Ilustradora Guarani transforma os próprios sonhos em obras de arte
Novo livro reúne ilustrações da artista e texto de Daniel Munduruku
Para a ilustradora Guarani Miguela Peralta, sonhar é muito mais do que uma experiência do sono. É desse universo que surgem as imagens que mais tarde ganham forma no papel. Inspirada pela forma como o povo Guarani compreende os sonhos, a artista sul-mato-grossense ilustrou o novo livro do escritor indígena Daniel Munduruku e mostra como a arte pode fortalecer a identidade indígena e valorizar narrativas ancestrais.
"Eu só pinto os meus sonhos. Todas as obras que apresentei aqui foram sonhadas por mim. Depois eu utilizo o desenho para colocá-las na realidade", explica.
Segundo Miguela, na cultura Guarani o sonhar é entendido como uma tecnologia espiritual de bem-viver. Mais do que uma inspiração artística, ele orienta a forma de enxergar o mundo e de construir novos caminhos.
"Quando a gente sonha, tem um porquê, tem um significado. A gente entende esse sonhar como uma tecnologia espiritual de bem-viver. É um exercício de fazer acontecer um mundo mais acolhedor, onde o bem-estar seja prioridade", pontua.
A artista levou esse olhar para as páginas de "Kurupira Existe Sim", novo livro de Daniel Munduruku, um dos principais nomes da literatura indígena brasileira. Para ela, transformar em ilustração as ideias do autor foi um desafio e, ao mesmo tempo, um reconhecimento de sua trajetória.
"É uma grande honra ilustrar um artista que é referência não só na literatura, mas também no pensamento indígena. A escrita do Daniel abre muito a nossa mente. Ele coloca essas histórias no cotidiano, mostrando que elas fazem parte da nossa forma de viver", destaca.
Além da obra com Munduruku, Miguela também apresenta o livro "Jasy Jaterê", escrito por Jenny Nunes, no qual assina as ilustrações. A publicação resgata a origem Guarani do personagem popularmente conhecido como Saci, valorizando uma narrativa muitas vezes tratada apenas como folclore.
"A minha missão, enquanto ilustradora, é trazer dignidade para essas histórias. Elas não são apenas histórias para entreter. São formas de explicar a nossa visão de mundo e a maneira como nos relacionamos com a natureza e com as pessoas", avalia.
A ilustradora também destaca a literatura indígena como uma ferramenta de combate ao racismo e de valorização da identidade dos povos originários, especialmente em Mato Grosso do Sul, onde a presença indígena é forte.
"A literatura apresenta a nossa cultura de forma respeitosa. Ela ajuda as pessoas a reconhecerem essa herança e a se sentirem pertencentes", afirma.
Terceira geração de artistas da família, Miguela conta que cresceu cercada pelas tintas do avô e do pai. Mais tarde, depois do nascimento do primeiro filho, decidiu transformar em livros as histórias que ouviu da mãe e da avó para que outras crianças também pudessem conhecer esse patrimônio cultural.
Hoje, aos 29 anos, ela comemora novos projetos editoriais. Além do lançamento com Daniel Munduruku, a ilustradora prepara outros quatro livros previstos para este ano.
"É muito bonito ocupar esses espaços enquanto mulher indígena. Espero que cada vez mais eventos como a FLIB tenham presenças indígenas marcantes. Esse espaço também é nosso", finaliza.
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