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26/10/2019 09:00

O grande sonho chinês é muito diferente do brasileiro

Mário Sérgio Lorenzetto
O grande sonho chinês é muito diferente do brasileiro

A China está comemorando os setenta anos de vida em uma república. É quase a metade do tempo que os brasileiros vivem na sua república (130 anos). Os números que mostram a distância de uma para outra república são esmagadores. Apenas alguns exemplos: 800 milhões de pessoas tiradas da pobreza; 29 mil quilômetros de redes ferroviárias de alta velocidade (quase 70% do total mundial); liderança em tecnologia em Inteligência Artificial e 5G; 24 mil quilômetros quadrados de desertos convertidos em áreas para plantio; mais da metade dos arranha-céus do mundo. Também estão construindo uma Nova Rota da Seda que conectará 70 países da Eurasia. Serão estradas, iluminação e água para esses povos. Tudo conquistado em poucas décadas.

O grande sonho chinês é muito diferente do brasileiro

Definir a China é como capturar o ar com as mãos.

E qual é o sonho dos chineses? É um território quase tão grande como a Europa, povoado por 1,4 bilhão de pessoas de 56 etnias diferentes, defini-la é querer capturar o ar com as mãos. Seus principais anseios são os mesmos de qualquer povo: dar a melhor educação possível para seus filhos, uma sociedade muito competitiva, economizar para a velhice ou para abrir seu próprio negócio. Mas há diferenças substanciais que são marcados pelo respeito confuciano à família e à cultura. Vivem dentro de um sistema de controles rígidos, mas são ácratas, libertadores. Essa talvez seja uma de suas grandes contradições. Esqueçam da balela marxista. Nas aulas obrigatórias de moral e pensamento marxista os estudantes aproveitam para fazer a "sesta" ou para jogar com seus celulares. Os filmes promovidos pelo Partido Comunista seriam exibidos em salas vazias se os ingressos não fossem doados. Dos 90 milhões de filiados ao Partido Comunista Chinês alguns entram por convicção política, mas a maioria o toma como uma rede de contatos, à espera de alguma regalia. Há, ainda, outra diferença fundamental: todos trabalham, não se vê uma só pessoa vagabundeando ou conversando "fiado". Também não se veem pessoas obesas. Desde a mais tenra infância primam pelos cuidados corporais com a saúde. Não há criança que não se esforce ao máximo em algum esporte ou, pelo menos, estar junto com as imensas multidões que acordam e vão a uma praça próxima praticar o tai chi.

O grande sonho chinês é muito diferente do brasileiro

Maoismo rima com Confucionismo.

Mao Tsé Tung é uma entidade próxima a Deus para o chinês mediano. Não é de estranhar para quem sabe que o Confucionismo foi estreitamente entrelaçado ao ideário comunista chinês do século XX. Se Mao está próximo de uma divindade, Confúcio é Deus, com certeza. O Confucionismo está interiorizado nos chineses desde que se generalizou na era Han (201 a.C a 220 d.C.). É outro sistema, não têm nada a ver com valores como liberdade, igualdade e fraternidade. É um "governo dos justos", com funcionários públicos fiéis e eficientes (isso é inacreditável para brasileiros), onde a hierarquia é importante e obedecida, há forte coesão social, obediência, autocontrole e ainda subsiste a subordinação dos desejos individuais aos coletivos. É o que há: uma China autoritária para seus 56 povos e, ao mesmo tempo, cada vez mais forte; que sabe para onde deseja ir, que escolheu um sonho e o conquistou. E um Ocidente ensimesmado, voltado para dentro de si, perdido em devaneios... e cada vez mais fraco.

O grande sonho chinês é muito diferente do brasileiro

Bolsonaro na China, a arte do contorcionismo pragmático.

Bolsonaro é um orgulhoso anticomunista que na campanha eleitoral não só acusou a China de "querer comprar o Brasil", como fez uma provocação aos chineses visitando a ilha de Taiwan para desgosto de nosso principal sócio comercial. Todavia, nos últimos meses o pragmatismo se impôs. O contrário, seria suicídio. De janeiro a setembro deste ano, já são quase US$20 bilhões de superávit em favor do Brasil. O dobro de superávit conseguido nas transações comerciais com os Estados Unidos, nosso segundo sócio, mas aliado preferencial dos Bolsonaros. Não dá para brincar de ideologia.
Na China, Bolsonaro lançou uma ofensiva de encantamento. Ficou claro que o Brasil, comandado pelos Bolsonaros, está interessado em aumentar suas exportações para os chineses. Também sonha em captar investimentos para as privatizações de empresas públicas e para o setor de infraestrutura. Atualmente, a China ocupa o baixo posto de nono investidor em solo brasileiro. Há espaço - e yuan, o dinheiro chinês - para muito mais.
Os dois países poderão firmar outros acordos, além dos nove já assinados, quando Xi Jiping devolver a visita ao Brasil no próximo mês, quando participará do encontro dos BRICS, em Brasília. Ninguém falou ou anunciou. Todavia, é certo que o governo chinês pleiteou a construção de suas redes de 5G no Brasil. Esse é o entrave principal na guerra que os norte americanos vem travando com os chineses. Bolsonaro terá de ser mais que um mero pragmático. Terá de mostrar que tem jogo de cintura, que sabe ser um diplomata.

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