ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
SETEMBRO, TERÇA  08    CAMPO GRANDE 18º

Economia

Saída da pobreza esbarra na falta de rede de apoio para cuidar dos filhos

Doméstica quer se qualificar profissionalmente, porém depende de uma rede de apoio

Por Duda Schindler e Fernanda Palheta | 08/09/2026 10:00
Saída da pobreza esbarra na falta de rede de apoio para cuidar dos filhos
Valquiria Lino Costa é mão solo de duas meninas, de 10 e 4 anos. (Foto: Osmar Veiga)

Quando os R$ 450 do Mais Social caem na conta, por volta dos dias 21 e 22, o salário de Valquiria Lino Costa, de 41 anos, geralmente já está no fim. Empregada com carteira assinada como doméstica e responsável pelas duas filhas, de 10 e 4 anos, ela usa o benefício principalmente para alimentação, roupas e medicamentos.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Valquiria Lino Costa, de 41 anos, mãe solo de duas filhas, recebe R$ 450 do programa Mais Social do governo de Mato Grosso do Sul para complementar sua renda como doméstica. O benefício cobre despesas básicas, mas ela enfrenta dificuldades para retomar os estudos por falta de apoio no cuidado das filhas. O programa prevê auxílios adicionais para mães que voltam a estudar, mas Valquiria questiona a ausência de suporte além do financeiro.

O auxílio dá fôlego ao orçamento, mas ainda não resolve uma dificuldade que pode impedir Valquiria de avançar profissionalmente: quem ficará com as meninas caso ela volte a estudar.

“Quando você acha que vai sair do sufoco, acontece alguma coisa e você volta de novo”, resume.

Valquiria concluiu o ensino médio e gostaria de continuar os estudos com um curso ligado à moda, área pela qual se interessa desde a adolescência. O problema é que as aulas são, em geral, oferecidas à noite, e ela precisaria pagar alguém para cuidar das filhas.

A preocupação tende a aumentar no próximo ano, quando a mais nova deixar a creche em período integral e passar a frequentar a escola.

“Eu vou precisar de alguém para olhar elas no restante do dia, porque eu não trabalho só meio período. E não é barato uma babá ou uma pessoa que vai pegar da escola, trazer e dar almoço”, afirma.

Beneficiária do Mais Social há cerca de cinco anos, ela diz que pretende deixar o programa quando conseguir melhorar a condição financeira da família. Até lá, o dinheiro continua funcionando como complemento da renda.

“Me ajuda muito em relação a manter a casa. É alimentação, vestuário, medicação”, conta.

A experiência de Valquiria ajuda a mostrar tanto o alcance quanto os limites de uma das propostas defendidas pelo Governo de Mato Grosso do Sul para os programas de assistência social: fazer com que o auxílio funcione como uma ponte até a autonomia financeira.

Saída da pobreza esbarra na falta de rede de apoio para cuidar dos filhos
Patrícia Cozzolino, secretaria da Sead-MS. (Foto: Paulo Francis)

Erradicar a pobreza

A proposta do Governo de Mato Grosso do Sul vai além da transferência de renda. Por meio do programa Sem Deixar Ninguém para Trás, a Sead-MS (Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos) reúne benefícios, qualificação profissional, educação e outras ações voltadas a famílias em situação de vulnerabilidade, com a meta de criar condições para que elas deixem gradualmente a dependência dos auxílios.

A secretária Patrícia Elias Cozzolino de Oliveira afirma que mudanças nas regras foram feitas justamente para evitar que o acesso ao emprego provoque a perda imediata do benefício. Atualmente, segundo ela, quem consegue trabalho com carteira assinada pode continuar recebendo o Mais Social, desde que a renda familiar per capita permaneça em até meio salário mínimo.

A política também prevê complementos para mulheres atendidas pelo programa. Conforme Patrícia, mães chefes de família que retornam aos estudos podem receber R$ 300 adicionais. Também há previsão de R$ 600 por filho para o custeio de creche privada, desde que a família atenda aos critérios estabelecidos.

O caso de Valquiria mostra que ter renda e receber o benefício não significa necessariamente encontrar condições para avançar profissionalmente. Mesmo querendo voltar a estudar, ela ainda esbarra na falta de uma rede de apoio para cuidar das filhas.

Para receber o auxílio-creche, a mulher precisa estar empregada ou contribuir com a Previdência como autônoma, além de comprovar a contratação de uma instituição regularizada.

Valquiria questiona justamente o suporte disponível depois que a criança deixa a creche em período integral.

“Eu acho que falta aquele olhar um pouquinho mais minucioso para a gente, para as mulheres chefes de famílias, e não precisa ser necessariamente financeiramente”, diz.

Segundo Patrícia, cerca de 95% dos beneficiários do Mais Social são mulheres. A secretaria também afirma que a estratégia adotada nos últimos anos busca localizar famílias em situação de pobreza que estavam fora dos cadastros tradicionais.

A partir de 2023, conforme a pasta, equipes visitaram mais de 26 mil endereços nos 79 municípios de Mato Grosso do Sul após o cruzamento de diferentes bases de dados.

Patrícia afirma ainda que 44 mil famílias deixaram a situação de insegurança alimentar. Segundo ela, o número tem como base dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Na casa de Valquiria, os efeitos do programa são sentidos mês a mês. O benefício cobre parte das despesas básicas, mas o próximo passo, voltar a estudar para buscar uma renda maior, ainda depende de encontrar uma solução para o cuidado das filhas.