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Em Pauta

Pesquisas eleitorais: apenas uma gotinha do caldeirão de sopa

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 23/10/2026 08:07
Pesquisas eleitorais: apenas uma gotinha do caldeirão de sopa

Logo após a Segunda Guerra Mundial, Churchill, o conservador primeiro-ministro que levará a Grã-Bretanha à vitória, convocou eleições no pais. Tinha certeza da vitória. Seus adversários trabalhistas pensavam que seriam derrotados facilmente. Todavia, Churchill conduziu a campanha com arrebatamento e raiva, tal como fizera na guerra. Em tempos de paz, os eleitores iriam preferir a ponderação e o bom senso. Churchill apenas vociferava, não tinha uma proposta clara para a reconstrução de seu pais. Os trabalhistas tinham.


Pesquisas eleitorais: apenas uma gotinha do caldeirão de sopa

A pesquisa da Gallup.

Uma pesquisa da Gallup feita na véspera da eleição indicou vitória trabalhista. Ninguém acreditou. Nem mesmo os trabalhistas. A ideia de que se podia prever o resultado perguntando a um número pequeno de eleitores em quem eles iriam votar parecia meio estapafúrdia. O jornal “News Chronicle”, que publicou a pesquisa, também não a retirou na vitória trabalhista. Todos os jornais do país acreditavam na vitória conservadora.


Pesquisas eleitorais: apenas uma gotinha do caldeirão de sopa

Equivoco amplo e irrestrito.

Todos estavam equivocados. Quando os resultados foram divulgados, o Partido Trabalhista havia conquistado 393 cadeiras no parlamento, e o Partido Conservador 210, os liberais tinham 12 assentos e os comunistas, apenas um.


Pesquisas eleitorais: apenas uma gotinha do caldeirão de sopa

A primeira pesquisa.

A pesquisa inglesa catapultou essa forma de prever resultados eleitorais. No entanto, não foi a primeira. Em novembro de 1.932, seria eleito Franklin Delano Roosevelt como presidente dos EUA. Gallup, então um desconhecido, resolveu pela primeira vez fazer uma pesquisa de boca de urna. Entrevistou em todo os Estados Unidos apenas insignificantes 1.500 eleitores. Anunciou a vitória de Roosevelt de forma muito precisa. Um jornal comprou essa pesquisa. Deu manchete em primeira página. Esgotou sua edição. Enquanto todos agora davam pacientemente a lenta apuração dos votos, o “The New York Times” nadava de braçada. Foi um furo jornalístico sem igual, que só seria confirmado muitos dias depois. Venderam jornal como jamais tinham vendido.


Pesquisas eleitorais: apenas uma gotinha do caldeirão de sopa

Muito tempo depois, aterriza no Brasil.

Mas a Gallup só teve ressonância mundial após o acerto na Inglaterra. No Brasil, só começaria  a trabalhar com pesquisas eleitorais após a ditadura. Acertou a eleição de um desconhecido deputado chamado Orestes Quércia pelo MDB paulista. As pesquisas eleitorais são como provar uma gotinha de um caldeirão de sopa. Precisa provar se falta sal e temperos. Precisa ter a receita certa. A ciência de Pascal e Fermat, dois matemáticos franceses do século XVII precisa de exatidão. Há uma gama de vendedores de pesquisa que não sabem multiplicar 7x8. Ilusionistas.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.