Mercado existe, voo não: o paradoxo entre Campo Grande e Cuiabá
Força econômica dos dois estados contrasta com a ausência de uma ligação aérea direta entre suas capitais

Campo Grande e Cuiabá estão separadas por pouco mais de 550 quilômetros em linha reta. São capitais de dois estados economicamente fortes, protagonistas do agronegócio brasileiro e ligados por relações empresariais, políticas e comerciais. Mesmo assim, quem precisa viajar de avião entre as duas cidades não encontra um voo direto.
RESUMO
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Campo Grande e Cuiabá, capitais separadas por 550 quilômetros, não possuem voo direto, apesar de representarem dois dos maiores polos do agronegócio brasileiro. A última companhia a operar a rota foi a Azul, que encerrou o trecho sem justificativa pública. Especialistas e entidades empresariais questionam por que mercados tão relevantes permanecem desconectados, enquanto passageiros enfrentam longas conexões para percorrer distância que poderia ser vencida em pouco mais de uma hora.
É um daqueles paradoxos difíceis de explicar apenas com a lógica do mercado.
A ligação aérea já existiu e foi operada por diferentes companhias. A última a manter o trecho foi a Azul, que também acabou retirando a rota de sua malha. O resultado é que uma viagem que poderia durar pouco mais de uma hora passou a depender de longas conexões, muitas vezes levando o passageiro primeiro para uma cidade distante para depois fazê-lo retornar ao Centro-Oeste.
No mapa, Campo Grande e Cuiabá são praticamente vizinhas. Na aviação comercial, tornaram-se distantes.
A pergunta que merece resposta é simples: por que não há interesse das companhias aéreas em uma rota entre duas capitais economicamente relevantes e com potencial de passageiros?
O questionamento ganha ainda mais força porque, quando existiam voos diretos, era comum observar aeronaves com boa ocupação. Se havia passageiros, por que a rota deixou de ser economicamente interessante? O problema estava no número de clientes, no preço das passagens, no custo operacional, nos horários oferecidos ou na estratégia das empresas de concentrar passageiros em seus grandes centros de conexão?
São informações que as companhias poderiam tornar públicas.
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul estão entre os grandes protagonistas da produção agropecuária brasileira. São estados que movimentam bilhões de reais em soja, milho, pecuária, celulose, mineração, indústria e serviços. Campo Grande e Cuiabá concentram empresas, entidades empresariais, órgãos públicos, universidades, hospitais e uma intensa agenda de negócios.
Não se trata, portanto, de reivindicar uma ligação aérea entre mercados economicamente insignificantes.
Há ainda outro aspecto: uma rota não precisa necessariamente ser operada por aeronaves maiores. Se o número de passageiros não sustenta determinados modelos de avião ou várias frequências diárias, por que não testar equipamentos menores, ajustando capacidade e frequência à demanda?
A própria aviação regional existe justamente para isso.
Uma aeronave de menor capacidade, com horários adequados principalmente ao passageiro corporativo — saída pela manhã e retorno no fim do dia, por exemplo — poderia oferecer uma alternativa economicamente mais racional. O importante seria construir uma operação compatível com o tamanho real do mercado, em vez de simplesmente eliminar a ligação.
A ausência do voo também deveria provocar os governos de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, entidades empresariais, federações da indústria, comércio e agricultura. Se existe demanda econômica entre os estados, é razoável discutir com as empresas aéreas quais obstáculos impedem a retomada da rota e o que pode ser feito para torná-la sustentável.
Não significa defender subsídio permanente ou dinheiro público para bancar avião vazio. Significa compreender por que um mercado aparentemente existente não consegue permanecer conectado.
Enquanto isso, empresários, profissionais liberais, servidores, políticos e turistas precisam enfrentar horas de estrada ou conexões aéreas pouco razoáveis para percorrer uma distância relativamente pequena.
Num Centro-Oeste que produz, exporta, atrai bilhões em investimentos e reivindica infraestrutura compatível com seu crescimento, é contraditório que duas de suas principais capitais estejam tão próximas economicamente e tão distantes pelo ar.
Campo Grande e Cuiabá não precisam apenas de um voo.
Precisam, primeiro, de uma explicação convincente sobre por que ele não existe.

