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Campo Grande, Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

10/06/2019 07:53

A cada 2 anos, mutirão de filhos recupera azul e amarelo na casa feita pelo pai

É uma das primeiras residências da Vila Popular, levantada em um tempo difícil, o que fortaleceu a união da família

Alana Portela
Casa de madeira está localizada na Vila Popular (Foto: Henrique Kawaminami)Casa de madeira está localizada na Vila Popular (Foto: Henrique Kawaminami)

Há 49 anos na Vila Popular, casa simples de madeira pintada de azul e amarelo mantém a família unida. Quem passa pela rua Joana Irala, logo percebe o lugar, graças ao colorido. No local tudo combina, o teto com a porta e o piso, janelas com a parede interna e alguns móveis. Os tons foram escolhidos em 1970 e dona Sebastiana, 83 anos, ao lado dos filhos, faz questão de preservar a originalidade.

A residência chama atenção pelo aspecto e, ao observar mais de perto, é possível ver algumas flores no jardim que deixam o ambiente ainda mais decorado. O lar foi construído por Emiliano Ângelo Gonçalves, falecido esposo de dona Sebastiana. Na época, ele recebeu uma indenização do trabalho e aproveitou o dinheiro para comprar um terreno e abrigar a família. Foi uma das primeiras casas da Vila Popular, e cada tábua é conservada pelos herdeiros que querem envelhecer ao lado da mãe, que ainda mora no local.

Selma é filha de Sebastiana e Emiliano, cresceu na casa, porém construiu sua família e se mudou para uma residência perto da mãe. Ela conta que o local é ponto de encontro da família. “Todo final de ano a gente se reúne, e ninguém aceita ir para outro lugar. O meu pai se foi há alguns anos. Contudo, minha mãe ficou e temos que cuidá-la. É a nossa vez de ajudar. Aqui é o pedaço dela”, afirma.

Sentados ao redor de uma mesa, no meio dos fundos da casa, Eduardo Gonçalves, 59 anos, também ajuda a lembra da história do local, já que a mãe é tímida, prefere observar os filhos relembrando do passado e concorda com cada detalhe. 

“Nos mudamos para cá quando eu tinha por volta de 9 anos. Meu pai trabalhou por muitos anos em frigoríficos. Aqui próximo, havia um bairro chamado Bordon, onde morávamos e também tinha um frigorífico”, relata Eduardo.

Sentado ao lado da mãe, Eduardo conta a história da residência (Foto: Alana Portela)Sentado ao lado da mãe, Eduardo conta a história da residência (Foto: Alana Portela)
Selma sentada no sofá ao lado da mãe Sebstiana (Foto: Henrique Kawaminami)Selma sentada no sofá ao lado da mãe Sebstiana (Foto: Henrique Kawaminami)

Conforme o filho, Emiliano escolheu construir a residência de madeira e resistentes pilastras de aroeira por conta do valor. “A madeira era o único meio de construir a casa porque tijolos eram caros. Depois de comprar os materiais, ele contratou um construtor e falou como queria. Na época, tinha apenas duas casas nessa região, a nossa foi a terceira, e no entorno daqui era mato. Lembro que mudamos para cá e tivemos bons momentos. É onde crescemos”, recordou o filho.

O pai de Eduardo queria um espaço confortável, onde pudesse estar sempre ao lado da esposa e dos filhos. Após erguer as tábuas e fazer as paredes da casa, Emiliano comprou as telhas para cobrir o telhado e também forrou o teto com ripinhas envernizadas, para manter a temperatura.

Antes de se mudar, na intenção de agradar a esposa, ele pintou a casa de azul, plantou um pé de bananeira, deixou um espaço no quintal para Sebastiana plantar suas flores e enfeitar o local, mesmo sem serviços básicos.

