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Entre Risco e Decisão

Quando foi que ser bom deixou de ser suficiente?

Por Rodrigo Gonçalves Pimentel (*) | 27/08/2026 08:00

Durante muito tempo, conheci excelentes profissionais que quase ninguém conhecia.

Médicos disputados que não apareciam em lugar nenhum. Advogados cuja reputação circulava muito mais do que seus rostos. Empresários conhecidos pelas empresas que construíram, e não pela quantidade de pessoas que os seguiam.

Ninguém precisava saber onde eles estavam naquela manhã, o que tinham feito no fim de semana, onde almoçaram ou o que pensavam sobre o assunto do dia.

O trabalho falava antes da pessoa. Alguma coisa mudou.

Hoje, podemos ser extraordinariamente competentes e, ainda assim, permanecer invisíveis para boa parte das pessoas que poderiam precisar do nosso trabalho.

Não basta necessariamente fazer. Parece que também precisamos mostrar que fazemos. E não digo isso como crítica às redes sociais. Elas democratizaram a comunicação, aproximaram pessoas, derrubaram intermediários e permitiram que profissionais excelentes, antes conhecidos apenas em círculos restritos, apresentassem suas ideias para milhares de pessoas.

Talvez nunca tenha sido tão fácil ser encontrado. Mas talvez nunca tenha sido tão difícil saber até onde devemos nos mostrar. Existe uma diferença entre ser conhecido e estar exposto. E tenho a impressão de que estamos aprendendo essa diferença enquanto vivemos.

A princípio, parece simples. Você mostra um pouco do seu trabalho. Depois, percebe que as pessoas também se interessam pelos bastidores. Então mostra uma reunião, uma viagem, uma obra, um almoço, uma conversa, um momento em família.

Até que acontece uma coisa curiosa. Em determinado momento, você deixa de apenas viver algumas situações e começa, simultaneamente, a observá-las de fora.

Está diante de um belo pôr do sol e pensa se deveria filmar. Entra em um lugar interessante e imagina uma fotografia. Ouve uma boa história durante o almoço e pensa que aquilo poderia virar conteúdo. Vive um momento especial e, por alguns segundos, sua cabeça se divide entre experimentar aquilo e imaginar como aquilo seria contado.

Talvez esse seja um dos fenômenos mais interessantes do nosso tempo: transformamos nossa própria vida em uma possibilidade permanente de comunicação.

E isso não é necessariamente ruim. O problema começa quando deixamos de saber onde termina a comunicação e começa a exposição.

Porque existe ainda uma dificuldade que talvez seja maior: depois que mostramos alguma coisa, deixamos de controlar completamente o significado daquilo que mostramos.

Podemos publicar uma imagem querendo falar sobre trabalho, e alguém enxergar patrimônio. Podemos mostrar uma conquista querendo contar uma história, e alguém interpretar como exibição. Podemos dividir um momento de família e alguém prestar atenção no ambiente. Podemos tentar demonstrar simplicidade e sermos percebidos exatamente da maneira contrária.

A intenção pertence a quem comunica. A interpretação pertence a quem recebe. E talvez esse seja um dos preços menos percebidos da exposição: quanto mais elementos da nossa vida colocamos à disposição do olhar dos outros, mais matéria-prima entregamos para que construam uma versão de nós que nem sempre corresponde àquela que imaginávamos estar mostrando.

É por isso que visibilidade e reputação não são a mesma coisa.

Visibilidade faz com que as pessoas saibam quem você é. Reputação faz com que elas saibam por que deveriam confiar em você. É perfeitamente possível ter muita visibilidade e pouca reputação. Assim como é possível construir enorme reputação e permanecer desconhecido para quase todo mundo.

O desafio contemporâneo talvez seja conseguir uma coisa sem destruir a outra.

Existe ainda outro paradoxo.

Durante muito tempo, discrição foi associada a determinadas formas de autoridade. O bom profissional não precisava falar muito sobre si. Seus resultados, suas relações e sua trajetória faziam isso por ele.

Hoje, porém, a discrição absoluta também cobra um preço. Se ninguém sabe o que você faz, sua competência pode nem sequer entrar na disputa.

O profissional excelente que não aprendeu a comunicar aquilo que sabe pode assistir a alguém menos experiente ocupar um espaço que poderia ser seu simplesmente porque o outro aprendeu a ser encontrado.

Não adianta reclamar do mundo. O mundo mudou. Mas adaptar-se ao mundo não deveria significar necessariamente transformar-se em outra pessoa.

E talvez seja justamente aí que esteja a fronteira mais difícil.

Quanto de nós precisamos mostrar para sermos conhecidos? Quanto devemos preservar para continuarmos sendo nós mesmos?

Existe um ponto em que a proximidade aproxima tanto que banaliza? Existe um ponto em que aquilo que deveria construir autoridade começa apenas a alimentar a necessidade de permanecer visível?

Não tenho certeza das respostas.

Aliás, desconfio cada vez mais de quem possui respostas definitivas para perguntas que o nosso tempo acabou de criar. Mas tenho pensado que talvez exista um bom critério.

Nem tudo que gera atenção constrói reputação. E nem tudo que construímos precisa virar conteúdo.

Talvez possamos mostrar o trabalho sem transformar a vida inteira em trabalho de comunicação. Compartilhar histórias sem entregar toda a intimidade. Ser acessíveis sem perder a reserva. Mostrar conquistas sem precisar exibi-las. Humanizar sem banalizar.

No fundo, talvez o desafio não seja escolher entre aparecer e desaparecer. É aprender a aparecer sem virar personagem.

Porque existe um risco silencioso quando passamos tempo demais preocupados com a forma como nossa vida será vista pelos outros: aos poucos, podemos começar a tomar decisões não mais pelo que elas representam para nós, mas pelo que parecerão representar para quem está olhando.

E aí a exposição deixa de ser apenas uma ferramenta de comunicação. Ela começa a interferir na própria vida que pretendíamos comunicar.

Talvez a verdadeira sofisticação, num mundo em que todos disputam atenção, esteja justamente em recuperar o direito de escolher. Escolher o que mostrar. Escolher o que preservar. Escolher quando falar. E também quando não dizer absolutamente nada.

Porque ser visto pode ser importante. Ser conhecido pode abrir portas. Comunicar aquilo que fazemos talvez tenha se tornado indispensável.

Mas continuar reconhecendo a nós mesmos quando a câmera desliga ainda me parece muito mais importante.

(*) Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.

Siga no Instagram: @rodrigogpimentell