ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
SETEMBRO, QUINTA  03    CAMPO GRANDE 21º

Economia

MPF expõe vazio de governança do Rio Paraguai antes da concessão da hidrovia

Sem comitê de bacia hidrográfica, não há fórum comum para discutir conflitos e impactos sobre o uso da água

Por Viviane Monteiro, de Brasília | 03/09/2026 19:59
MPF expõe vazio de governança do Rio Paraguai antes da concessão da hidrovia
Rio Paraguai em Porto Murtinho, na fronteira com o Paraguai. (Foto: Arquivo/Henrique Kawaminami)

A cobrança do MPF (Ministério Público Federal) pela criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai mobiliza o governo de Mato Grosso do Sul e abre uma nova pressão pela concessão da Hidrovia do Rio Paraguai, que segue em análise no TCU (Tribunal de Contas da União). O trecho da hidrovia em processo de licitação abrange 600 quilômetros entre Corumbá e Porto Murtinho, na fronteira com o Paraguai.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O Ministério Público Federal cobra a criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai, mobilizando o governo de Mato Grosso do Sul e pressionando pela concessão da Hidrovia do Rio Paraguai, em análise no TCU. A ação pede plano de trabalho em 60 dias, multa de R$ 50 mil por descumprimento e indenização mínima de R$ 1 milhão. Especialistas defendem o comitê como instrumento de governança, sem interferir na concessão.

O Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), órgão responsável pela gestão estadual dos recursos hídricos e pelo acompanhamento dos comitês de bacias hidrográficas, afirma ser favorável à criação do colegiado e avalia que a pressão do Ministério Público Federal pode destravar o processo. A estimativa é de que a criação do comitê exija prazo mínimo de dois anos, em razão do cronograma de ações e das consultas à sociedade civil da região.

Na Região Hidrográfica do Paraguai viviam 2,39 milhões de pessoas em 2018, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) utilizados pela ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico).

A ação civil pública do MPF pede que a União, a ANA e os governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul implementem o Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai. A ação também pede prazo de 60 dias para apresentação de um plano de trabalho, multa diária de R$ 50 mil em caso de descumprimento e indenização mínima de R$ 1 milhão por danos morais coletivos. Procurada pelo Campo Grande News, a ANA informou que, até o momento, não recebeu intimação judicial para se manifestar na ação civil pública movida pelo MPF.

Para especialistas, a instância é fundamental para reduzir conflitos, ampliar a transparência, dar voz a setores que hoje não participam das decisões e permitir o planejamento do Pantanal “na escala” necessária para preservar o fluxo natural da biodiversidade em meio ao projeto de concessão da hidrovia. O entendimento, contudo, é de que o comitê não representaria entrave ao andamento da concessão e pode ser uma oportunidade para adequar o projeto às necessidades da bacia.

“A concessão não tem edital publicado nem leilão marcado. Então estamos falando de uma janela em que ainda dá para organizar a governança da água antes de decidir sobre a infraestrutura, e não depois”, analisa a coordenadora Técnico-Científica do Instituto SOS Pantanal, a geógrafa Stefania C. de Oliveira, mestre em Geociências e doutora em Ciências.

MPF expõe vazio de governança do Rio Paraguai antes da concessão da hidrovia
Pesquisadora do SOS Pantanal assegua que Bacia do Alto Paraguai hoje é discutida em pedaços e cobra execucação do Plano de Recursos Hídricos (Foto: Divulgação)


Para ela, o comitê não altera o curso da concessão. O que mudaria, em sua avaliação, é a escala da discussão, considerando que hoje a Bacia do Alto Paraguai é analisada de forma fragmentada.

“Existem comitês estaduais em algumas sub-bacias de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, mas não existe nenhum fórum onde a União, os dois estados, os usuários da água e a sociedade civil sentem à mesma mesa para olhar o Rio Paraguai como um sistema só.”

Segundo ela,  o comitê é o instrumento previsto na Lei das Águas, de 1997, para que uma bacia seja gerida de forma compartilhada. A Bacia do Alto Paraguai, porém, segue sem esse colegiado quase 30 anos depois da aprovação da lei.

“Defender a criação do comitê é uma posição a favor de que o país cumpra uma lei de 1997 que segue sem efeito nessa bacia, e não um posicionamento sobre o mérito de nenhum empreendimento específico, até porque a nossa avaliação técnica da concessão, que aponta lacunas ainda não resolvidas, é feita à parte, com critérios próprios.”

Stefania reforça que o comitê de bacia não tem poder para autorizar ou bloquear empreendimentos em processo de concessão. A pesquisadora destaca, porém, que se trata de um instrumento de participação, no qual sociedade civil, academia e outros setores poderão contribuir para a gestão dos recursos hídricos.

Dessa forma, a ausência do comitê representa uma lacuna de governança. “Sem esse fórum, não há instância onde Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, a União, os usuários e a sociedade civil discutam prioridades, conflitos pelo uso da água e o efeito conjunto das intervenções.”

