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Em Pauta

O dia é da febre, o tempo é do dinheiro

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 13/07/2020 07:00
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade
Talvez o que devemos recordar deste último vírus, como qualquer praga conhecida e por conhecer, é que a pugna entre a superstição e os avanços científicos está no centro da experiência humana. A diferença fundamental é que agora o dinheiro está no centro desta nova experiência humana. E se não dermos conta, também tragará o futuro.


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As grandes consequências da Peste Negra.

O homem, além de ser um contador de histórias, também contabiliza todos os males que o afligem. Durante os vários episódios da Peste Negra, e tal como agora fazemos, a notícia mais esperada era a da contagem de mortos. Mas a Peste Negra ensejou fundamentais transformações naquelas sociedades. Tanto no plano religioso como secular, as consequências foram de longo prazo. Antes, a sociedade medieval era rígida demais, com as pessoas achando que suas posições sociais eram instituídas por Deus. A Peste Negra quebrou a rigidez social.


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Um novo mundo ao revés.

O senhor feudal era alguém criado para empunhar armas e comandar soldados. O sapateiro só podia produzir sapatos, nada mais até o dia de sua morte. O arrendatário de oito hectares das terras de seu suserano era simplesmente isso. Esses eram os papéis que Deus escolhera para eles. Só que a peste abriu novos buracos na sociedade. Trabalhadores já não tinham de ficar na terra, foram em massa para as cidades vender sua força de trabalho. Outros, foram trabalhar na fazenda vizinha que lhe oferecia um bom salario. A peste abalou profundamente os pilares da compreensão que as pessoas tinham do lugar que lhes cabia na Terra. Por que Deus as tratara de modo tão severo? Era a grande indagação religiosa. Por que o povoado vizinho, que fechara os portões para quem fosse de fora, tivera um número de vítimas muito menor? Era a indagação secular.


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As caveiras como forma de arte.

Em toda a Europa do século XIV houve um profundo envolvimento com a questão da morte. A cultura literária passou a ficar permeada da ideia de demônios, purgatório e vida após a morte. Era cada vez maior o emprego do tema da caveira na arte religiosa. Explodiram movimentos, como os lollardos, que defendiam um estilo de vida mais intenso e espiritual. "Memento mori" - o lembrete de que nos tornaremos corpos putrefacientes - eram insculpidos em igrejas, catedrais e lápides.


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E se Deus resolvesse destruir a humanidade inteira?

Ocorreu um aumento de capelas e de instituições beneficentes. Construíram muitas escolas, asilos e hospitais. Contudo, por baixo desses atos de piedade, havia algo mais perturbador: a questão da verdadeira situação da humanidade aos olhos de Deus. E se Deus resolvesse destruir a humanidade inteira? Após a peste, a aniquilação da espécie humana tornou-se uma possibilidade real na mente de muitos. Se a peste mudou práticas na área dos costumes, como a que impedia uma serva casar com um homem livre, transformou a economia. Os laços feudais que prendiam trabalhadores à terra foram substituídos por obrigações financeiras. O dinheiro ocupou o lugar da fidelidade compulsória, e o capitalismo começou a substituir o feudalismo nas áreas rurais, onde parecia inquebrantável. Nas cidades o capitalismo já triunfava. Mudanças sociais nos dias atuais são perceptíveis. O mundo passou, pela primeira vez, a odiar a escravidão. Quais serão as mudanças econômicas? E as científicas?
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