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Economia

MS teme que tarifas chinesas da carne sejam repassadas a outros produtos

Parceiro líder em celulose e soja, o mercado asiático pode gerar efeito maior que sobretaxas dos EUA

Por Ketlen Gomes | 06/01/2026 09:08
MS teme que tarifas chinesas da carne sejam repassadas a outros produtos
Setor da carne bovina de Mato Grosso do Sul está apreensivo com o novo teto e as novas tarifas chinesas. (Foto: Reprodução/MS GOV)

A mudança tarifária e o teto impostos pela China sobre a carne exportada pelo Brasil ao país asiático, têm gerado apreensão no setor econômico de Mato Grosso do Sul que teme a ampliação da medida para outros setores. O titular da Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Jaime Verruck, afirma que há preocupação de que as cotas estabelecidas para a carne bovina sejam adotadas também em produtos como celulose e soja.

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A China estabeleceu novas regras para importação de carne brasileira, gerando preocupação em Mato Grosso do Sul. O país asiático impôs um teto de 1,106 milhão de toneladas para 2026, com tarifa adicional de 55% sobre volumes excedentes. A medida afeta diretamente o estado, que exportou 131,86 mil toneladas do produto à China em 2023. O secretário da Semadesc, Jaime Verruck, teme que as cotas sejam estendidas a outros produtos, como celulose e soja. As negociações com o Ministério da Agricultura incluem a possibilidade de o Brasil suprir cotas não atendidas por outros países. A preocupação maior recai sobre pequenos frigoríficos, que podem ter dificuldades para realocar sua produção.

“O governo do Estado demonstra efetivamente a sua grande preocupação com o estabelecimento de cotas. A China é nosso principal mercado de celulose, nosso principal mercado de soja, principal mercado de bovinos, que são os produtos mais representativos. Então, quando se começam a estabelecer salvaguardas, isso efetivamente nos preocupa”, explica o secretário.

Verruck aponta ainda que a nova política chinesa de cotas e tarifas, que prevê um teto inicial de 1,106 milhão de toneladas para a exportação brasileira em 2026, com a aplicação de uma tarifa adicional de 55% sobre os volumes que ultrapassarem esse limite, é semelhante às tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos sobre a carne entre agosto e novembro do ano passado.

No entanto, segundo o secretário, por se tratar do principal parceiro comercial de Mato Grosso do Sul, o impacto da medida chinesa tende a ser maior para o Estado do que o das tarifas aplicadas pelos Estados Unidos. Entre janeiro e novembro do ano passado, Mato Grosso do Sul exportou 131,86 mil toneladas de carne bovina para a China, volume que corresponde a 60,3% das exportações do produto pelo Estado, conforme dados da Semadesc.

A nova organização tarifária chinesa entrou em vigor em 1º de janeiro e segue até 31 de dezembro de 2028. As cotas estabelecidas pelo país asiático aumentam gradualmente, passando para 1,128 milhão de toneladas em 2027 e 1,154 milhão de toneladas em 2028. Ainda assim, o Brasil exportou para a China 1,49 milhão de toneladas até novembro de 2025, número que vem crescendo ano a ano.

“A medida de salvaguarda é para proteger o mercado interno em um determinado país. Então ela está prevista no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio) e isso não quer dizer que ela não possa ser questionada e nem que ela é legítima. A China tomou uma decisão e já vinha fazendo uma avaliação das salvaguardas em relação à carne bovina. Uma pressão interna sobre o ponto de vista principalmente dos frigoríficos chineses”, informa Verruck.

O secretário afirma ainda que mantém tratativas com o Ministério da Agricultura, mas relata não ter identificado, até o momento, uma preocupação por parte da pasta em relação ao teto de exportação. Ele explica que, caso a produção brasileira se mantenha e não seja direcionada a outros mercados, o excedente pode ser absorvido pelo mercado interno, o que tende a aumentar a oferta e pressionar os preços para baixo.

Entre as primeiras negociações conduzidas pelo Ministério da Agricultura com a China está a possibilidade de o Brasil suprir cotas não atendidas por outros países. “Isso é possível, dado que eles têm o tamanho, o volume que eles precisam comprar dentro da cota, mas nós não sabemos, obviamente, se os outros países conseguirão ou não atingir as suas cotas”, analisa o secretário.

Verruck acrescenta que o Estado seguirá acompanhando as negociações conduzidas pelo governo federal e que já se reuniu com entidades como a Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) para alinhar estratégias. Segundo ele, a intenção é unir esforços para defender a cadeia produtiva, especialmente pequenos frigoríficos e produtores, que podem ser diretamente impactados.

“A ideia é juntar toda a cadeia produtiva, que serão afetados os frigoríficos e produtores, para que a gente efetivamente faça o mesmo trabalho que foi feito em relação aos Estados Unidos. Também se inicia imediatamente um trabalho de convencimento das autoridades chinesas em relação à carne bovina, e o que nos preocupa é o quanto que uma política de salvaguarda unilateral poderia ser futuramente expandida para outras cadeias produtivas”, expõe.

O secretário também menciona que o México estabeleceu tarifas de salvaguarda de 16% sobre a carne suína. Ele explica que, por Mato Grosso do Sul ser reconhecido como área livre de febre aftosa, o Estado estava em processo de habilitação para exportar ao país norte-americano, e que o mercado avalia que o percentual mantém a competitividade do produto sul-mato-grossense.

“Mato Grosso do Sul tem hoje praticamente todas as plantas credenciadas para além da China, para outros mercados internacionais. Então a gente tem uma demanda forte para outros mercados. Acho até que efetivamente o boi do Mato Grosso do Sul, em função do nível de concentração, que nós temos mais de 56% na JBS, eles rapidamente realocam o produto para outros mercados, mas me preocupam os frigoríficos menores”, finaliza.