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Campo Grande, Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

24/03/2019 08:43

Aos 37 anos, Evanilda encarou faculdade, voltou a viver em aldeia e hoje ensina

Professora em uma aldeia de Miranda, Evanilda conta como foi “perder” e “reconquistar” suas referências indígenas

Thailla Torres
Evanilda Rodrigues é professora indígena terena da aldeia Passarinho, em Miranda. (Foto: Luciano Justiniano)Evanilda Rodrigues é professora indígena terena da aldeia Passarinho, em Miranda. (Foto: Luciano Justiniano)

O tempo longe de casa fez com que Evanilda Rodrigues, hoje com 38 anos, perdesse suas referências. Nascida na aldeia Passarinho, em Miranda, a 208 quilômetros de Campo Grande, ela saiu cedo da morada indígena, o que mudou sua história e a fez esquecer por um tempo suas tradições.

“Eu não me reconhecia como indígena. Eu vivia os costumes de uma pessoa branca, mas ao olhar para o meu rosto, questionava como era possível ser uma indígena se eu nem conhecia minha própria história”, descreve Evanilda.

A família deixou a aldeia com Evanilda logo no seu primeiro ano de vida. “Meu pai foi ser funcionário na linha ferroviária. Mudamos para a cidade, onde passava a linha de trem. Então nasci e logo deixei a aldeia. Só retornei em 1993 com o falecimento da minha avó, mas nesse retorno eu já tinha 10 anos de idade”, lembra.

A revitalização da cultura através da dança é uma das atividades na escola. (Foto: Luciano Justiniano)A revitalização da cultura através da dança é uma das atividades na escola. (Foto: Luciano Justiniano)

Os estudos começaram nessa mesma idade. “Me sentia envergonhada, era a única da sala com 10 anos. Consegui chegar ao sétimo ano e parei de estudar”.

Evanilda abandonou os estudos aos 16 anos quando casou e teve dois filhos. “Mas já naquele tempo meu pensamento não saía da sala de aula. Eu sempre fui bem na escola, pensava que era um desperdício ter abandonado tudo”.

Cuidando dos filhos ela enfrentou um intervalo de 10 anos até voltar à escola. “Aos 27 anos iniciei meus estudos de novo, terminei o Ensino Fundamental e Médio. Nem todo mundo acreditava porque já havia passado muito tempo”.

Sua história mudou quando ele decidiu dar um novo passo. “Eu quis entrar na universidade. Minha mãe acreditava que era tarde, mas eu prestei o vestibular e consegui entrar em Pedagogia na UFGD (Universidade da Grande Dourados)”.

E foi a vida acadêmica que trouxe um novo olhar à Evanilda. “Eu não reconhecia minhas tradições, mas nunca estive satisfeita com isso. Queria voltar para minha comunidade e fazer algo transformador dentro dela. Foi quando no primeiro ano de faculdade eu tive oportunidade de saber como era ensinar de verdade”.

Evanilda passou a fazer um trabalho diferente com a comunidade indígena envolvendo artesanatos. “Não queria trabalhar somente com xerox e impressão com os alunos. Nossa aldeia era rica em em matéria prima, então eu pensava que era possível fazer os trabalhos de outras formas”.

Indígena terena, ela conta que demorou para reconhecer sua identidade étnica. (Foto: Luciano Justiniano)Indígena terena, ela conta que demorou para reconhecer sua identidade étnica. (Foto: Luciano Justiniano)

Ainda na universidade, Evanilda voltou à aldeia e encontrou uma situação desoladora. “Nossa cultura estava ameaçada. Na minha aldeia não tinha dança, não tinha artesanato, nem tradição, havia virado uma escola de pessoas brancas”, lembra.

Ela passou a lutar pela revitalização da cultura indígena, enfrentou preconceito pela resistência, mas seguiu adiante. “Na faculdade mesmo uma professora de Dourados falou das pulseiras e não se importava com o preconceito. Então eu decidi lutar pela minha comunidade e falei para os meus pais que morar fora me fez perder totalmente a noção do que é ser índio”.

Ela também não abre mão dos acessórios indígenas nem da pintura na sala de aula. “Ainda estou aprendendo a minha língua terena e sei que estou no caminho certo”.

Hoje, Evanilda é outra mulher. Criou um grupo de dança indígena com meninas de sua aldeia. Por três anos consecutivos teve um projeto de resgate cultural aprovados e financiados pela organização Brazil Foundation, uma das importantes organizações financiadoras do terceiro setor no Brasil. Recentemente iniciou o Projeto Tramas, que ensina artesanato indígena a um grupo de crianças das aldeias Moreira e Passarinho, em Miranda, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Ela também integra organizações indígenas de extrema importância para seu povo e já viajou para o exterior representando mulheres indígenas.

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