Músico troca estrada por 3 meses para transformar Capital em disco
Residência em Campo Grande terá criação com artistas locais e já começou derrubando a fama de lugar parado

RESUMO
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O músico mineiro Vitor Brauer, autor de mais de 30 discos, passará três meses em Campo Grande para uma residência artística que resultará em um álbum gravado em Mato Grosso do Sul. A estadia integra o projeto Tréinquinumpára, que prevê viver em cada capital brasileira e produzir um disco em cada uma. Ele se apresenta em 4 de outubro, em um quintal no Jardim Parati, com ingressos esgotados e nova data anunciada para o mês seguinte.
O músico mineiro Vitor Brauer desembarcou neste último fim de semana em Campo Grande para fazer mais do que uma passagem rápida pela cidade. Com mais de 30 discos lançados e uma trajetória construída principalmente no circuito independente, ele está morando temporariamente na Capital para uma residência artística que resultará em um álbum gravado em Mato Grosso do Sul.
Enquanto o projeto ainda começa a tomar forma, o artista já encontrou motivos para contrariar uma reclamação bastante conhecida entre os campo-grandenses: para ele, a cidade está longe de ser parada.
“Tô gostando, mas tá no começo ainda”, respondeu Vitor ao Lado B sobre a experiência na Capital. Quando questionado sobre o que mais havia chamado sua atenção, foi direto: “Não é uma cidade parada igual a maioria das pessoas daqui acha que é. Muito samba, muito bar, o pessoal é tão animado".
A estadia faz parte do Tréinquinumpára, projeto que deve ocupar uma década da vida do músico. A proposta é passar três meses em cada capital brasileira, conviver com artistas locais e produzir um disco em cada uma delas. Campo Grande é, portanto, mais uma peça de um mapa musical que Vitor pretende construir vivendo as cidades em vez de simplesmente desembarcar nelas para tocar e ir embora.

Por enquanto, ele admite que a etapa sul-mato-grossense ainda está no início. “Nem comecei a fazer o disco ainda direito também”, contou. A falta de pressa combina com a proposta de residência, já que o trabalho depende justamente da experiência na cidade e das conexões estabelecidas durante a temporada.
Antes que o disco fique pronto, porém, Campo Grande terá uma amostra ao vivo da trajetória do mineiro. Vitor se apresenta no domingo, dia 4 de outubro, às 16h, em um quintal no Jardim Parati.
O show terá formato de voz e guitarra e uma dinâmica incomum: cada pessoa da plateia poderá pedir uma música que ele saiba tocar. Como são apenas 40 lugares, a previsão é de até 40 pedidos durante uma apresentação que o próprio músico já avisa que será longa. Os ingressos esgotaram e o artista anunciou uma nova apresentação para o mês seguinte.
Até o horário de fechar as portas no Centro entrou na conversa sobre a Capital. Vitor pondera que o esvaziamento de determinadas regiões depois da meia-noite não é uma particularidade campo-grandense. Citou Florianópolis como exemplo e observou que há vida noturna em outras partes da cidade.
“Tem muito lugar que fica aberto pela periferia depois da meia-noite, tem lugar fechado de música eletrônica, tem barzinhos de playboy também que ficam abertos. É só ali no centrão que não ficam”, afirmou. Sobre a atuação policial, a percepção foi diferente: “O modo como a polícia lida com as coisas aqui parece ser mais sério mesmo”.
Mato Grosso do Sul será o último destino de Vitor Brauer em 2026. Depois de Campo Grande, o projeto Tréinquinumpára será retomado em 2027, com passagens previstas por São Paulo, Manaus e Brasília. “Cheguei, Campo Grande! 2026, parte 3. Foram 9 residências e 9 discos. Faltam 18. Já foi um terço, desanima não!”, escreveu o músico. Vitor preferiu não detalhar como será sua estadia na Capital, mantendo nas redes sociais o acompanhamento cotidiano da residência.
Em relatos anteriores sobre a vida na estrada, ele conta que costuma equilibrar economia e convivência: calcula os gastos com alimentação e, nas viagens, geralmente se hospeda na casa de amigos, experiência que considera parte importante das conexões construídas durante as turnês.
Da banda cover aos mais de 30 discos - Natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, Vitor começou a tocar quando tinha 12 anos, em 2001, numa banda cover de Deftones. Naquela época, segundo ele, produzir uma obra autoral em sua cidade parecia algo distante. O imaginário ainda era o de esperar ser descoberto por uma gravadora que pudesse bancar uma vida de “rockstar”. A internet, as redes sociais e a possibilidade de gravar de forma independente mudaram o caminho.
O que veio depois dificilmente cabe em uma única prateleira musical. Além da carreira solo, Vitor integra a Lupe de Lupe, ligada ao rock alternativo, o grupo de pagode Lencinho e projetos como Desgraça, Tristeza Não Tem Fim, Ginge e Xóõ.
No repertório acumulado ao longo dos anos aparecem referências que passam por rock, pagode, funk, punk, música brega, samba, heavy metal, folk e música eletrônica. A recusa em permanecer dentro de um gênero é parte central da maneira como ele entende a própria produção.

A independência, para Vitor, também não aparece apenas como discurso. Durante mais de uma década, ele percorreu todas as regiões brasileiras organizando as próprias turnês, muitas vezes sem patrocínio ou leis de incentivo. Em um texto no qual detalha custos, receitas e dificuldades desse circuito, defende que artistas precisam sair dos lugares confortáveis e circular pelo País.
“É preciso democratizar a arte, é preciso ir nos lugares longínquos, é preciso que nos forcemos a não nos estagnarmos num lugar confortável”, escreveu. Para ele, concentrar apresentações no Sul e no Sudeste ajuda a manter cenas musicais isoladas umas das outras.
Essa resistência também passa por uma ideia pouco compatível com a lógica tradicional de sucesso: Vitor diz não perseguir crescimento financeiro permanente. Ao detalhar como consegue se manter produzindo o que chama de “música esquisita”, contou que prefere reduzir despesas e continuar viajando, gravando e encontrando outros artistas.
“Viajar pelo país, conhecer o Brasil profundo, vale a pena. Ter essas experiências é o que faz tudo valer a pena”, escreveu. Agora, a estrada o trouxe a Mato Grosso do Sul. Entre bares, samba, um quintal com 40 pessoas e encontros que continuam por acontecer, Campo Grande deverá terminar transformada em disco.
Quem quiser acompanhar os próximos passos do projeto e conhecer mais sobre o trabalho de Vitor pode seguir o artista pelo Instagram, no perfil @vitorbrauer.

