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Economia

Mercado Escola abre novo edital para quem vive da produção artesanal no Estado

Espaço da UFMS aproxima produtores da pesquisa, fortalece negócios e cria redes de apoio para empreendedores

Por Inara Silva | 20/07/2026 13:45

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Toda quinta-feira, antes mesmo de separar os sabonetes em formato de capivara, as velas aromáticas e os séruns produzidos artesanalmente, Carla Campos já sabe que viverá um dos dias mais esperados da semana. Aos 34 anos, ela transformou a saboaria criada durante a pandemia na única fonte de renda da família. Trabalha em casa para acompanhar de perto o filho de sete anos, diagnosticado com autismo, e encontrou no Mercado Escola da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) um espaço para vender seus produtos e uma rede de apoio.

RESUMO

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O Mercado Escola da UFMS, em Campo Grande, une comercialização, ensino e inclusão social ao apoiar agricultores familiares, artesãos e empreendedores. O espaço impulsionou histórias como a de Carla Campos, que sustenta a família com sabonetes artesanais, José Alceu Cabral, produtor de queijos que aproxima a produção da pesquisa, e Maria Eronita, que voltou a estudar após reinventar o negócio de pães.

“Chega quinta-feira e parece automático. Dá vontade de arrumar tudo para ir. Virou uma família”, resume.

A rotina de Carla se cruza, no mesmo espaço, com a de José Alceu da Silva Cabral, de 70 anos, produtor de queijos da agricultura familiar que aperfeiçoou sua produção e sua rede de relacionamentos, e com a de Maria Eronita do Nascimento, de 72 anos, que deixou de ser manicure e hoje é conhecida por sua variedade de pães. As histórias são diferentes, mas são permeadas pelas ações do Mercado Escola, local onde conhecimento, pesquisa, empreendedorismo e desenvolvimento social caminham juntos.

Criado a partir da experiência da antiga Feirinha Agroecológica do corredor central da UFMS, o Mercado Escola foi inaugurado em setembro de 2024 e passou a funcionar com comercialização permanente em agosto de 2025. O espaço reúne agricultores familiares, artesãos e empreendedores da economia criativa em um ambiente que integra ensino, pesquisa, extensão e inovação.

Segundo a coordenadora do projeto, professora Aline Gomes da Silva, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, a proposta não se resume a uma feira, mas funciona como um laboratório.

A coordenadora explica que, além da comercialização, o Mercado Escola promove qualificação técnica, fortalece redes de cooperação, amplia a autonomia dos produtores, incentiva a inovação e aproxima universidade e comunidade. “Há pessoas que chegam com um negócio estruturado e outras apenas com uma ideia. Conforme surgem necessidades, buscamos parceiros dentro e fora da universidade para oferecer formação, consultorias e oportunidades que fortaleçam esses empreendimentos”, esclarece.

Mercado Escola abre novo edital para quem vive da produção artesanal no Estado
Carla Campos atende cliente na feira da UFMS (Foto: Assessoria Mercado Escola)

Empresa familiar - A Botânica Saboaria chegou já estruturada. A iniciativa começou em outubro de 2020, quando Carla Campos perdeu o emprego durante a pandemia e decidiu investir o auxílio emergencial na compra de matéria-prima para fabricar sabonetes artesanais. Na época, vivia em Rondônia. Com o diagnóstico de autismo do filho, veio para Campo Grande em busca de tratamento especializado e trouxe consigo o pequeno negócio que começava a nascer.

Hoje, todos os produtos continuam sendo feitos manualmente. Ela mesma desenvolve extratos naturais, prepara cosméticos, produz espumas faciais, séruns, velas aromáticas e sabonetes moldados em formatos inusitados, como melancias, capivaras e paletós pintados à mão. São mais de 60 itens produzidos em pequena escala, sem equipamentos industriais.

O marido participa das entregas, da montagem das feiras e da organização da estrutura. A produção continua sendo responsabilidade dela. Segundo Carla, foi o Mercado Escola que colocou seus produtos diante de um público completamente diferente daquele encontrado nas feiras tradicionais.

“O Mercado Escola foi um divisor de águas.”

Ela conta que o aumento das vendas permitiu investir em equipamentos, ampliar a produção, lançar novas linhas e fidelizar clientes que continuam comprando mesmo fora dos dias de comercialização. A estrutura oferecida pela universidade e a convivência com professores, estudantes e outros empreendedores também fortaleceram sua rede de apoio.

Conforme Carla, a experiência no Mercado Escola extrapolou o próprio negócio. A convivência com a comunidade universitária e os contatos construídos no espaço também deram visibilidade a uma demanda da categoria. Ao lado de outras saboeiras artesanais, ela participou da elaboração de uma proposta para ampliar o reconhecimento da atividade e ampliar o acesso a políticas públicas e editais destinados ao artesanato. A iniciativa foi acolhida por um vereador da Capital. Segundo a empreendedora, o processo está atualmente parado, enquanto o setor aguarda definições da Anvisa sobre a regulamentação da atividade.

