“Rins” e “Antenas”, o pensamento de Golbery para criar o MS
A assinatura da criação do Mato Grosso do Sul veio pela caneta de Geisel. O presidente, no entanto, era um homem sem alma. Desde a morte de seu filho em um acidente, apenas cumpria seu desígnio militar. Nem mesmo no processo que o levou ao poder teve alguma participação. Apenas aguardou a decisão. Golbery, ao contrário, era a alma do governo. Um homem inflamado por mudanças que urgiam há muito tempo. Foi o mais brilhante dos generais brasileiros de todos os tempos. Um intelectual castrense sem similar.
Os “Rins” do Brasil.
Para Golbery, o controle do Centro Oeste era condição “ sine qua non” para a manutenção da unidade brasileira. Vulnerável a ataques marítimos, especialmente da Argentina, receio antigo da época do pensamento do exército de Mário Travassos, e desconectado do poder existente no litoral brasileiro, era um elemento chave para que o país deixasse de ser um “arquipélago frágil”. Esse era o cerne do pensamento de Golbery: o Brasil é um arquipélago composto por ilhas com imenso poder, e outras sem poder algum. O grande vazio populacional do Mato Grosso do Sul deveria ser conectado às ilhas de poder. As metáforas criadas por Golbery elucidavam seu pensamento. Para ele, o Mato Grosso do Sul era um dos mais importantes “rins” brasileiros. Sua função seria de filtrar as ameaças externas - leia-se da Argentina - funcionando como uma gigantesca zona de amortecimento contra as instabilidades recorrentes.
Uma “Antena” voltada para os vizinhos.
O MS era também, para Golbery, uma “antena” voltada para a Bacia do Rio da Prata. O controle do Atlântico Sul era visto como vital para a segurança e o comércio, uma área de projeção de poder naval e de influência sobre os vizinhos Paraguai, Bolívia, Uruguai e Argentina. Essa arquitetura - um “heartland” central, ilhas de poder a serem integradas, rins de filtragem e antenas de projeção - compunha um projeto geopolítico completo, uma verdadeira “planta baixa da construção do poder nacional".
A “Marcha para o Oeste” ressuscitada.
A ideia não pertence a Golbery. A “Marcha para o Oeste” surgiu no Estado Novo de Getulio Vargas. Mas foi Golbery que a ressuscitou. O lema passou a ser “Integrar para não Entregar”. Fincar a bandeira da soberania brasileira em território vulnerável a ataques estrangeiros. A proposta era levar estradas, pontes, hospitais, escolas… um imenso aparato governamental à fronteira. Como o Paraguai foi, durante décadas, uma “antena“ argentina, a ocupação da fronteira teria de ser definitiva. Golbery não era um mero intelectual parindo ideias apenas à partir de leituras, conhecia a região. Viveu no Paraguai durante sete meses. O nascimento do MS era parte fundamental de um grandioso planejamento estratégico.
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