Antes da Estação, piano de 80 anos vivia cercado de alunos e recitais
Instrumento preserva a memória de Terezinha, que dedicou a vida ao ensino de música a partir dos 22 anos

RESUMO
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A professora Therezinha Maria Mattos dedicou cerca de 30 anos ao ensino do piano em Campo Grande, formando gerações de alunos em aulas ministradas em sua própria residência. Nascida em Bauru, chegou à cidade em 1940 e se formou em piano e acordeão no conservatório de Campinas. Após sua morte, em 2009, o piano alemão que a acompanhou por décadas foi doado à Estação Ferroviária, onde está exposto como parte da memória cultural da cidade.
Quem vê o piano fechado na Estação Ferroviária talvez nem imagine a quantidade de mãos que já passaram por aquelas teclas. O instrumento pertenceu à professora Therezinha Maria Mattos e, antes de virar parte da memória de Campo Grande, passou cerca de 30 anos entre aulas particulares e recitais realizados dentro da casa dela.
Nascida em Bauru (SP), no interior de São Paulo, Therezinha chegou a Campo Grande em 1940, aos 6 anos de idade. Aos 9, ganhou seu primeiro e único piano, um instrumento de origem alemã que a acompanharia por décadas.
Ainda jovem, começou a estudar piano com o maestro que dava aulas na cidade e, posteriormente, foi para Campinas (SP), onde frequentou o conservatório e se formou em piano e acordeão. Em 1957, já formada, retornou a Campo Grande e passou a dar aulas particulares em casa, na Rua Dom Aquino, além de promover recitais de piano.
A música também teve papel importante dentro da própria família. Segundo o filho, o guia de turismo Carlos Neto, durante as aulas havia uma disciplina rigorosa em torno do instrumento. “Quando ela estava dando aula, você não podia chegar perto do piano e falar alguma coisa com ela”, recorda.
O trabalho de Therezinha não era apenas uma paixão: as aulas representavam uma importante fonte de renda para a família. O dinheiro que recebia com o piano ajudava a comprar roupas e a manter as despesas da casa, enquanto o marido ficava responsável por investimentos maiores, como terrenos e construção.
Hoje, mesmo após a morte da mãe, Carlos Neto conta que, por onde passa, ainda encontra pessoas que se lembram de Therezinha. Em suas viagens e no contato com diferentes pessoas, não é raro mencionar o nome dela e ouvir uma lembrança de suas antigas alunas e alunos: “Sua mãe já me deu aula”.
“De vez em quando, ainda hoje, a gente encontra alguma aluna da professora Therezinha. Muitas pessoas de Campo Grande estudaram piano com ela. Até no casamento dela, todas as damas eram alunas de piano”.
Carreira e recitais - Além das aulas, Therezinha também teve uma trajetória marcada por apresentações e participação em eventos musicais. No início, tocava acordeão em festas juninas e, posteriormente, passou a participar dos festivais de música realizados em Campo Grande, inclusive como jurada. Carlos lembra de acompanhar a mãe em algumas dessas ocasiões, entre elas os festivais promovidos por Dona Glorinha Sarrosa, no Teatro Glauce Rocha.

Os recitais promovidos por Therezinha também se tornaram uma tradição. Ao final de cada ano, ela reunia as alunas para apresentações de piano, em eventos que celebravam o aprendizado musical ao longo do período. Com o passar do tempo, porém, esse tipo de recital foi perdendo espaço e deixando de fazer parte da rotina. “Ela juntava todas as alunas, chegava no final do ano, fazia os festivais. E aí só foi perdendo de moda, foi parando de fazer esses festivais”, recorda Carlos.
As aulas de piano foram ministradas durante décadas dentro dos próprios endereços onde a família morou. Primeiro, na Rua Dom Aquino, no prédio dos Correios, e depois no Palácio do Comércio, onde Therezinha continuou ensinando por muitos anos.
Ao se mudar para um apartamento maior, em outro endereço, ela precisou interromper as atividades porque as regras do condomínio não permitiam o funcionamento de comércio ou aulas no local. Ao todo, foram cerca de 30 anos dedicados ao ensino do piano,
“Ela era uma artista incrível. A gente acabou dando poucas oportunidades para ela mostrar isso. Às vezes, nas festas de fim de ano, quando a família se reunia, a gente insistia para que ela se sentasse ao piano e tocasse para nós. Mas isso era algo muito raro. Ela não se apresentava em público. Ela sempre tocou no mesmo piano, desde que ganhou”.
Therezinha morreu em 2009, mas o piano que acompanhou sua trajetória continuou carregando parte dessa história. Com o passar das décadas, o instrumento perdeu o valor comercial e já apresentava problemas nas cordas, além de estar desafinado.

A família chegou a colocá-lo à venda, mas, após uma avaliação técnica, descobriu que o custo da restauração seria maior do que o de comprar um piano novo. Carlos e os irmãos decidiram doar o instrumento, preservando não seu valor financeiro, mas a memória que ele representa.
Hoje, exposto na Estação Ferroviária, o piano permanece como uma lembrança silenciosa da trajetória de uma mulher que fez da música profissão, sustento e legado. Carlos pretende ainda colocar um painel ao lado do instrumento para contar aos visitantes quem foi Therezinha e a importância daquele piano.
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