Para que cumpra esse papel, de fato, o comitê precisa ser funcional, com especialistas e com representação da sociedade civil com voz ativa, para "que o progresso venha de forma equilibrada com a conservação do Pantanal".

Ainda não saiu do papel

Nesse contexto, Stefania chama a atenção para a baixa execução do Plano de Recursos Hídricos da Região Hidrográfica do Paraguai. Para ela, a iniciativa não saiu do papel, praticamente, embora tenha sido aprovada em 2018 pelo CNRH (Conselho Nacional de Recursos Hídricos). O plano, que precisa ser revisado na visão da pesquisadora, estabeleceu 70 ações em quatro eixos estratégicos, que são governança, instrumentos de gestão, solução de conflitos pelo uso da água e conservação dos recursos hídricos.

A Resolução CNRH nº 196 que aprovou o plano, há oito anos, determinou que o Grupo de Acompanhamento continuasse atuando até a criação do respectivo Comitê de Bacia. O grupo havia sido criado anteriormente para acompanhar a implementação do plano enquanto o colegiado não fosse instituído.

Inclusão da concessão no plano

Em entrevista ao Campo Grande News, o gerente de Recursos Hídricos do Imasul, Leonardo Sampaio, reconheceu a lentidão dos trabalhos no âmbito do plano e afirmou que cerca de 15% das ações foram executadas. Entre os avanços, citou o estudo específico sobre hidrelétricas no Pantanal e a validação da divisão hidrográfica da Bacia do Paraguai entre os estados.

Entre as medidas ainda pendentes está a criação do comitê ou de outro organismo para a gestão da bacia. Segundo Sampaio, a equipe do Imasul continua participando das reuniões do grupo de acompanhamento. A próxima reunião está prevista para os dias 30 de setembro e 1º de outubro e terá, entre os objetivos, avançar na execução das ações previstas no plano e discutir, entre outros pontos, a decisão do MPF.

Na ocasião, será realizada a Oficina Nacional do Projeto GEF Pantanal-BAP, que reúne Bolívia, Brasil e Paraguai em uma iniciativa de cooperação transfronteiriça para fortalecer a conservação dos ecossistemas, a segurança hídrica e a gestão integrada da Bacia do Alto Paraguai.

No Brasil, o evento é coordenado pela ANA e pelo Ministério das Relações Exteriores. O  projeto prevê a elaboração de um diagnóstico transfronteiriço e de um programa de ação estratégica, com participação de governos, academia, sociedade civil e usuários da água.

Sampaio reconhece a necessidade de revisão do plano, que ainda não tem prazo definido. Para ele, a criação do comitê passou a ser uma prioridade exatamente para que o colegiado possa participar da revisão e da aprovação do próximo plano.

Por se tratar de uma região hidrográfica de domínio federal, a elaboração do plano foi coordenada pela ANA, com participação do CNRH, dos governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e de representantes da sociedade.

A previsão é de que a concessão da Hidrovia do Rio Paraguai seja considerada em eventual revisão do plano.

“Quando o plano foi elaborado, em 2018, a hidrovia já era mencionada, mas não havia essa urgência. Ela aparece em algumas partes do diagnóstico, mas não existe uma ação específica para estudar a Hidrovia do Rio Paraguai. Agora, provavelmente vai ter, porque o processo da concessão está em andamento.”

Sampaio lembrou que a criação do Comitê da Bacia do Alto Paraguai já foi objeto de estudos e de uma solicitação à ANA, por volta de 2008. Segundo ele, a iniciativa recebeu, à época, parecer contrário por falta de viabilidade financeira para manter a estrutura. A avaliação, porém, pode ter mudado, já que o número de usuários de água na bacia aumentou e, consequentemente, também pode ter crescido o potencial de arrecadação com a cobrança pelo uso dos recursos hídricos.

A estimativa feita anteriormente apontava arrecadação de R$ 300 mil a R$ 400 mil por ano, valores considerados insuficientes para custear o comitê. Atualmente, segundo Sampaio, a avaliação é de que a estrutura pode ter viabilidade financeira, embora não tenha apontado estimativas atuais de valores arrecadados.

A previsão  é de que um comitê possa funcionar inicialmente com uma estrutura enxuta, com custo de cerca de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão por ano, embora uma estrutura mais robusta permita ampliar a capacidade de atuação. Para reduzir custos, Sampaio sugeriu que o comitê possa funcionar inicialmente em espaço cedido pelo poder público local.

Fronteira com o Paraguai

O pesquisador Fabio Martins Ayres, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), reforçou a necessidade de criação do comitê, que poderá, entre outros pontos, discutir com mais profundidade temas relacionados à gestão dos recursos hídricos e à concessão da Hidrovia do Rio Paraguai.

Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, o especialista afirma que será necessário estabelecer diálogo também com o Paraguai no processo de criação do comitê, por se tratar de uma bacia transfronteiriça. A bacia hidrográfica do Rio Paraguai se estende ainda por territórios da Bolívia e da Argentina, enquanto a Região Hidrográfica do Paraguai considerada no plano corresponde à porção brasileira da bacia.