“Quando viemos morar aqui não tinha água nem luz. Fizemos um poço no quintal de casa para ter água e a luz era de lamparina. Com o tempo, o bairro passou a desenvolver e novas casas foram construídas. Depois disso que colocaram energia, e em seguida veio a água encanada”, explica Eduardo.

Com uma das poucas residências na região, ele cercou com madeira e arame para garantir a segurança. “Com o tempo a cerca apodreceu por conta da chuva e sol, aí construímos essa de concreto e grade”, falou.

Na foto, a lembrança das reuniões que fazem no local com a família  (Foto: Alana Portela)Na foto, a lembrança das reuniões que fazem no local com a família (Foto: Alana Portela)

Tempos depois, o pai de Emiliano, que morava em Corumbá, ficou doente, e após isso teve de construir uma edícula de madeira nos fundos do quintal para trazê-lo para perto. O avô de Eduardo e Selma viveu alguns anos por lá até falecer e, em seguida, o lugar foi reformado com tijolos para servir de moradia aos filhos que ficavam adultos. Atualmente, quem mora no local é Eduardo e faz companhia para a mãe Sebastiana.

A casa quase não mudou desde que foi construída, e ainda continuam os móveis de madeira combinando com a estrutura rústica do local, como o quarto de dona Sebastiana, com um guarda-roupas antigo de cor avermelhada, fazendo “par” com a cama, teto e chão que são do mesmo tom.  “Ela gosta muito de madeira e de coisas antigas, e suas cores preferidas são amarela e azul”, afirmou Selma.

 

Selma e Sebastiana são unidas e a filha sempre está ajudando a mãe na casa (Foto: Henrique Kawaminami)Selma e Sebastiana são unidas e a filha sempre está ajudando a mãe na casa (Foto: Henrique Kawaminami)

Recordações - Uma das primeiras lembranças da infância que passa na cabeça de Eduardo, é a época que ia com o pai e os irmãos catar guavira. “Como era tudo mato, tinha muito essa fruta”, contou. Ele e os irmãos estudavam em uma escola no bairro Serradinho e tinham que ir a pé porque os pais sempre prezaram pela educação.

“Íamos andando até o colégio. Às vezes, conseguíamos pegar o ônibus que passava na vila do Bordon e nos levava até lá. Contudo, a volta era a pé mesmo. Nos dias de chuva era muito barro aqui. Em 1976 construíram a escola municipal Frederico Soares, estávamos no segundo grau e lembramos da divisão do Estado. Estávamos nessa escola e foi uma alegria que só”, complementa Selma.

A varanda dos fundos da casa construída pela família (Foto: Henrique Kawaminami)A varanda dos fundos da casa construída pela família (Foto: Henrique Kawaminami)
Selma mostra a casa da mãe e conta que as cores são as preferidas de Sebastiana (Foto: Alana Portela)Selma mostra a casa da mãe e conta que as cores são as preferidas de Sebastiana (Foto: Alana Portela)

Legado - Emiliano faleceu com 70 anos, na década de 90. No entanto, sempre foi o orgulho dos filhos que guardam muitas lembranças. “Trabalhava muito para nos sustentar. Fez a casa sozinho, mas com o passar dos anos resolvemos ajudar a melhorar, para minha mãe”, contou Eduardo.

“Muitas coisas aqui são novas. Fizemos uma varanda aqui nos fundos que faz sombra para reunir a família. Meu pai era muito família e depois do seu falecimento, minha mãe não quis mais casar. Naquele tempo era amor puro e verdadeiro”, destaca o filho. “Quis viver apena com meus filhos, sossegada”, completa dona Sebastiana.

O passar dos anos fez a madeira envelhecer e deteriorar, mas para preservar a residência, os filhos se unem a cada dois anos para pintar a casa. O local faz parte da história da família, diz Selma, por isso a importância de conservar. “A gente nunca pensou e nem pensa em se desfazer daqui porque é a memória do nosso pai e da minha mãe, e sempre estamos cuidando”.

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