Após perder os pais em acidente, Lucas decide seguir com barbearia
Salão que nasceu simples hoje guarda lembranças e um filho que mantém negócio para honrar a memória deles
O som da risada, da tesoura e do pai cortando cabelo no salão é uma lembrança forte para Lucas Alves Tavares, de 27 anos. Ele seguiu o mesmo ofício, mas a barbearia também virou um lugar de memória. Entre espelhos, cadeiras e fios no chão, estão os pais, José Tavares Sobrinho e Zuleide Alves de Oliveira Tavares, que morreram em um acidente de carro há menos de 2 meses. Lucas evita falar sobre a perda. Prefere guardar o que ficou de bom e seguir trabalhando.
RESUMO
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Lucas Alves Tavares, de 27 anos, herdou a barbearia fundada pelo pai José Tavares Sobrinho em 1999, no bairro onde hoje é a Avenida dos Cafezais, em Londrina. Os pais de Lucas faleceram em um acidente de carro há menos de dois meses, e o jovem enfrenta a dor da perda mantendo vivo o legado familiar. Ele aprendeu o ofício com o pai e promete nunca abandonar o negócio.
Para ele, focar nas coisas boas que ficaram dos dois é o que ajuda a seguir. Foi o pai quem começou tudo, quando o bairro ainda era só rua de terra. No lugar onde hoje é a Avenida dos Cafezais, José montou a primeira barbearia.
“Meu pai construiu a barbearia aqui em 1999. Comprou o terreno, construiu a casa dele e depois o salão. O bairro ainda estava no início, tinha poucos moradores. Ele até me contou que várias vezes tinha uma porta aqui que dava acesso à casa dele. E ele colocava o colchão ali para dormir, porque ficava vários dias sem atender nenhum cliente. Foi bem difícil os primeiros anos.”
A dificuldade virou constância com o tempo. O bairro cresceu, os clientes chegaram e o salão deixou de ser incerteza para virar sustento e, depois, herança. Antes de assumir a cadeira, Lucas foi só um menino curioso e, como ele mesmo admite, nem tão interessado assim no começo.
“Eu lembro que quando eu era menor, com uns 12, 13 anos, eu já tive um interesse pela barbearia. Meu pai insistiu para mim, ele quis que eu aprendesse. Eu lembro que ele me pagava R$ 30 para eu ficar aqui vendo ele atender e varrer os cabelos. Aí eu não gostei, fiquei pouco tempo e parei.”
O retorno veio mais tarde, empurrado pela vontade de ter o próprio dinheiro. “Aí depois eu procurei ele quando eu tinha por volta de 14, 15 anos. Queria ganhar meu dinheiro, comprar minhas coisas. Eu pedi para ele me ensinar e fiquei.” O aprendizado começou no silêncio da observação. Olhar, repetir, errar e tentar de novo. Até o dia em que o pai decidiu que era hora de confiar.
“Eu lembro até hoje. Eu estava na casa de uma amiga e ele me ligou: ‘filho, eu consegui um cabelo para você cortar. Filho de um cliente, vem aqui’. Eu voltei de bicicleta, voltei rápido e vim cortar o cabelo do primeiro garotinho. Devia ter uns 7, 8 anos. Depois dali eu perdi o medo.”
De lá para cá, são 12 anos de profissão, embora, por muito tempo, isso não tivesse o peso de um propósito. Nos olhos de Lucas, a tristeza ao remexer nas lembranças do pai aparece. A ferida ainda está escancarada e, tão cedo, não vai se fechar. No coração, remorso, culpa e palavras que ele não disse, mas que saíram sem precisar ser comunicadas.
“Eu sempre fui um pouco disperso com a barbearia, não tinha muita vontade mesmo. Eu usava a barbearia meio que para me sustentar e tudo mais, mas nunca foi um propósito para mim. Eu sempre quis fazer outra coisa.”
A relação entre os dois nem sempre foi fácil, mas o tempo tratou de ajustar as coisas depois do nascimento do primeiro filho de Lucas. O pai sempre encorajou o filho e queria que ele seguisse na mesma profissão, além de ver potencial e talento nele.
“Eu tive uma relação difícil com meu pai no início, por um tempo, mas eu sou muito grato a Deus pelos últimos anos. Minha vida mudou muito, meus pensamentos, eu amadureci muito nos últimos 4 anos para cá, casei, tive filho e, graças a Deus, nesses últimos anos a gente se entendeu muito bem.”
Foi nesse período que vieram as memórias mais preciosas, inclusive a convivência entre gerações. “A relação dele com meu filho foi incrível. A gente se aproximou muito depois do nascimento. Parece que esses últimos anos foram realmente uma despedida, uma reaproximação que eu não consigo nem explicar.”
José tinha 60 anos e a mãe, 54. Para ele, ainda é difícil falar sobre ela. Se o pai deixou disciplina e ofício, a mãe deixou o afeto que sustenta tudo.
“A minha mãe era a melhor mãe que eu poderia ter, ela fez quem eu sou. A saudade é inacreditável. As coisas simples, quando eu chegava na barbearia e ela me via, e o meu filho falava com a gente, dava um abraço, dava um beijo no rosto, a gente brincava com o meu filho. Saudade de coisas tão simples, saudade de um abraço, de um beijo, uma conversa rápida.”
Ele conta que ela sempre incentivou Lucas na jornada para ser um bom barbeiro e que, assim como o pai, via nele chance de grandes coisas. “Minha mãe sempre me deu força, sempre falou sobre o meu potencial, sobre o que eu poderia me tornar na minha vida, sobre os meus erros, o que eu tinha que mudar, me ajudou a encontrar a direção na vida.”
Legado que não será apagado
Hoje, a barbearia carrega mais do que clientes. Carrega um compromisso. E Lucas já adianta: mesmo que a vida o leve para outros caminhos, ele pretende nunca abandonar o negócio do pai. Agora, além de questão afetiva, é um compromisso que selou consigo mesmo: honrar a memória de José e manter vivo o que ele tanto amava.
“Antes dele partir, eu já tinha isso no meu coração, esse desejo por focar na barbearia, mas agora, mais do que nunca, isso arde no meu coração, essa vontade de que ela prospere e prospere cada vez mais.”
Mesmo com planos de, no futuro, estudar psicologia, Lucas não pensa em fechar as portas do que o pai construiu. “Eu me imagino talvez nunca parando de cortar o cabelo.”
O estilo também guarda marcas dessa herança. O pai era dos cortes clássicos, sociais, da conversa tranquila com clientes mais velhos. Lucas segue um caminho parecido, ainda que atento às mudanças. “Eu não mexo com química. É corte, barba, sobrancelha. Agora o pessoal tem pedido muito o corte social. Os clientes querendo ter uma aparência um pouco mais madura.”
Entre um atendimento e outro, há também espaço para livros. Filosofia, psicologia, história. Uma prateleira que, mais do que decoração, revela um outro lado do barbeiro. “São poucos que pegam, às vezes os clientes ficam olhando e tal. Um ou outro pega para ler. Ficou mais como decoração, mas é livre para os clientes poderem pegar.”
A barbearia de Lucas fica na Avenida dos Cafezais, 1849.
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