Mercado Escola abre novo edital para quem vive da produção artesanal no Estado
O agricultor José Alceu conversa com um cliente (Foto: Assessoria Mercado Escola)

Conhecimento - Na propriedade de José Alceu Cabral, localizada na zona rural de Campo Grande, a inovação começa antes mesmo da fabricação dos queijos. O leite utilizado na produção vem de vacas Jersey criadas sob manejo certificado de baixo carbono. O rebanho é livre de brucelose e tuberculose, passa por melhoramento genético e recebe alimentação desenvolvida em parceria com pesquisadores. Segundo o produtor, pessoas com alergia ou intolerância têm consumido o leite A2A2 produzido na propriedade sem apresentar reações. Agora, ele busca comprovar cientificamente essa observação por meio de pesquisas em parceria com a universidade.

É justamente essa aproximação entre produção e ciência que, segundo ele, representa o maior diferencial do Mercado Escola. Além da comercialização dos produtos da cooperativa da agricultura familiar, Alceu encontrou na universidade acesso a pesquisas, análises laboratoriais e oportunidades que dificilmente estariam ao alcance de um pequeno produtor. Entre elas, o desenvolvimento de novos derivados do leite e a participação na Agro Centro-Oeste Familiar, em Goiânia (GO), considerada a maior feira da agricultura familiar da região, onde conheceu outros produtores, mostrou seu trabalho e aperfeiçoou sua produção e sua rede de relacionamentos.

Mercado Escola abre novo edital para quem vive da produção artesanal no Estado
Maria Eronita durante atendimento a seus clientes (Foto: Assessoria Mercado Escola)

Reinvenção - Na banca de Maria Eronita do Nascimento, dificilmente dois dias são iguais. O pão de batata divide espaço com versões preparadas com abóbora cabotiá, cenoura e beterraba. Há ainda sopa paraguaia, chipa, pão de queijo, carreteiro, soripan e outras receitas que ela adapta conforme a preferência dos clientes. “Quando um produto para de vender, eu invento outro.”

A criatividade ajudou Maria a reconstruir a própria vida depois que problemas na coluna a impediram de continuar trabalhando como manicure, profissão que exerceu durante décadas. Participando dos cursos oferecidos pelo Mercado Escola, ela conta que aprendeu muitas coisas importantes, como educação financeira e o uso da máquina de cartões. Foi ali que ela percebeu que precisava aprender mais. Começou pela alfabetização de adultos, passou por programas educacionais voltados à terceira idade e hoje frequenta a EJA (Educação de Jovens e Adultos), onde atualmente cursa as séries finais do ensino fundamental. “Foi por causa do Mercado Escola que senti vontade de estudar.”

Depois de quase 50 anos longe da escola, Maria ingressou no ensino regular e atualmente cursa as séries finais do ensino fundamental. Ela também destaca o acolhimento recebido de professores, estudantes e colegas. “Eles não dão só lucro em dinheiro. Dão lucro em outro sentido. Fazem a gente levantar a autoestima.”

Mercado Escola abre novo edital para quem vive da produção artesanal no Estado

Comercialização - Para Aline Gomes da Silva, histórias como as de Carla, Osvaldo e Maria representam exatamente aquilo que o Mercado Escola pretende construir. Segundo a coordenadora, alguns empreendedores chegam buscando novos mercados. Outros procuram apoio para estruturar um negócio. Há quem descubra cursos, atendimento psicológico, serviços odontológicos ou atividades culturais oferecidas pela universidade.

“É muito bonito ver pessoas com histórias tão diferentes convivendo no mesmo espaço. Temos desde pessoas com ensino superior até quem está sendo alfabetizada agora. É gratificante acompanhar essa transformação. Ela acontece também com os estudantes, que descobrem que a profissão pode mudar a vida das pessoas.”

Aline explica que o projeto também estimula práticas sustentáveis, valoriza a cultura regional, incentiva a economia criativa e aproxima diferentes cursos da realidade dos empreendedores. O edital de seleção considera aspectos como sustentabilidade, valorização dos biomas locais, reutilização de materiais e identidade cultural dos produtos.

Edital aberto - Produtores rurais, artesãos e empreendedores da economia criativa interessados em integrar o Mercado Escola da UFMS  podem se inscrever para a seleção de novos expositores. O edital está aberto com 34 vagas e as inscrições vão até 28 de julho. O resultado preliminar será divulgado em 31 de julho, o resultado final em 4 de agosto e o início da comercialização está previsto para 6 de agosto, quando a feira retorna após o recesso acadêmico. As inscrições devem ser feitas pelo formulário disponível no site da Proece (Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Esporte) da UFMS.

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