivianas, peruanas e colombianas. Não é uma organização de pouco tempo.

Levaram dezenas de anos construindo e solidificando. Desses três países produtores de coca, sai a mercadoria para a floresta amazônica. Passa pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, chegando até o porto de Santos. O poder dessa máfia é tão grande que compra a droga a 1.000 euros por quilo, enquanto as demais organizações, como a Cosa Nostra, paga 1.800 euros por quilo.

Sociedades fictícias panamenhas organizam e o transporte. As autoridades italianas dão como exemplo contêineres com açúcar. Contam que antes de fechar um desses contêineres, colocam quatro sacos de 25 quilos com coca. Isso é chamado de "rip off". Em seguida, fecham o contêiner e colocam um selo. Ninguém o abrirá até um dos portos europeus.

O combate aos traficantes de coca é feito com as mulheres

Os laços de sangue e o combate com as mulheres.

O pilar fundamental da Ndrangueta é a família. Sua estrutura horizontal, baseada exclusivamente nos laços de sangue, e em rígidos processos de aceitação à partir dos 14 anos, a converteu em um forte. Nas cidades italianas litorâneas desde Reggio Calabria até Locri, ninguém diz uma palavra sobre o tema. É como se a Ndrangueta não existisse. A diferença da Cosa Nostra e da Camorra são os fortíssimos vínculos familiares que são difíceis de serem rompidos. Mas não impossíveis.

A mudança está chegando com as mulheres. Em 2011, as autoridades perceberam que todos aqueles que estavam julgando pertenciam às mesmas famílias que haviam julgado há dezenas de anos. A cultura mafiosa fora herdada. Os pais educam os filhos no crime. Iniciaram um projeto para retirar a custódia dos filhos das famílias Ndranguetistas e oferecer-lhes uma vida no norte italiano, distante do ambiente criminoso. Também ofereceram o mesmo auxílio para as mães dispostas a colaborar com as autoridades. Já contam com 50 mulheres que quebraram os laços com a Ndrangueta.



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