MS mira investimentos de energia solar travados no Nordeste
Estado quer atrair bilhões de reais, mas esforço esbarra em gargalos de transmissão e distribuição
Com projetos travados no Nordeste por gargalos regulatórios e operacionais, o governo de Mato Grosso do Sul tenta firmar a região como nova fronteira para ampliar investimentos em energia solar. A intenção é aproveitar essa janela de oportunidade mesmo diante de limitações na capacidade de escoamento da própria rede.
RESUMO
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Para avançar, a estratégia passa pela expansão da infraestrutura de transmissão, sobretudo pelos leilões federais em curso, e pela consolidação de um ambiente regulatório mais estável, visto como peça-chave para destravar o potencial de crescimento do segmento. A análise é do economista Jaime Verruck, recém-saído do comando da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), que destaca a necessidade de destravar projetos em processo de análise e de definições.
Segundo dados da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica) enviados ao Campo Grande News, o estado soma cerca de 1,6 GW em outorgas para novas usinas solares, com base em informações da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Esses pedidos refletem o interesse do mercado, mas não garantem a execução dos projetos, que podem ser suspensos por entraves regulatórios, limitações na rede ou mudanças nas condições econômicas.
Ainda assim, o volume chama atenção quando comparado à capacidade atual de geração centralizada no estado, de apenas 13,9 MW. Caso saiam do papel, principalmente os grandes projetos, somados aos da Casa dos Ventos, esses investimentos têm potencial para ampliar significativamente a capacidade instalada e reposicionar Mato Grosso do Sul no mapa da energia solar do País.
A companhia, líder nacional em energia eólica no Nordeste, prevê investir R$ 5,2 bilhões no território sul-mato-grossense até 2027, quando estarão em operação os três projetos que somam 1,53 GW de capacidade instalada no estado. Procurada, a empresa afirmou que mantém os investimentos em Mato Grosso do Sul, mas não comentou eventuais mudanças nos planos de investidores que cogitam migrar do Nordeste para outros cantos brasileiros.
Para Verruck, a decisão da empresa reforça a competitividade do estado em relação a outras regiões, como o Nordeste. Os investimentos da empresa previstos para Mato Grosso do Sul representam mais da metade dos R$ 12 bilhões que prevê investir no Brasil até 2030.
Avanço e gargalos
Hoje, o estado se destaca pelo elevado número de empreendimentos solares. Segundo dados da Aneel, aos quais a reportagem teve acesso, Mato Grosso do Sul conta com cerca de 2,9 mil usinas em operação. Além disso, há 33 projetos com outorga concedida que ainda não saíram do papel e outros 15 em construção.
O avanço da fonte energética também reflete iniciativas de eletrificação em áreas remotas, como o Programa Ilumina Pantanal, que ganhou reconhecimento internacional.
Para efeito de comparação, o Brasil possui cerca de 18,7 mil empreendimentos solares em operação. Em 2025, o país ultrapassou 60 GW de potência instalada, considerando tanto a geração de sistemas em telhados e pequenas usinas (42,05 GW) quanto as grandes usinas (17,95 GW).
A Absolar avalia que Mato Grosso do Sul reúne condições favoráveis para atrair investimentos, como disponibilidade de áreas a custos mais competitivos, localização estratégica e elevada irradiação solar. Há ainda sinergia com o agronegócio, com aplicações “on-grid” (conectada à rede), “off-grid” (desconectados da rede e com uso de baterias) e projetos híbridos (conectados à rede com uso de baterias).
Apesar disso, a limitação na infraestrutura de transmissão e de distribuição segue como principal entrave. O descompasso entre geração e escoamento eleva o risco de “curtailment” (cortes de produção de energia) e “já influencia decisões de investidores em outras regiões do país”.
Para a associação, o estado só conseguirá sustentar o potencial avanço se os investimentos em transmissão seguirem no mesmo ritmo da expansão dos parques solares. Sem isso, parte do potencial pode ficar represada, apesar das condições favoráveis.
Conforme observa, sem “a expansão coordenada da rede, os mesmos entraves hoje observados no Nordeste tendem a se repetir em outras regiões”. Assim, embora o estado tenha vantagens comparativas, a atração consistente de novos projetos dependerá de avanços estruturais na infraestrutura elétrica, além de maior previsibilidade regulatória e estabilidade tributária.”
Um mapeamento do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para o período de 2026 a 2030 indica avanço acelerado da geração solar distribuída (sistemas em telhados e pequenas usinas), em diversos estados, incluindo Mato Grosso do Sul. Esse crescimento já começa a reduzir a necessidade de despacho de grandes usinas e, em alguns momentos, leva à produção acima do consumo local.
O fenômeno impõe desafios ao sistema elétrico, já que a infraestrutura não foi dimensionada para esse ritmo. Em cenários de excesso, a energia passa a fluir no sentido inverso da rede (fluxo reverso), reduzindo a flexibilidade operacional e podendo levar ao corte de geração das fontes para garantir a estabilidade.
Leilões e armazenamento
Verruck afirma que o governo aposta em novos leilões de transmissão previstos para 2026 para ampliar a capacidade de escoamento e tornar o estado mais atrativo. Procurada, a Semasdesc não retornou pedido de entrevista.
A principal expectativa recai sobre o leilão de sistemas de armazenamento por baterias (BESS), em estruturação pelo Ministério de Minas e Energia. A tecnologia permite armazenar energia solar durante o dia para uso no pico noturno, entre 18h e 21h.
Ainda há incertezas sobre o modelo do leilão, se incluirá apenas novos projetos ou também usinas já existentes. O certame, voltado à contratação de “capacidade firme” para o Sistema Interligado Nacional, ainda depende de definições regulatórias.
Além disso, novos leilões de transmissão devem incluir obras estruturantes para o Centro-Oeste, consideradas essenciais para evitar gargalos e viabilizar a conexão de novos projetos.
No mercado, o cenário é de cautela, já que sem regras claras e garantias de contratação, investidores aguardam definições antes de avançar com novos aportes.
Frustração de investimentos
Dados da Absolar mostram ainda que o setor deixou de investir R$ 5,9 bilhões na capacidade produtiva em 2025, a maioria no Nordeste, o que impediu a geração de cerca de 53 mil empregos.
Dos 4,6 GW previstos, apenas 2,8 GW foram efetivamente instalados (61%). Além disso, 106 usinas já autorizadas tiveram projetos abandonados, somando R$ 14,5 bilhões em investimentos não realizados e cerca de 132 mil empregos não gerados.
Embora Mato Grosso do Sul também enfrente limitações, Verruck afirma que os impactos mais severos têm ocorrido no Nordeste, onde a rede não consegue absorver o volume de geração.
“Isso faz com que projetos operem abaixo da capacidade, comprometendo o retorno financeiro dos investimentos”, afirma.
Oportunidade e disputa
Apesar de desafios, o estado tem sido procurado por empresas interessadas em diversificar riscos e se aproximar dos principais centros consumidores, como Sul e Sudeste, segundo disse.
Nesse caso, Verruck destaca que o estado desponta como alternativa competitiva, especialmente pela localização estratégica. “O esforço agora é intensificar a atração dessas empresas, apresentando as vantagens do estado como destino para novos investimentos.”
Entre os atrativos, estão o licenciamento ambiental simplificado para projetos solares e benefícios fiscais, como a redução do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) na aquisição de equipamentos. O governo também finaliza um plano de transição energética alinhado à meta de neutralidade de carbono, com foco na expansão da energia solar e da biomassa.
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