ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, SEGUNDA  13    CAMPO GRANDE 14º

Cidades

Poucas imagens e 153 mortes: a zona cega das ações policiais em MS

Versões oficiais predominam onde faltam câmeras, testemunhas e registros capazes de reconstruir cada caso

Gabriel Neris | 13/07/2026 09:02

Poucas imagens ajudam a revelar como ocorreram as ações policiais que deixaram 153 mortos em Mato Grosso do Sul entre o início de 2025 e esta segunda-feira (13). No ano passado, foram 73 vítimas em 64 ocorrências. Neste ano, o total já chegou a 80 mortes, superando todo o registro de 2025.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Entre o início de 2025 e 13 de abril de 2026, 153 pessoas morreram em ações policiais no Mato Grosso do Sul. A maioria dos casos não tem imagens do momento exato da abordagem, dificultando a apuração independente. Quando vídeos surgem, podem contradizer a versão oficial, como nos casos de Wellington Vieira, em Anastácio, e Rafael Costa, em Campo Grande, que resultaram na prisão de policiais militares envolvidos.

Os números, porém, revelam apenas parte da história. Em muitas dessas ocorrências, a primeira versão que chega ao público é apresentada pelos próprios agentes envolvidos na ação. O suspeito teria reagido, apontado uma arma, avançado contra a equipe ou atirado primeiro. Sem testemunhas independentes ou imagens do momento exato da abordagem, resta à investigação confrontar esse relato com perícias, depoimentos e outros elementos de prova.

A geografia desses episódios ajuda a explicar parte da dificuldade para obter registros independentes. Há casos em regiões de mata, chácaras, granjas, propriedades rurais, estradas e pontos afastados dos centros urbanos. Mas as mortes também ocorrem em bairros populosos, casas, avenidas e ruas movimentadas, lugares onde, em tese, câmeras de segurança poderiam existir.

Somente entre os casos mais recentes contabilizados pelo Campo Grande News, houve mortes na Avenida Duque de Caxias, no Bairro Nova Campo Grande, na Capital; no Bairro Shalom, em Caarapó; em uma propriedade rural de Corumbá; e na Rua Euclides da Cunha, no Bairro Capitão Vigário, novamente em Caarapó.

Poucas imagens e 153 mortes: a zona cega das ações policiais em MS
Rafael da Silva Costa, de 35 anos, morreu na sexta-feira, dia 21 de novembro (Foto: Redes Sociais)

Estar em uma área urbana, porém, não significa que imagens da ação chegarão ao público. As câmeras podem não existir, não alcançar o ponto exato da ocorrência, não estar funcionando ou ter as gravações mantidas sob sigilo. A ausência de vídeo, por si só, não prova irregularidade. Mas também não confirma automaticamente a versão oficial. Significa apenas que existem menos elementos independentes disponíveis para reconstruir o que aconteceu.

E, quando uma gravação aparece, ela pode mudar completamente o rumo de um caso.

Em março de 2026, Wellington dos Santos Vieira, de 27 anos, morreu durante uma abordagem da Polícia Militar em Anastácio. A versão inicial sustentava que ele teria sacado uma faca e avançado contra os policiais. Um vídeo obtido pela reportagem, porém, mostrou Wellington tentando fugir no momento em que foi atingido.

A gravação passou a ser elemento central da investigação. Dois policiais militares foram presos temporariamente e afastados. O caso mostra que, em 2026, houve pelo menos um registro conhecido do momento de uma ação policial que terminou em morte.

Em 2025, também houve casos em que imagens colocaram em dúvida a versão inicialmente apresentada pelas forças de segurança. Rafael da Silva Costa, de 35 anos, morreu após uma abordagem no Bairro Tarsila do Amaral, em Campo Grande. Imagens de câmeras de segurança mostraram parte da ação e foram usadas para questionar a alegação de que ele teria resistido aos policiais. Posteriormente, dois militares foram presos e passaram a responder judicialmente pelo caso.

Há diferença entre vídeos relacionados a uma ocorrência e imagens que mostram o momento exato da ação policial.

Em maio de 2025, a reportagem publicou imagens de Erick Miranda Gomes de Souza tentando arrombar o portão de uma residência. Dias depois, ele morreu durante uma ação policial. A gravação divulgada, porém, registrava um episódio anterior e não o momento da abordagem que terminou em morte.

Poucas imagens e 153 mortes: a zona cega das ações policiais em MS
Laudo mostra ferimento de entrada, onde bala ficou alojada e rosto de Wellington dos Santos Vieira (Foto: Reprodução)

Em abril, o comando da Polícia Militar informou que a adoção de câmeras corporais não era prioridade imediata para a corporação, embora tenha declarado apoio ao uso da tecnologia.

Nos casos sem imagens da ação, a investigação depende de perícias, laudos, depoimentos, testemunhos e das versões apresentadas pelos agentes envolvidos na ocorrência.

Outro lado - Desde sexta-feira (10), a reportagem solicita posicionamento da Polícia Civil, da Polícia Militar e da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) sobre a existência e preservação de imagens, testemunhas independentes, andamento das investigações e protocolos para registros audiovisuais em ocorrências com mortes provocadas por agentes da segurança.

Nesta segunda-feira, a reportagem procurou a assessoria de comunicação do Governo do Estado. Até a publicação desta matéria, não houve resposta. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.